quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Síncope

                                                                                                        Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Oi pessoal!

Antes de entrar no conteúdo em si, eu gostaria de esclarecer um detalhe que as vezes causa celeuma. Qual o termo correto Síncope ou Sincopa? Os dois estão corretos! Contudo, há um detalhe a ser levando em consideração!

Atualmente no Brasil se convencionou a utilização da palavra síncope. Entretanto, entre os músicos mais veteranos é muito comum o uso do termo sincopa. Isso talvez ocorra (não posso cravar!), por causa do referencial bibliográfico utilizado na formação de diferentes gerações.

Em seu livro Compêndio De Teoria Elementar Da Música (1962), Osvaldo Lacerda utiliza o termo “Sincopa”, que é o termo usado na língua espanhola. Já mais recentemente, em seu livro Teoria Musical, Bohumil Med utiliza o termo “Síncope”, que talvez seja uma tentativa de “aportuguesa” os termos Sincope (do italiano), Synkope (do alemão) e Syncope (do francês).  Isso claro é uma especulação, não tem nenhuma pesquisa (minha) sobre isso. Mas é provável que algum pesquisador mais cuidadoso tenha se debruçado sobre o tema.

Nesse texto irei usar o termo na sua forma mais comum no Brasil: Síncope.

Vamos ao que interessa!!

A síncope ocorre quando a duração de um tempo fraco ou de uma parte fraca de um tempo se prolonga sobre um tempo forte ou a parte forte de um tempo seguinte. Isso pode ocorrer por meio de uma ligadura (entre compassos diferentes) ou de uma variação na escrita das estruturas rítmicas dentro de um mesmo compasso.

Lacerda chama a atenção para supressão do acento “natural” no tempo forte ou na parte forte de um tempo (LACERDA pág. 38). Med coloca que a síncope “produz um efeito de deslocamento das acentuações naturais” ocasionando “uma sensação de desorientação métrica pela falta do acento esperado” (MED, pág. 143).



  • Observação preciosista: A figura rítmica que “sofre” a síncope é aquele que perde seu acento métrico natural.
Exemplos e observações



figura 1
Na figura 1 temos exemplos comuns de síncopes ocasionadas por ligaduras entre dois diferentes compassos. Nesses exemplos estou utilizando o compasso binário para facilitar a visualização.

A: figura rítmica no tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura que está no tempo forte do compasso seguinte.

B: A figura da parte fraco do tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura no tempo forte do compasso seguinte.

C: A figura do tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura na parte forte do tempo forte do compasso seguinte.

D: A figura da parte fraco do tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura na parte forte do tempo forte do compasso seguinte.

figura 2
Na figura 1 temos exemplos comuns de síncopes ocasionadas por ligaduras ou variação na escrita das estruturas rítmicas dentro de um mesmo compasso. Nesses exemplos estou utilizando o compasso quaternário para facilitar a visualização.

A: figura rítmica no tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura que está no tempo meio-forte seguinte. 

B: As figuras nas partes fracas dos tempos expandem suas durações sobre as figuras nas partes fortes dos tempos seguintes.

C: Nesse exemplo ocorre juntas as situações descritas em A e B.

D: Temos uma variação na escrita das estruturas rítmicas de B.

E: Esse exemplo é uma "forçada de barra" de minha parte, dificilmente essa situação será usada para exemplificar uma síncope, mas é interessante pensar que toda regra teórica em música tem de ser observada com parcimônia.

Para finalizar, lembro que Med chama atenção para algumas classificações que ajudam a analisar a síncope no texto musical.

Ritmo sincopado: É aquele onde os acentos métricos estão em desacordo com a métrica "natural" de uma figura rítmica ou compasso. (MED, pág. 145)

Sincope regular: Liga duas figuras rítmicas de mesma duração (Exemplo A das figuras 1 e 2).

Sincope irregular: Liga duas figuras rítmicas de duração diferente (Exemplo B e C da figuras 1 e exemplo C da figura 2).Liga duas figuras rítmicas de mesma duração (Exemplo A das figuras 1 e 2).

Bom, continuaremos na próxima publicação sobre Contratempo.

Divirtam-se (ou não)!

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Métrica e outros aspectos (tópicos de teoria básica).

                                                                                                    Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior
Oi pessoal!

Uma coisa que sempre me incomodou é o fato da imensa confusão que existe em relação aos usos feitos de termos como Acento Métrico, Síncope, Contra-tempo, Tempo Forte, Anacruse e etc.

Observo que há uma imensa confusão em relação a esses conceitos. Mas o pior de tudo é ouvir músicos (práticos) e "entendidos em música" cometerem verdadeiras aberrações quando tentam usar ou explicar esses conceitos. A meu ver, isso se dá, porque alguns músicos baseiam seus conceitos sobre o assunto em meros "achismo" ou apenas repetem um bordão que já foi lhe ensinado errado.

Por desencargo de consciência resolvi fazer uma pequena série de quatro postagens sobre esses assuntos. Tentarei apresentar tudo de forma simples e rápida.

Nessas postagem vou utilizar como base alguns textos teóricos (para ninguém falar de achismo!) de fácil acesso e amplamente aceitos e utilizados tanto em escolas de música quando em cursos superiores. São esses textos:

Teoria Musical - Bohomil Med (4º edição);
Compêndio de teoria elementar da música - Osvaldo Lacerda;
Fraseologia Musical - Esther Scliar;
Elementos básicos da música - Roy Bennet.


Acento Métrico

Conceito: É uma intensidade atribuída a uma determinada nota (figura rítmica) numa estrutura musical (pulso ou compasso). (Med pág. 41/ Em itálico estão complementos colocados por mim).

- Quando eu acentuo (executo com mais força) uma determinada figura ou um determinado tempo numa contagem de pulso, eu estou acentuando ou destacando aquela determinada fração de tempo.

Digamos que vamos contar de 1 até 4. E nessa contagem eu darei ênfase ao número três:

1 - 2 - 3 - 4 - 1 - 2 - - 4 - 1 - 2 - - 4 - 1 - 2 - - 4

Estou acentuando o terceiro momento dentro da minha contagem! Então podemos em música dá mais enfase a determinadas frações de tempo do que a outras. Essa dinâmica concede um sentido de apoio e suspensão para a estrutura rítmica da música.

Essa ideia é extensamente aplicada na música tanto uma sentido micro (dentro de um pulso) quando no sentido macro (numa frase ou período musical).

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Antes de seguirmos gostaria de delinear dois conceitos: Pulso (tempo) e Ritmo.

Pulso: é um marcação (batida) regular que serve como referência de velocidade ou andamento da música.

Ritmo: é distribuição temporal ordenada dos sons dentro da música, ele é o componente central da música. Sem ele não existe noção de estrutura musical. Para que essa ordenação dentro de tempo seja facilmente compreendida devemos ocorrer a uma referência, o pulso (ou tempo). 

O ritmo numa escala micro é uma forma de fracionar a duração de um pulso em partes menores. Mas ao mesmo tempo ele pode se expandir sobre a duração de vários pulsos.

Definir o que é o ritmo é algo complexo. Pois dentro da música ele atua em diferentes dimensões. Sua influência vai além do movimento e e articulação das durações. O ritmo interfere em elementos que muitas vezes não lhe são associados na música, tal como a harmonia (mais isso é uma discussão para outra publicação.     

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Acentuação num contexto micro (tempos e compassos)

Dentro de um pulso (tempo) temos uma subdivisão regida pela acentuação. Chamamos de Parte Forte do Pulso ou do Tempo o momento do "ataque", ou seja, quando começamos a contar (também chamado de Apoio ou Tesis). E uma Parte Fraca do Tempo  (também chamada de Suspensão ou Arsis) que é o intervalo de temporal entre cada "ataque" da Parte Forte.

Figura 1

Na figura 1 temos uma contagem simples de dois tempos. Sendo cada tempo ou pulso dividido em duas parte uma mais forte e outra fraca. Quando estamos aprendendo a contagem de tempo é muito comum fazermos o exercício de denotar para as partes fortes um número e para as partes fracas a letra "e".

Esse mesma ideia é expandida para estruturas maiores como os compassos. O compasso é uma divisão de um trecho musical em um série regular de acentuações e durações. 

Dentro de um compassos temos os Tempos Fortes e os Tempos Fracos


Figura 2
Na figura 2 temos um compasso binário onde a divisão de tempos fortes e fracos é bem clara. O primeiro tempo é sempre acentuado, por esse motivo ele se destaca e concede uma sensação de regularidade a compasso.

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A acentuação também é utilizada para criar fórmulas compassos irregulares. Mas esse também é assunto para uma outra postagem! 

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De acordo com Osvaldo Lacerda podemos seguir o seguinte raciocínio (pág. 19 tópico 36) para organizar as divisões métricas baseadas na acentuação:

  • Os tempos ou pulsos são divididos em Partes Fortes e Partes Fracas. 
  • Os compassos podem ser divididos em Tempos Fortes e Tempos Fracos.

Figura 3

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Para ninguém dizer que deixei passar. O Lacerda também se refere a uma acentuação "meio-forte". Que aparace em compassos como o quartenário, onde o terceiro tempo também é visto como um apoio de menor intensidade que o primeiro tempo.

figura 4
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Para finalizar, três exemplo para analise

figura 5

No exemplo A, temos uma pausa sobre a Parte Forte do primeiro tempo do compasso. E nesse caso apenas a Parte Fraca do primeiro tempo é executada. Todos os outros tempos do compasso são executados a partir de suas Partes Fortes.

No exemplo B, ocorre com o segundo Tempo do Compasso o mesmo que ocorreu com o primeiro tempo do exemplo A. O Tempo Forte do compasso (o 1º) e o Tempo Meio-forte do compasso ( o 3º) são executados a partir de suas Parte Fortes. Já o Quarto Tempo não apresentada som, ele apenas é contado.

No exemplo C, os tempos 1 e 4 do compasso não são tocados apenas contados. O tempo 2 é tocado a partir de sua Parte Forte e o tempo 3 tem apenas sua Parte Fraca tocada.

Conclusão... Por Enquanto.    

Bem, como vocês viram não me aprofundei muito, apenas tentei pontuar de forma simples e objetiva o conceitos básicos de acentuação. Em seguida apresentei de como essa acentuação é importante para delimitar as estruturas básicas do ritmo musical. Na próxima postagem vou abordar o conceito de Sincope ou Sincopa. 


Links para Artigos que desenvolvem o assunto:



terça-feira, 10 de setembro de 2019

Mozart - Jogo de dados musical (Musikalisches Wuerfelspiel)

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Musikalisches Wuerfelspiel é um quebra-cabeças musical atribuído a W. A. Mozart. Atualmente, esse jogo musical faz muito mais "sucesso" entre matemáticos e programadores do que entre os músicos (esses "ignorantes") por suas propriedades matemáticas e probabilísticas.

Os resultados estéticos do jogo são encantadores! Nele temos a possibilidade de gerar pequenos minuetos, trios e valsas no estilo rococó. Uma bela peça de exercício intelectual, lógico, matemático e estético.

Com uma busca rápida podemos encontra aplicativos que simulam o jogo e geram as composições em MIDI.

Aplicativo on line do jogo de dados (Atenção o programador inverteu as tabelas do minueto e do trio..rsrs)
LINK

Versão editada com todas as tabelas e trechos musicais:
LINK PARA BAIXAR

Vídeo do canal M3 Matemática Multimídia sobre o assunto:
LINK

Divirtam-se!

Explicando o jogo de Dados Musical























No sentido vertical temos todas as colunas contendo todas as possibilidades de soma dos resultados obtidos
por dois dados:


  •  Menor valor: 2
  •  Maior valor: 12  


No sentido horizontal temos 16 colunas que indicam o número de compassos para composição do minueto ou trio. Dentro de cada coluna horizontal temos um número que indica um trecho musical
(Tabela da Página seguinte).

Tabela do trio (jogo de um dado)
Na coluna vertical temos todas os obtidos por um dado:

  • Menor valor: 1
  • Maior valor: 6  

Como jogar:

O jogo funciona como o quebra-cabeça no qual você vai combinando os trechos musicais representados por números até compor uma peça musical inteira.

Por exemplo: jogo os dados e o valor somado é 8. Observa a tabela vertical dos valores no número 8.
Em seguida, observo a coluna horizontal 1 (compassos) onde teremos o trecho musical de número 152 (ver tabelas na página seguinte).

Seguindo esse processo descubro que a o primeiro compasso da minha composição será formado pelo trecho musical 152!

Jogo novamente os dados e repito o processo. Digamos que novamente caí o número 8, seguindo o mesmo processo só que agora sigo para coluna horizontal 2, onde tenho o trecho musical 60.

Esse processo repetido 16 vezes gera um minueto completo com início meio e fim.

O mesmo processo se aplica na composição do trio. Ao final teremos uma composição de 32 compassos.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Régua para montagem das escalas maiores e acordes maiores e menores.

Por Marcello Ferreira Soares Junior 

Oi pessoal,

Faz tempo que não posto nada (A vida tem sido corrida!). Mas para não deixar o blog ao "relento" vou postar o link para um ferramenta simples que uso como material didático no ensino das escalas maiores e acordes maiores e menores.

É um pappercraft que elaborei no formato de uma régua que auxilia o inciante no estudo da teoria musical a montar escalas maiores e acordes maiores e menores,






Segue o link:

LINK

Abs.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Milonga: uma introdução.

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Gênero musical e poético Milonga: De onde vim e quem sou eu?


Apresento uma introdução através desse material que organizei para para alunos do ensino médio. O material é baseado em estudos, artigos e vídeos documentais brasileiros, argentinos e uruguaios.
Gênero musical e poético Milonga: De onde vim e quem sou eu?
O termo Milonga vêm do dialeto Quimbanda (originário de Angola) e significa Palavra. Esse dialeto foi trazidos para América do Sul pelos escravos advindos da África ocidental. Esse termo foi utilizado para identificar a Payada. A Payada (na Argentina, Uruguai, sul do Brasil e em parte de Paraguai e Chile) é uma forma de improviso poético musical, trazido da cultura hispánica e ibérica, e que adquiriu uma forma própria na região Sul da América. 
A figura do payador uma mistura de músico, poeta e contador e de histórias itinerantes, essa figura têm paralelos com vários outros tipos de músicos itinerantes do Brasil como os cantadores e repentistas. Os Payadores contavam histórias em rimas acompanhados pelo violão ou guitarra espanhola e tocavam música para dança. 
A categoria de músicos poetas tem suas origens no mundo antigo e nas mais diferentes civilizações (Grega, Hindu, Romana, Árabe, Povos indo-europeus e África subsaariana). 
Na região da bacia do Rio da Prata, o termo Milonga batizou esse gênero musical tão particular da região. Inicialmente, o termo era usado da designar as danças entre casais (danças de origem afro ou europeias). A Milonga canção se desenvolve graças aos “payadores”.
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Atahualpa Yapunqui
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Airton Pimental
            
Hoje a Milonga assume várias formas (canção, instrumental, música dançante) e é associada músicos de diferentes vertentes e gerações como: Atahualpa Yapunqui (Arg); Jorge Drexler (Uru), além dos gaúchos César Passarinho, Airton Pimentel e Vitor Ramil. 
A origem da milonga (milonga campera) não é seguramente conhecida. Acredita-se, que a Milonga contenha tantos elementos da cultura Afro-americana (Candoblé, por causa de sua constituição rítmica), quanto das danças europeias Habanera (Espanha) e Quadrilha (portuguesa e francesa) que chegaram à  Buenos Aires e Montevidéu através, principalmente, de rotas comerciais do Peru, Espanha, Brasil e Cuba. Entre suas origens musicais temos a Guajira, gênero de origem caribenho conhecido na Espanha do séc. XVIII com Punto de La Habana
Os elementos musicais compartilhados entre a América e Europa passaram por uma série transformações e adaptações passando pelo filtro da cultura afro americana em cada região por onde passaram. Esse fenômeno resultou nas semelhanças da Milonga apresenta com outros ritmos, como, por exemplo, a Chamarrita. O próprio Tango (gênero musical símbolo da Argentina) surge como um subgênero da Milonga.
Podemos dividir em a Milonga é classificada por alguns pesquisadores dentro de duas categorias básicas:
Campera, pampeana ou surera (sureña) - é a folclórica “tradicional”. 
Ciudadana ou sentimental - surgiu no anos 30 na Argentina com o músico e compositor Sebástian Piana. A Milonga Ciudadana ou sentimental era uma versão estilizada da Milonga Campera. Esse estilo assume tanto a forma instrumental quanto canção
Outras variantes:
Milongón - surgiu e se desenvolveu pelos compositores negros de Montevideo (Uruguai).
Chorrillera (ou chorrillero) - Música folclórica da província de Santa Cruz (Argentina). Mistura a Milonga com o Kaani (dança e música argentina com influências indígenas).
Riodelaplatabasinmap.png
Muitos gêneros musicais da região da Bacia Platina tens ligação com a Milonga: Tango, Chamarrita, Zamba, Chacarera, Chamamé, Guarânia.
Detalhes técnicos

A divisão rítmica da milonga é uma de suas características singulares.

Ela divide um compasso simples (4/4 ou 2/4) em três acentuações. Utilizando como unidade a colcheia no compasso 4/4 e a semicolcheia no compasso 2/4. Essa divisão pode ser representada por um esquema número: 3+3+2.
Letras e temáticas

A Milonga é um canal de expressão natural do cancioneiro na região sul da América Latina.

Suas letras tem alguns aspectos gerais:

Suas letras são muitas vezes escritas em forma de narrativa. Cheias de imagem poéticas e relações com a vida do campo (no caso da Milonga rural). 

As letras têm sempre um ar bucólico, muitas vezes introspectivo, tratam da vida do homem dos pampas, seus amores, sua ligação com o modo de vida e simplicidade do campo.

A Milonga também deu espaço ao discurso político como com o compositor argentino Atahualpa Yapunqui. No Rio Grande do Sul, com a canção Semeadura de Vitor Ramil e Carlos Moscardini. Contudo, em momentos bastante pontuais.

Dois grandes poetas e compositores do gênero são César Passarinho e Airton Pimentel.

Guri - Cesar Passarinho (link video)


Das roupas velhas do pai queria que a mãe fizesse

Uma mala de garupa e uma bombacha e me desse


Queria boinas e alpargatas e um cachorro companheiro

Pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço sogueiro


Hei de ter uma tabuada e o meu livro "Queres Ler"

Vou aprender a fazer contas e algum bilhete escrever

Pra que a filha do seu Bento saiba que ela é meu bem querer

E se não for por escrito eu não me animo a dizer… (trecho de Guri de César Passarinho)

Obs. A Milonga também tem seu lado instrumental com músicos como Jorge Cardoso e Renato Borghetti.
Ouça:
Mais referências


terça-feira, 24 de julho de 2018

Ópera Séria e Cômica do Classicismo: Uma micro-mini introdução.

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Oi Pessoal, esse texto estava perdido em um "backup da vida". O texto está na sua forma bruta, ou seja, sem correções ou revisões. Mas tem informações interessantes.

Mutatis Mutandis

Durante o período Clássico a música e seus diversos gêneros passaram por profundas transformações. Dentro desse cenário a ópera séria começou a tomar os contornos que de forma geral se manteriam até o fim do Romantismo.

Contudo, essas mudanças não foram (como tudo na arte) um processo imediato a tragédie lyrique francesa e o estilo veneziano resistiram na Europa central (Alemanha e Áustria). 

Foi da Itália – berço da ópera – que veio o impulso inicial dessa “reforma”. No séc. XVIII munidas das ideias iluministas de racionalidade, simplicidade, clareza e naturalidade inspiraram tanto os compositores quanto os poetas, que passaram a perseguir o ideal de uma linguagem musical mais universal e cativante, sem os “cansativos” e “pesados” enredos e estruturas musicais do Barroco.

Aspectos da mudança (mas algumas coisas continuam velhas!)

Os compositores italianos do final do século XVII e inicio do século XVIII iniciaram um processo de adaptar os ideais de naturalidade e profundidade expressiva. Musicalmente, uma maior flexibilidade da forma.

A ária da capo que figura como elemento primordial da ópera barroca continua ser utilizada. Contudo, os compositores começam a explorar variações sobre sua fórmula ou buscar alternativas. Para tornar a ação dramática mais ágil, recitativos e árias passam a figura de forma mais alternada e dinâmica.

O recitativo obbligato passa a ser mais utilizado. O obbligato continua como no barroco sendo executado por um instrumento de teclado e um baixo (em alguns raros acompanhando por um conjunto reduzido das cordas). Contudo, durante o século XVIII, paulatinamente, a orquestra passar a substituir o conjunto reduzido.

Nesse período podemos observar a ampliação do papel da orquestra dentro a ópera (que vai chegar a seu ápice com Richard Wagner e nos momentos finais do Romantismo do séc. XIX). A orquestra passar a ter um papel fundamental dentro da trama teatral. Efeitos musicais, experimentação de timbres criam um sound design que reforça a ação dramática. 

Podemos observar em Mozart o uso dos pizzicatos nas cordas para soar como um violão no acampamento da ária Voi CheSapete (Le Nozze di Figaro), a orquestra não apenas harmoniza a melodia do canto, mas também ambienta e participa da cena. No Barroco a função da orquestra resumia a interpretar a abertura e fazer o acampamento harmônico para melodia dos cantores.

O coro também retorna a fazer parte dos recursos musicais e teatrais da ópera (Novamente, esse processo retomado dos coros dentro da ópera também vai ter sua culminância no romantismo, um bom exemplo, são os coros de Verdi).   

Princípios clareza e simplicidade das estruturas nortearam a composição do Classicismo, dessa forma, os “excessos” Barrocos foram sendo substituídos. A coloratura nas partes vocais solistas foi reduzida, para os compositores a ornamentação demasiada das melodias vocais era vista como antinatural (além disso, existia a critica acerca do exibicionismo gratuito dos cantores).

Os castrati continuaram a ser amplamente utilizados, principalmente, nos papeis principais masculinos (para os menos informados causa estranheza assistir montagens contemporâneas onde sopranos assumem papeis masculinos).        

O italiano poeta Pietro Metastasio (1689-1782) – Metatasio foi uma alcunha assumida por Antônio Domenico Bonaventura Trapassi – foi um dos artífices dessa nova ópera. Libretos de Metastasio influenciaram tanto a linguagem quanto a estrutura das obras. 

Os textos de Metastasio abordavam as paixões humanas (algumas releituras dos textos gregos e latinos clássicos). Basicamente, seus elencos eram compostos de dois casais e uma série de personagens secundários (como os tiranos magnânimos, muito apreciados na época). 

Muitos compositores do século XVIII utilizaram as obras de Metastasio como base de suas composições. Compositores como Mozart, Alessandro Scarlatti, Benedetto Marcelo e Pergolesi musicaram os textos de Metastasio.  

As óperas passam a serem montadas de maneira quase invariável em três atos, onde os recitativos e as árias se alternam, sendo que a ação dramática se desenvolve por meio dos diálogos do recitativo e as árias se apresentam como monólogos dramáticos, onde as personagens expressavam seus pensamentos e conflitos. Algumas vezes as árias eram compostas para duetos.

Os balés ou outros elementos ornamentais da ópera Barroca são abandonados.

A ópera Cômica

 Neste contexto o gênero da Ópera Cômica (opere buffe) ganha força, este o termo italiano descreve o gênero da ópera-cômica. Em sua origem estava ligada ao estilo Napolitano da primeira metade do século XVIII, de onde sua popularidade se espalhou para Roma e o norte da Itália.

As óperas cômicas eram apresentadas nos intervalos de entre os atos das óperas sérias, assim eram normalmente curtas e sua montagem, texto e música eram mais “leves” e dinâmicos que os da ópera séria. O compositor Giovanni Battista Pergolesi foi um dos mestres desse gênero sua La ServaPadrona é um importante e belo exemplo dos aspectos fundamentais desse gênero (mereceria uma postagem própria!).

A ópera Cômica se distingue da ópera séria por seus temas, pelo tipo das vozes e pela forma das árias. Enquanto a ópera séria trata com grande formalismo de temas míticos, heroicos ou da realeza, com vozes majoritariamente agudas mesmo para papéis masculinos, com raros baixos ou barítonos, a opera Cômica foca assuntos cotidianos, em tramas ágeis, vivazes e humorísticas.

Na França temos a opéra comique que era uma forma modesta de diversão popular, onde se sucediam peças teatrais rápidas e cômicas. A música, inicialmente, era composta de melodias populares (os vaudevilles). Com o tempo de forma gradual os vaudevilles foram sendo substituídos por composições originais, as aríetes

Um aspecto interessante da opéra comique não se fazia uso dos recitativos, os diálogos eram falados como no teatro (tendência generalizada da época), um exemplo dessa tendencia que ultrapassou os limites da ópera cômica os os diálogos da Flauta Mágica de Mozart. 

A opéra comique  deve autores celebres como Jean-Jacques Rousseau que escreveu Le devin du Village. É bom lembrar que durante o período próximo da revolução francesa os libretos da opéra comique ganharam temas referentes às questões politicas e sociais francesas.  

Na Inglaterra tínhamos as ballad opera que eram sátiras às óperas de estilo italiano em moda na corte. Sua música em grande parte era composta de parodias daquela presenta nas óperas. A obra mais destacada desse gênero cômico foi The Beggar’s Opera composta por John Gay em 1729.  

Algumas das mais conhecidas e importantes obras da ópera cômica italiana (ou do estilo italiano)  são: La Serva Padrona de Pergolesi; Il Matrimonio Segreto de Domenico Cimarosa; Così Fan Tutte e Le Nozze Di Figaro de Mozart.0

Guerra dos Bufões

Durante toda sua existência a ópera foi um ”campo de batalha” estético, filosófico. Muitos foram os motivos para a deflagração das “hostilidades”. De combate à superficialidade dos libretos quanto às frivolidades dos cantores e a música exuberante (música ligeira) até mero bairrismo.

Por volta do ano de 1752, a ópera de estilo italiano dominava o gosto europeu. Em Paris, seu sucesso de público e critica contrastava com a decadência das óperas de estilo francês (subsidiadas pelo estado). A presença de uma companhia de ópera cômica italiana e seu sucesso na capital francesa foi o estopim para uma discussão verbal entre defensores e opositores dos dois estilos. 

Críticos, compositores, intelectuais (e pseudo-intelectuais, sim! Naquela época já tinham aos montes!) e apreciadores entraram na “briga”. Rousseau (Ele de novo!) chegou a escrever um famoso artigo onde defendia que a língua francesa era “inadequada ao canto” e “que os franceses não têm música, nem podem tê-la, ou, se a tiverem, muito pior será para eles” (Os franceses pegam pesado!).

Essa querela ficou conhecida como A Guerra dos Bufões (Guerre des Bouffons).   

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Interlúdio Bufo

Bom, resolvi destacar quatro compositores, claro, é um resumo rápido e rasteiro (só para fechar a postagem com cara de seriedade). Por exemplo, as óperas de Mozart mereceriam uma postagem para cada (tá eu admito. Amo Mozart!). Se eu fosse listar os grandes compositores e colaboradores haveria material para escrever um, dois, três... Trinta livros. A Editora Perspectiva publicou uma belíssima coleção sobre a história da ópera. Link
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Niccolò Jommelli (Aversa, 10 de setembro de 1714 - Nápoles, 25 de agosto de 1774) foi um compositor italiano. Iniciou seus estudos em 1725 no Conservatório di Santo Onofrio a Capuana em Nápoles, e depois passou ao Conservatório di Santa Maria della Pietà dei Turchini, Jommelli foi influenciado por Johann Adolf Hasse, que estava em Nápoles durante este período. Após concluir seus estudos, começou a compor escrevendo a ópera bufa L'errore Amorosa no início de 1737. Sua primeira ópera séria, Ricimero re di Goti, foi um sucesso em Roma em 1740.

Jommelli escreveu cerca de sessenta óperas sérias, muitas com libretos de Metastasio. Em seu trabalho, Jommelli tendia a se concentrar mais na história e no drama, além de conceder espaço ao virtuosismo vocal, como era comum na ópera italiana na época. Ele aumentou o número de conjuntos e coros nas óperas e introduziu cenas de bailado, influencia de Rameau. 

Jommeli em suas composições deu atenção a importância da orquestra (em especial os instrumentos de sopro) para ilustrar os acontecimentos da história, com ele vez a orquestra deixa de ser apenas simples apoio para os cantores. Suas reformas são por vezes consideradas como iguais em importância às de Christoph Willibald Gluck.

Christoph Willibald von Gluck (1714/1787), depois de compor dezenas de óperas em estilo napolitano ou no estilo pomposo francês, procurou desenvolver um tipo de espetáculo diferente e, nos prefácios de suas óperas "Orfeu e Eurídice" (1762) e "Alceste" (1767), defendeu os seguintes pontos de vista:

·        O enredo deve ser simples
·        A abertura é uma peça instrumental que contém varias melodias da ópera, ela deve preparar a plateia.
·        O recitativo e a ária não devem atrapalhar a ação
·        A música deve servir ao texto, procurando a verdade cênica.

Mozart herdou e ampliou as idéias de Gluck. Como tinha profundidade dramática e grande versatilidade musical (misturou elementos estilísticos barrocos, franceses, napolitanos, a ópera bufa, o singspiel e o pré-romantismo), conseguiu caracterizar de modo adequado personagens e situações. Compôs óperas com temas mitológicos, históricos, políticos, cotidianos e até fantásticos, explorando o drama, o humor e o erotismo.


Antonio Salieri (Legnago, 18 de agosto de 1750 – Viena, 7 de maio de 1825), compositor operístico italiano. Foi Compositor Oficial da Corte de José II, Arquiduque da Áustria. Foi uma dos grandes compositores de sua época. Filho de uma família próspera de comerciantes, Salieri foi aluno de Giuseppe Tartini e também estudou com Giovanni Battista Pescetti. 

Em 1788 Salieri tornou-se Maestro da Orquestra Imperial (Imperiales Königliches Kapellmeister), cargo que manteve até 1824. Foi respeitado e chegou a se tornar presidente do "Tonkünstler-Societät" (sociedade dos artistas musicais) de 1788 a 1795, vice-presidente após 1795, e responsável pelos seus concertos até 1818. Sua ópera foi muito influenciada por Gluck.

Entre as suas trinta e nove óperas se destacam: Armida (1771), La Scuola de' gelosi, (1778), Der Rauchfangkehrer (1781), Tarare (1787), Axur, re d'Ormus (1788), Palmira, Regina diz Persia (1795), Falstaff o sia Lê tre burle (1799)


Wolfgang Amadeus Mozart

As óperas estão entre suas composições mais importantes de Mozart, elas incorporaram elementos diferenciados como: o singspiel alemão; ópera séria e ópera Cômica italianas. Entretanto, nenhuma destas influências tem mais destaque, pois em suas obras contém traços comuns de todas. Mesmo nas óperas Cômicas, onde temos elementos dramáticos de grande peso na trama e seriedade no caráter da música, na partitura de Don Giovanni temos, por exemplo, a observação "drama jocoso".

Em geral suas primeiras obras seguem as convenções da ópera séria, concentrando suas forças em árias e na exibição do virtuosismo vocal. Em seguida passa a demonstra entendimento das convenções do teatro e das maneiras de obter o melhor efeito dramático. Evitou cadências de caráter fortemente conclusivo ao fim de cada número, para que a integração entre eles se fizesse mais natural e contínua, eliminou o decorativismo da tradição italiana do bel canto, e usando recursos simples escreveu música sóbria e expressiva, provendo-a de grande intensidade patética e lírica.

Um dos seus grandes colaboradores foi Lorenzo da Ponte, que escreveu os libretos para: As Bodas de Fígaro, Don Giovanni e Così Fan Tutte, na fase final de sua carreira. Em todas elas os personagens burgueses ou cômicos recebem um tratamento musical de idêntica importância ao dos personagens heroicos e nobres. 

É fato que Mozart não mudou as convenções do gênero, mas atribuiu a elas um poder sonoro, alcance dramático e penetração psicológica sem paralelos até então vistos. Sua arquitetura sonora é elegante, sua harmonia transparente, colorida e sutileza, a orquestração é leve e evocativa.

Suas duas últimas óperas foram A Flauta Mágica e A Clemência de Tito foram óperas sérias. A Flauta Mágica é o melhor exemplo do interesse de Mozart na criação de uma ópera nacional germânica, tanto em forma como em expressão, empregando o alemão como língua do libreto e realizando uma concepção expandida da forma do singspiel

Tecnicamente, a escrita vocal não atende ao exibicionismo, mas ao dramático. Mozart em alguns casos é bastante econômica; em vários momentos o compositor baseia a ação nos recursos da voz, na coreografia dos personagens, com passagens declamatórias inovadoras, de forte qualidade dramática e coerência harmônica, traços que desencadeiam mutações imprevistas e inusitadas na estrutura geral da obra.

Mozart procurou dar a ária um papel mais ativo dentro da ação, assim buscou libretos que oferecessem uma dramaturgia mais dinâmica. Assim, a ária se tornou um mecanismo funcional dentro do enredo. Contundo, essa função se encontra de forma mais ou menos rígida em suas óperas. Tá foi um resumo bem rasteiro (eu disse que seria). As obras, conquistas e colaborações musicais e estéticas de são imensas. Uma boa pedida é o livro A Ópera Alemã de Lauro Machado Coelho e  Mozart and His Operas de David Cairns.

Óperas de Wolfgang Amadeus Mozart


Die Schuldigkeit des Ersten Gebots (1767); Apollo et Hyacinthus (1767); Bastien und Bastienne (1768); La finta semplice (1769); Mitridate, ré di Ponto (1770); La Betulia liberata (1770); Ascanio in Alba (1771); Il sogno di Scipione (1772); Lucio Silla (1772); La finta giardiniera (1775); Il re pastore (1775); Zaide (1780); Idomeneo, ré di Creta (1781); O Rapto do Serralho (1782); L'oca del Cairo (1783); Lo sposo deluso (1784); O Empresário Teatral (1786); As Bodas de Fígaro (1786); Don Giovanni (1787); Così fan tutte (1790); A Flauta Mágica (1791); A Clemência de Tito (1791).



Alguns outros importantes compositores de óperas do classicismo:

Joseph Haydn (1732/1809), Giovanni Paisiello (1740/1816), Domenico Cimarosa (1749/1801), Antonio Salieri (1750/1825), Luigi Cherubini (1760/1842) 

Ps: Depois reviso a publicação... rsrs

História da música ocidental - Donald Jay Grout, Claude V. Palisca
Uma Breve História da Música - Roy Bennett
Masterpeices of music before 1750 - Carl Parrish
Music: The Definitive Visual History - Ian Blenkinsop
A Concise History of Western Music - Paul Griffiths
Harvard Dictionary of Music - Willi Apel

PS: Foda-se abnt




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