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sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Synthwave - Parte 1: Como surgiu, onde e o que é (não exatamente nessa ordem!).

Estou desde de 2022 tentando escrever essa postagem. Sempre batia aquela preguiça de pesquisar, analisar e compilar informações. Mas um dia você tem de “bater o martelo” e dizer “deu”!
É sempre bom e consequentemente mais fácil falar de algo após o hype. Por motivos óbvios: você encontra mais material para consulta e, principalmente, consegue “olhar de fora”. Bom, esse texto vai ser grande, mas me esforcei tentando deixá-lo mais simples e direto. Tudo aqui será tratado de forma generalizante, ou seja, todos os aspectos abordados têm sentido amplo e geral, no estilo guarda-chuva. Dessa forma, não vou me deter detalhes específicos de uma artista ou estética de uma obra em particular. É o esquema bandejão-bastantão! Synthwave: Como surgiu, onde e o que é (não exatamente nessa ordem!).
O synthwave é comumente definido como um subgênero da música eletrônica, com características pós-modernas, nostálgicas e revivalistas da música eletrônica popular dos anos 1980: synthpop, o post-punk, mas também busca referências nas trilhas musicais de videogames de meados dos anos 90/2000. O que torna o synthwave tão reconhecível são os marcos sonoros do gênero. Esses marcos se apresentam em suas diversas vertentes em diferentes graus de intensidade. No caso do synthwave, identificam-se como marcadores o som de baixo "fat line bass" do Korg PolySix (1981) e o uso de sintetizadores vintage como Yamaha DX7, Roland Jupiter 8, Juno-60, Juno-106 e Oberheim OB-X, além das caixas de ritmo Linn LM-1 e Roland TR-808. Além disso, Porém o synthwave se distingue do synthpop dos anos 1980 por sua conexão com o cinema de ficção científica e games. Duas trilhas sonoras de filmes solidificaram essa associação: Blade Runner (1982) de Vangelis, e a versão de Metropolis (1984) de Giorgio Moroder. Também podemos citar as trilhas sonoras de B-Movies criadas por Tangerine Dream, Goblin e John Carpenter. Além de uma menção honrosa a trilha (particularmente do primeiro episódio) da animação franco-americana M.A.S.K. (1985) de Shuki Levy & Haim Saban. As trilhas sonoras da SEGA pela banda japonesa S.S.T. Band Também podemos citar marcadores visuais como a estética de games e a arte gráfica publicitária de artistas como Patrick Nagel. Origem do Synthwave
O que podemos apontar como um “surgimento do gênero” ocorreu na segunda metade dos anos 90 e começou a ganhar força no início dos anos 2000. Alguns pesquisadores e artistas defendem que ele é um desdobramento do movimento de música de 16 bits produzido a partir de midi muito popular entre os amantes de video games. Com certeza há uma influência dessa produção musical. Contudo, ela não é o único fator ou determinante.
Apontar um momento de surgimento para uma manifestação cultural/artística é sempre complicado. É bem plausível afirmar que o Synthwave é o resultado de um longo processo de transformação e adaptação da música eletrônica pop que nunca parou desde de seu surgimento. Claro, como esses processos ocorrem no underground quando florescem parecem para o grande público que surgiram “do mais absoluto nada”, como uma espécie de revelação! É charmoso pensar assim, só que é irreal.
Para entender o Synthwave observar o contexto de seu surgimento. Logo de cara, se eu fosse apontar um elemento cultural determinante para o florescimento do synthwave, colocaria minhas fichas em games como: - Grand Theft Auto: Vice City (2002) e sua “rádio” Wave 103 que apresentou a toda uma geração sucessos do synthpop 70/80. - Hotline Miami (2021) com sua trilha sonora calcada (aqui sim!) em artistas destacados do underground do synthwave em suas diversas vertentes (M|O|O|N, Perturbator, Carpenter Brut, Jasper Byrne, Scattle, El Huervo, Mitch Murder) Os primeiros artistas (dentro do que convencionamos chamar) de synthwave despontam na Europa, mais especificamente na França (país de longuíssima tradição de música eletrônica do pop até o experimental acadêmico): Kanvisky, College, Justice, Anoraak & Maethelvin, Carpenter Brut. Também podemos destacar o sueco Mitch Murder. Todos iniciam seu percurso dentro do universo independente. Sendo uma manifestação da cultura digital, o synthwave se beneficiou do ambiente tecnológico disponível: 🖱️ conectividade: internet com fóruns online e plataformas para veiculação e distribuição; 🎛️ acesso à tecnologia: popularização da produção musical caseira; avanço e acesso a ferramentas de produção musical (Daw e vst); 📼 acesso a um grande acervo da produção cultural dos anos 80/90: vídeos, áudios e imagens. Uma coisa temos que ter em mente: O synthwave é uma manifestação/produto da cultura digital e tecnologia dos anos 2000. O Synthwave expandiu-se a tal ponto que de consequência da cultura passou a influenciar num determinado momento a geração de objetos culturais baseados nele: filmes, games, mídias de informação, design gráfico, moda e publicidade. No momento, vivemos o momento pós-hype. Onde o gênero e suas vertentes retornam ao ambiente underground. Contudo, transformando e expandindo. O Conceito de “Nostalgia” no Synthwave. Para o senso comum o Synthwave como um movimento musical e cultural baseado numa espécie de re-memorização e reconstrução estética da década de 1980. A ideia central está na criação de uma nostalgia “re”construída de períodos e lugares que de fato nunca existiram de fato. Essa “nostalgia”, mesmo que baseada numa construção fictícia coletiva dos ouvintes com base em objetos da cultura popular de outro período, não deixa de legitimar sentimentos e sensações reais do ouvinte. O pesquisador Paul Ballam-Cross cunha o termo nostalgia reconstruída, para Ballam-Cross, o termo se refere tanto às referências culturais quanto à reconstrução ativa das memórias pelo ouvinte. Aspectos culturais, sociais e afetivos como: retrofuturismo; referências visuais e imaginário cinematográfico da cultura pop dos anos 80; sonoridades dos sintetizadores analógicos; angústias e isolamento da sociedade contemporânea. são motores que geram o ambiente para o surgimento e ampliação do synthwave. A “nostalgia musical” trazida pelo Synthwave costuma depender muito mais de memórias construídas por meio da bagagem cultural do ouvinte adquirido através do acesso às músicas, iconografia, filmes e moda do período do anos 80/90 do que uma vivência propriamente dita. Apesar de estar ligado ao senso de nostalgia, na realidade, o synthwave subverte o que entendemos sobre nostalgia real. Afinal, como sentir nostalgia de algo ou um passado que nunca vivenciado? O ouvinte que não viveu, na real, “recebeu as memórias” através do acesso ao acervo cultural exposto e a disposição dele em games e na internet. A nostalgia do Synthwave é uma “nostalgia vicária" ou "nostalgia histórica" é um termo que trata da capacidade de sentir saudade de uma época que nunca foi vivida pessoalmente. Isso gera conexão com uma narrativa cultural maior, gerando e reforçando laços de identidade e pertencimento a um grupo ou comunidade específica. A hauntologia é um conceito trabalhado pelo escritor e teórico cultural Mark Fisher, nos dá uma mãozinha para compreendermos a nostalgia ligada ao synthwave. O termo trata de um “anacronismo perpétuo” que para Fisher é uma característica específica da condição pós-moderna. O anacronismo perpétuo seria um estado de um presente constantemente "assombrado" por um imaginário de um passado e de um futuro que ainda não veio. Tipo tal coisa não é mais assim, ao mesmo tempo que tal coisa "ainda não" se transformou ou aconteceu. Ou seja, que fiquemos presos em um loop de repetição nostálgica imaginaria que ao mesmo tempo aguarda um futuro também imaginado. Doido né? Mas piora…🤯 O ideal "retro futurista" do synthwave é muito hauntológico. Pois, ao mesmo tempo que a nostalgia do synthwave moderno nos remete a imagens de um passado perdido, tambem nos trás imagens de um futuro também perdido ou inalcançado. Ou seja, aquele futuro imaginado nos anos 1980 nunca chegou a existir fora da ficção do synthpop dos anos 80 (é só ouvir Information Society ou Propaganda). Microficções Não é apenas uma “nostalgia reconstruída" que move o ouvinte do Synthwave, Essa “nostalgia” isso passa longe de ser algo compartilhado por todos os ouvintes do gênero. Para muitos ouvintes do gênero, narrativas fictícias que usam a música como sua plataforma de materialização são os atrativos. Muitas vezes os próprios ouvintes constroem ativamente uma micro-ficção sobre a música, essa microficção é baseada numa “memória coletiva” de objetos da cultura popular e midiática dos anos 80/90. O synthwave é particularizado como uma manifestação da cultura digital por dois aspectos: Narrativas dos Ouvintes e a figura do Ouvinte Online.
Em sua pesquisa Ballam-Cross chama a atenção para os comentários do YouTube em vídeos onde temos a música synthwave, neles os ouvintes criam o que ele chama de microficções narrativas: pequenas histórias ficcionais inspiradas na música e nas imagens dos vídeos. Isso foi incorporado também pelos artistas que começaram a criar “plots” para suas músicas ou álbuns. Por Exemplo: descrição do vídeo (full album) do Precog Zero “Case #1975” (2021): "Petrus dos Anjos é um designer da Neuro Rede que, ao lado da misteriosa Pristina Nigri, uma holo-artista do submundo da megalópole do Atlântico Sul, se envolve em uma teia de intrigas e arrisca a própria vida. Será que Petrus está louco ou sua consciência está presa em alguma realidade da Neuro Rede? Temendo por sua vida e sanidade, ele mergulha no submundo da megalópole. Em meio a perseguições nas Autobahns, lâminas reluzentes nos becos, hackers neurais, luzes e caos urbano, Petrus dos Anjos busca sua salvação." Para Ballam-Cross esses comentários revelam uma "suspensão de descrença" consciente e coletiva comum quando assistimos um filme ou lemos um texto de ficção. Elementos recorrentes nas microficções: pôr do sol, carros rápidos, neon, ficção científica, anos 1980/90, cultura digital, metacomentário irônico. Em alguns estilos temos menções a elementos de filmes de ação ou slashes no estilo dos anos 80. Temas Centrais do Synthwave O Synthwave apresenta alguns conceitos recorrentes em suas manifestações:
- Nostalgia funcionando como uma fantasia cultural de uma memória idealizada dos anos 80;

- Fantasia Cultural pode se manifestar como Retrofuturismo uma visão do futuro com uma estética visual do passado recente. Um motor para as micro ficções em alguns casos: uma fantasia urbana noturna sensação cinematográfica, ou paisagem litorâneas ao mesmo tempo vintages e tecnológicas;

- Validação e valorização (mesmo que equivocada) estéticas e tecnologias analógicas como: sintetizadores vintage; vídeos de qualidade VHS; imperfeições sonoras analógicas.
Falasse muito do Escapismo ligado ao Synthwave. Essa é uma discussão longa (chata e inútil). O que posso dizer é o seguinte: qual a manifestação artística e/ou cultural que não apela para a fantasia em suas manifestações? Até os materiais mais panfletários tem em alguma medida “seu pezinho fora da realidade” e ancorado numa fantasia.
Referências Artísticas e Estéticas
O Synthwave se apoia numa estética visual complexa e variada ligada a uma iconografia que remete a filmes, programas de tv, publicidade e moda dos anos 80/90.
O Synthwave ao mesmo tempo que se inspira na estética sonora e visual da cultura pop dos anos 1980, simultaneamente busca recriar essas referências, gerando uma versão idealizada destas mesmas referências. O que surge é uma mistura desconcertante de: tecnologia vintage, sintetizadores analógicos, ambientes cinematográficos, noites neon, videogames arcade, crepúsculos impossíveis, carros velozes. Gerando estilos tão diversos como: Retrowave; Outrun; Neon Noir.
Mas que tem como ponto de contato esse simulacro de recriação e ressignificação de signos culturais de outro tempo, de um tempo não vivenciado.

O Synthwave - Parte 1: Como surgiu, onde e o que é (não exatamente nessa ordem!).

Estou desde de 2022 tentando escrever essa postagem. Sempre batia aquela preguiça de pesquisar, analisar e compilar informações. Mas um dia ...