sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Synthwave - Parte 1: Como surgiu, onde e o que é (não exatamente nessa ordem!).

Estou desde de 2022 tentando escrever essa postagem. Sempre batia aquela preguiça de pesquisar, analisar e compilar informações. Mas um dia você tem de “bater o martelo” e dizer “deu”!
É sempre bom e consequentemente mais fácil falar de algo após o hype. Por motivos óbvios: você encontra mais material para consulta e, principalmente, consegue “olhar de fora”. Bom, esse texto vai ser grande, mas me esforcei tentando deixá-lo mais simples e direto. Tudo aqui será tratado de forma generalizante, ou seja, todos os aspectos abordados têm sentido amplo e geral, no estilo guarda-chuva. Dessa forma, não vou me deter detalhes específicos de uma artista ou estética de uma obra em particular. É o esquema bandejão-bastantão! Synthwave: Como surgiu, onde e o que é (não exatamente nessa ordem!).
O synthwave é comumente definido como um subgênero da música eletrônica, com características pós-modernas, nostálgicas e revivalistas da música eletrônica popular dos anos 1980: synthpop, o post-punk, mas também busca referências nas trilhas musicais de videogames de meados dos anos 90/2000. O que torna o synthwave tão reconhecível são os marcos sonoros do gênero. Esses marcos se apresentam em suas diversas vertentes em diferentes graus de intensidade. No caso do synthwave, identificam-se como marcadores o som de baixo "fat line bass" do Korg PolySix (1981) e o uso de sintetizadores vintage como Yamaha DX7, Roland Jupiter 8, Juno-60, Juno-106 e Oberheim OB-X, além das caixas de ritmo Linn LM-1 e Roland TR-808. Além disso, Porém o synthwave se distingue do synthpop dos anos 1980 por sua conexão com o cinema de ficção científica e games. Duas trilhas sonoras de filmes solidificaram essa associação: Blade Runner (1982) de Vangelis, e a versão de Metropolis (1984) de Giorgio Moroder. Também podemos citar as trilhas sonoras de B-Movies criadas por Tangerine Dream, Goblin e John Carpenter. Além de uma menção honrosa a trilha (particularmente do primeiro episódio) da animação franco-americana M.A.S.K. (1985) de Shuki Levy & Haim Saban. As trilhas sonoras da SEGA pela banda japonesa S.S.T. Band Também podemos citar marcadores visuais como a estética de games e a arte gráfica publicitária de artistas como Patrick Nagel. Origem do Synthwave
O que podemos apontar como um “surgimento do gênero” ocorreu na segunda metade dos anos 90 e começou a ganhar força no início dos anos 2000. Alguns pesquisadores e artistas defendem que ele é um desdobramento do movimento de música de 16 bits produzido a partir de midi muito popular entre os amantes de video games. Com certeza há uma influência dessa produção musical. Contudo, ela não é o único fator ou determinante.
Apontar um momento de surgimento para uma manifestação cultural/artística é sempre complicado. É bem plausível afirmar que o Synthwave é o resultado de um longo processo de transformação e adaptação da música eletrônica pop que nunca parou desde de seu surgimento. Claro, como esses processos ocorrem no underground quando florescem parecem para o grande público que surgiram “do mais absoluto nada”, como uma espécie de revelação! É charmoso pensar assim, só é irreal. Para entender o Synthwave observar o contexto de seu surgimento. Logo de cara, se eu fosse apontar um elemento cultural determinante para o florescimento do synthwave, colocaria minhas fichas em games como: - Grand Theft Auto: Vice City (2002) e sua “rádio” Wave 103 que apresentou a toda uma geração sucessos do synthpop 70/80. - Hotline Miami (2021) com sua trilha sonora calcada (aqui sim!) em artistas destacados do underground do synthwave em suas diversas vertentes (M|O|O|N, Perturbator, Carpenter Brut, Jasper Byrne, Scattle, El Huervo, Mitch Murder) Os primeiros artistas (dentro do que convencionamos chamar) de synthwave despontam na Europa, mais especificamente na França (país de longuíssima tradição de música eletrônica do pop até o experimental acadêmico): Kanvisky, College, Justice, Anoraak & Maethelvin, Carpenter Brut. Também podemos destacar o sueco Mitch Murder. Todos iniciam seu percurso dentro do universo independente. Sendo uma manifestação da cultura digital, o synthwave se beneficiou do ambiente tecnológico disponível: - conectividade: internet com fóruns online e plataformas para veiculação e distribuição; - acesso à tecnologia: popularização da produção musical caseira; avanço e acesso a ferramentas de produção musical (Daw e vst); - acesso a um grande acervo da produção cultural dos anos 80/90: vídeos, áudios e imagens. Uma coisa temos que ter em mente: O synthwave é uma manifestação/produto da cultura digital e tecnologia dos anos 2000. O Synthwave expandiu-se a tal ponto que de consequência da cultura passou a influenciar num determinado momento a geração de objetos culturais baseados nele: filmes, games, mídias de informação, design gráfico, moda e publicidade. No momento, vivemos o momento pós-hype. Onde o gênero e suas vertentes retornam ao ambiente underground. Contudo, transformando e expandindo. O Conceito de “Nostalgia” no Synthwave. Para o senso comum o Synthwave como um movimento musical e cultural baseado numa espécie de re-memorização e reconstrução estética da década de 1980. A ideia central está na criação de uma nostalgia “re”construída de períodos e lugares que de fato nunca existiram de fato. Essa “nostalgia”, mesmo que baseada numa construção fictícia coletiva dos ouvintes com base em objetos da cultura popular de outro período, não deixa de legitimar sentimentos e sensações reais do ouvinte. O pesquisador Paul Ballam-Cross cunha o termo nostalgia reconstruída, para Ballam-Cross, o termo se refere tanto às referências culturais quanto à reconstrução ativa das memórias pelo ouvinte. Aspectos culturais, sociais e afetivos como: retrofuturismo; referências visuais e imaginário cinematográfico da cultura pop dos anos 80; sonoridades dos sintetizadores analógicos; angústias e isolamento da sociedade contemporânea. são motores que geram o ambiente para o surgimento e ampliação do synthwave. A “nostalgia musical” trazida pelo Synthwave costuma depender muito mais de memórias construídas por meio da bagagem cultural do ouvinte adquirido através do acesso às músicas, iconografia, filmes e moda do período do anos 80/90 do que uma vivência propriamente dita. Apesar de estar ligado ao senso de nostalgia, na realidade, o synthwave subverte o que entendemos sobre nostalgia real. Afinal, como sentir nostalgia de algo ou um passado que nunca vivenciado? O ouvinte que não viveu, na real, “recebeu as memórias” através do acesso ao acervo cultural exposto e a disposição dele em games e na internet. A nostalgia do Synthwave é uma “nostalgia vicária" ou "nostalgia histórica" é um termo que trata da capacidade de sentir saudade de uma época que nunca foi vivida pessoalmente. Isso gera conexão com uma narrativa cultural maior, gerando e reforçando laços de identidade e pertencimento a um grupo ou comunidade específica. A hauntologia é um conceito trabalhado pelo escritor e teórico cultural Mark Fisher, nos dá uma mãozinha para compreendermos a nostalgia ligada ao synthwave. O termo trata de um “anacronismo perpétuo” que para Fisher é uma característica específica da condição pós-moderna. O anacronismo perpétuo seria um estado de um presente constantemente "assombrado" por um imaginário de um passado e de um futuro que ainda não veio. Tipo tal coisa não é mais assim, ao mesmo tempo que tal coisa "ainda não" se transformou ou aconteceu. Ou seja, que fiquemos presos em um loop de repetição nostálgica imaginaria que ao mesmo tempo aguarda um futuro também imaginado. Doido né? Mas piora… O ideal "retro futurista" do synthwave é muito hauntológico. Pois, ao mesmo tempo que a nostalgia do synthwave moderno nos remete a imagens de um passado perdido, tambem nos trás imagens de um futuro também perdido ou inalcançado. Ou seja, aquele futuro imaginado nos anos 1980 nunca chegou a existir fora da ficção do synthpop dos anos 80 (é só ouvir Information Society ou Propaganda). Microficções Não é apenas uma “nostalgia reconstruída" que move o ouvinte do Synthwave, Essa “nostalgia” isso passa longe de ser algo compartilhado por todos os ouvintes do gênero. Para muitos ouvintes do gênero, narrativas fictícias que usam a música como sua plataforma de materialização são os atrativos. Muitas vezes os próprios ouvintes constroem ativamente uma micro-ficção sobre a música, essa microficção é baseada numa “memória coletiva” de objetos da cultura popular e midiática dos anos 80/90. O synthwave é particularizado como uma manifestação da cultura digital por dois aspectos: Narrativas dos Ouvintes e a figura do Ouvinte Online.
Em sua pesquisa Ballam-Cross chama a atenção para os comentários do YouTube em vídeos onde temos a música synthwave, neles os ouvintes criam o que ele chama de microficções narrativas: pequenas histórias ficcionais inspiradas na música e nas imagens dos vídeos. Isso foi incorporado também pelos artistas que começaram a criar “plots” para suas músicas ou álbuns. Por Exemplo: descrição do vídeo (full album) do Precog Zero “Case #1975” (2021): "Petrus dos Anjos é um designer da Neuro Rede que, ao lado da misteriosa Pristina Nigri, uma holo-artista do submundo da megalópole do Atlântico Sul, se envolve em uma teia de intrigas e arrisca a própria vida. Será que Petrus está louco ou sua consciência está presa em alguma realidade da Neuro Rede? Temendo por sua vida e sanidade, ele mergulha no submundo da megalópole. Em meio a perseguições nas Autobahns, lâminas reluzentes nos becos, hackers neurais, luzes e caos urbano, Petrus dos Anjos busca sua salvação." Para Ballam-Cross esses comentários revelam uma "suspensão de descrença" consciente e coletiva comum quando assistimos um filme ou lemos um texto de ficção. Elementos recorrentes nas microficções: pôr do sol, carros rápidos, neon, ficção científica, anos 1980/90, cultura digital, metacomentário irônico. Em alguns estilos temos menções a elementos de filmes de ação ou slashes no estilo dos anos 80. Temas Centrais do Synthwave O Synthwave apresenta alguns conceitos recorrentes em suas manifestações:
- Nostalgia funcionando como uma fantasia cultural de uma memória idealizada dos anos 80;

- Fantasia Cultural pode se manifestar como Retrofuturismo uma visão do futuro com uma estética visual do passado recente. Um motor para as micro ficções em alguns casos: uma fantasia urbana noturna sensação cinematográfica, ou paisagem litorâneas ao mesmo tempo vintages e tecnológicas;

- Validação e valorização (mesmo que equivocada) estéticas e tecnologias analógicas como: sintetizadores vintage; vídeos de qualidade VHS; imperfeições sonoras analógicas.
Falasse muito do Escapismo ligado ao Synthwave. Essa é uma discussão longa (chata e inútil). O que posso dizer é o seguinte: qual a manifestação artística e/ou cultural que não apela para a fantasia em suas manifestações? Até os materiais mais panfletários tem em alguma medida “seu pezinho fora da realidade” e ancorado numa fantasia.
Referências Artísticas e Estéticas
O Synthwave se apoia numa estética visual complexa e variada ligada a uma iconografia que remete a filmes, programas de tv, publicidade e moda dos anos 80/90.
O Synthwave ao mesmo tempo que se inspira na estética sonora e visual da cultura pop dos anos 1980, simultaneamente busca recriar essas referências, gerando uma versão idealizada destas mesmas referências. O que surge é uma mistura desconcertante de: tecnologia vintage, sintetizadores analógicos, ambientes cinematográficos, noites neon, videogames arcade, crepúsculos impossíveis, carros velozes. Gerando estilos tão diversos como: Retrowave; Outrun; Neon Noir.
Mas que tem como ponto de contato esse simulacro de recriação e ressignificação de signos culturais de outro tempo, de um tempo não vivenciado.

🚦Uma pausa para uma aleatoriedade:
Um exemplo da força dessa imersão cultural é o curioso fato que às vezes ocorre quando converso com produtores de Synthwave (a grande maioria entre 22 e 35). Eu chamo esse fato de “confusão temporal” da memória.
Muitas vezes, de forma desprevenida e inadvertida, eles tendem a falar sobre aspectos daquele período (anos 80/90) como se o tivessem realmente vivenciado. Claro, por causa de suas faixas etárias, os indivíduos desse grupo não viveram os anos 80/90 (A maioria sequer haviam nascido ou eram crianças num período muito inicial da vida). Mas pelo fato de estarem tão mergulhados em diversos aspectos da cultura dos anos 80/90 cria a ilusão mental.
Voltamos a programação normal! Elementos Visuais Principais 🖼
Aqui vou listar alguns aspectos visuais gerais do Synthwave: Cores 🎨 O uso de cores predominantes é uma das marcas registradas do estilo. Cores como: rosa neon; magenta; ciano; violeta; azul profundo; verde (dark synth ou horror synth) Usadas para representar: vida noturna, futurismo e nostalgia cyberpunk ou eletrônica. Essas cores remetem a cenários como: - às limitações gráficas dos computadores antigos; - às luzes urbanas noturnas; - ao visual arcade.
Grid Lines
Linhas em perspectiva usadas para gerar sensação de profundidade num ambiente digital; paisagens futuristas; visual arcade. As famosas linhas “laser grids”. Se tornaram marca registrada a tudo que remetia ao universo gráfico digital graças ao filme TRON - Uma Odisséia Eletrônica (1982). VHS Aesthetic
Remontam a qualidade ou a falta dela nos vídeos em formato VHS: defeitos analógicos, baixa resolução, glitches. Remetem ao analógico e às imagens e memórias afetivas. Paisagens retrô futuristas e retro sun
Os elementos visuais da paisagem vão variar de acordo com o estilo, desde um pôr do sol neon com palmeiras e montanhas geométricas até cidades cyberpunk, noturnas, chuvosas e iluminadas por neon. O retro sun “sol listrado” é um dos símbolos centrais do Synthwave.
Características ser uma representação de pôr do sol exagerado com faixas horizontais e produzido através efeito de gradiente amarelo-magenta.
Buscando Representa atmosfera cinematográfica e nostálgica.
Carros esportivos
É um elemento muito presente no estilo Outrun. remete a liberdade; velocidade e a fantasia tecnológica. Normalmente representado através de modelos como: Lamborghini Countach e Ferrari Testarossa. A coisa é forte! Mona Lisa da era new wave      



O artista americano Patrick Nagel (1945-1984) autor da capa do álbum Rio (1982) do Duran Duran. Criou estilo gráfico que se tornou um símbolo dos anos 80. A conexão Patrick Nagel com o Synthwave é mais visível na estética dos estilos Retrowave: As ilustrações de Nagel são amplamente utilizadas em Behance e comunidades de arte como Redbubble para criar designs que misturam o glamour dos anos 80 com vibrantes tons neon.

O artista americano Patrick Nagel (1945-1984) autor da capa do álbum Rio (1982) do Duran Duran. Criou estilo gráfico que se tornou um símbolo dos anos 80. A conexão Patrick Nagel com o Synthwave é mais visível na estética dos estilos Retrowave: As ilustrações de Nagel são amplamente utilizadas em Behance e comunidades de arte como Redbubble para criar designs que misturam o glamour dos anos 80 com vibrantes tons neon.

Imagens Cinematográficas 🎬

Uma imensa gama de filmes estão associados à construção visual do Synthwave. O curioso é que muitos desses filmes não estão circunscritos ao período dos anos 80. posso citar alguns.

Blade Runner (1982/2019) Influências: - cidades neon; - atmosfera cyberpunk; - melancolia futurista; - ambientação noturna; - estética visual; - ambiência sonora; - imaginário retrofuturista. TRON Uma Odisséia Eletrônica (1982) O Legado (2010) Influências: - grids digitais - estética computadorizada - luzes neon - cyberspace Impacto: - visual geométrico - iconografia eletrônica Back to the Future (1985) Influências: - fascínio tecnológico; - fantasia futurista dos anos 80; - escapismo. O Corvo (1994) Influências: - atmosfera neo gótica; - cidade noturna; - luzes neon; - trama de crime sobrenatural. Impacto: - visual dark; - iconografia rocker-gótica. Drive (2011) O filme ajudou na popularização moderna do Synthwave. Elementos importantes: - trilha sonora eletrônica; - estética neon; - atmosfera noturna; - direção estilizada;

Também cito filmes como Only God Forgives (2013) e The Neon Demon (2016) por suas atmosferas estéticas saturadas e por apresentarem uma imaginada perfeição estética de uma versão idealizada dos filmes dos anos 1980. Além da óbvia menção a série Stranger Things que celebra a cultura pop dos anos 80 tentando reviver a sensação de assistir a um B-movie daquela época.

Os alguns estilos destacados e suas estéticas

Antes de tentar definir alguns estilos do Synthwave. temos que compreender que a estrutura do que chamamos de Synthwave é historicamente sofre transformações, é fluida, disputada e, muitas vezes, usada de maneira equivocada tanto por fãs quanto por artistas.

O termo musical Synthwave pode ser definido como um guarda-chuva, mas também como um subgênero da música eletrônica surgida em meados dos anos 2000, com todos aqueles elementos que já citamos baseada nas trilhas sonoras de filmes de ação, ficção científica e horror das décadas de 1970 e 1980, na música de videogames da época. Seus pilares de referência incluem compositores como John Carpenter, Jean-Michel Jarre, Vangelis e Tangerine Dream e synthpop.

Dentro desse guarda-chuva termos como: "Outrun" e "Retrowave" vão estilos musicais com distinções específicas: Outrun refere-se à estética visual e ao som dos games de arcade, enquanto o Retrowave designa um estilo mais otimista, com canções mais pop.

Desde do início do hyper do synthwave até nossos dias (escrevo em maio de 2026), a diversificação foi se acelerando, hoje temos uma variedade e quantidade de criadores com diferentes influências e origens. O synthwave passou a ter “fronteiras móveis”, se aproximando em alguns casos de gêneros e estilos inusitados como: chiptune, pop mainstream, dubstep e vários subgêneros do metal. O Synthwave é uma autobahn que nos leva a diversos lugares. É importante saber que o vaporwave, que frequentemente é listado como um subgênero da synthwave, é muito mais um “gênero musical e estético paralelo” que tem sua origem nos mesmos fóruns da internet, mas com filosofia, estética e técnica de produção distintas.

🚦Um detalhe técnico antes de começar: A caixa Phil Collins ou Gated Reverb.

A caixa da bateria de “In The Air Tonight”, de Phil Collins, popularizou o chamado Gated Reverb, um efeito criado ao combinar um ataque forte com uma reverberação muito ampla e dramática com um noise gate que corta abruptamente o sustain e o release do som.

Essa sonoridade criando um impacto emocional e cinematográfico que se tornou uma assinatura sonora dos anos 80.  Ela se tornou onipresente no Synthwave e suas vertentes. 

O efeito surgiu de um erro acidental na mixagem envolvendo Collins e o produtor/engenheiro Hugh Padgham. O Gated Reverb ajudou a definir a estética sonora oitentista: baterias monumentais, produção grandiosa e forte sensação de espaço e intensidade. 

Onde você ler falando sobre som de caixa, leia-se “a caixa da bateria de “In The Air Tonight”.

Voltamos a programação normal!


OUTRUN: Tudo começou num Arcade

O nome tem origem no clássico jogo de corrida de arcade da Sega, Out Run (1986), também lembrado pela possibilidade do  jogador selecionar a trilha sonora de sua partida, a música seguia a estética dos anos 1980. Para os ouvintes de Synthwave, o álbum de Kavinsky intitulado Outrun (2013), foi quem consolidou o termo para o gênero musical.

O Outrun é, curiosamente, o nome original dado ao movimento synthwave e um estilo específico, isso causa uma confusão terminológica. Nos anos iniciais da cena Synthwave, anos 2000 e 2014, usava-se "Outrun" e "Outrun Electro" para descrever as músicas com elementos que remetem ao synthwave. O termo "synthwave" só superou "outrun" em popularidade por volta de 2014. Daí Outrun passou a designar especificamente o estilo estabelecido nos primeiros lançamentos da cena.

Para o produtor Perturbator (James Kent), as características sonoras do Outrun são: "principalmente instrumental e frequentemente contém elementos clichês dos anos 1980 no som — como baterias eletrônicas, reverb com gate e linhas de baixo de sintetizador analógico — tudo para se assemelhar a faixas daquela época."

O som

Bons representantes do som do Outrun são os álbuns Early Summer de Miami Nights 1984 e Redline de Lazerhawk ambos de 2010. Eles apresentam tanto a sonoridade como os temas principais do conceito inicial do synthwave: carros esportes dos anos 80, passeio noturnos, pôr do sol à beira-mar e ficção científica vintage. Os aspectos sonoros definidos como timbres de sintetizadores retrô e vibrantes, melodias memoráveis e cantáveis e incorporação de elementos musicais de filmes, televisão, videogames e do synthpop dos anos 80. O early Outrun enfatiza a nostalgia dos anos 80 mais do que qualquer estilo posterior, incorporando frequentemente clipes de áudio da cultura pop da época.

Em termos de produção, as raízes do outrun estão no house francês, nu-disco, e em diversas formas de synthpop dos anos 80. 

As primeiras produções eram quase inteiramente instrumentais. Com beat era frequentemente bastante simples e repetitivo, o uso de vocais só começou a aparecer de forma mais consistente a partir de 2012, com artistas como Dana Jean Phoenix e Kristine.

Estética visual

O termo "outrun" foi posteriormente usado para se referir de forma mais geral às estéticas retrô dos anos 1980 como um todo: 

- artefatos de rastreamento de VHS; - neon magenta; - linhas de grade; - paisagens com sol se pondo em gradientes de amarelo e magenta.

A estética visual associada ao outrun não tenta reproduzir com precisão aquela dos anos 1980; em vez disso, ela cria uma memória hiper estilizada da década, através das lentes do cinema de ficção científica, cinema de ação e cultura de arcade. 

Num artigo da o PC Gamer, a essência visual do outrun é descrita como "pegar elementos de um período de excesso dos anos 80 que os millennials acham irresistivelmente evocativo e modernizá-los de forma que sejam apenas reconhecíveis".

Artistas referenciais: Kavinsky, Miami Nights 1984, Lazerhawk, Mitch Murder, Futurecop!, Lost Years.

CHILLWAVE: Nostalgia nostálgica

O Chillwave tem uma história de origem bem curiosa. O termo foi cunhado numa publicação do blog Hipster Runoff, em 27 de julho de 2009. O autor de pseudônimo "Carles" tentava categorizar uma onda de artistas emergentes que soavam parecidos entre si. Carles propôs uma lista de nomes esquisitos como: "Chill Bro Core", "Pitchforkwavegaze" e "CumWave". E "Chillwave" foi o que acabou pegando.

Segundo Alan Palomo, do Neon Indian, o termo "colou porque era o mais desdenhoso e sarcástico". Ironicamente, um estilo inventado como piada foi adotado por publicações como o Wall Street Journal e o New York Times em 2010, tornando-se objeto de think pieces e editoriais de legitimação cultural. O Pitchfork chegou a publicar uma matéria editorial sobre o chillwave em novembro de 2009. LINK

Antes de receber o nome Chillwave, a música seria classificada como shoegaze, dream pop, ambient ou indietronica. O Chillwave foi um dos primeiros gêneros musicais a se desenvolveu através da internet. 

O som

O Chillwave é caracterizado por evocar a música popular do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, está ligado com noções de memória e nostalgia. As características comuns incluem um som de pop retrô viajado e onírico, com letras frequentemente sobre praia ou verão, o som tem uma vibe psicodélica ou lo-fi, vocais calmos, tempos lentos a moderados, uso intenso de reverb, e sintetizadores vintage. A produção é propositalmente imperfeita e "caseira" simulando músicas feitas no pc do quarto com daw básica.

Como exemplo temos "Feel It All Around" (2009) de Washed Out, gravada pelo produtor Ernest Greene em seu apartamento na Geórgia com um teclado Casio e softwares básicos, a faixa é um exemplo mais emblemático do som chillwave: vocais pitchados, samples oníricos, de uma leveza imaterial.

Distinção em relação ao Dreamwave e ao Synthwave

Embora relacionados, o Chillwave e o Dreamwave têm origens distintas. O Chillwave emerge da cena indie norte-americana e tem raízes mais próximas do lo-fi, do shoegaze e do dream pop e mais ligado a um senso difuso de nostalgia de verão e mal-estar pós-recessão. 

O Dreamwave, por sua vez, pertence organicamente à cena synthwave e mantém os sintetizadores analógicos e a estética visual neon como elementos centrais. Ele  mistura os sintetizadores do Synthwave com os beats downtempo e a estética lo-fi do Chillwave é menos focado na nostalgia específica dos anos 80 e mais na relaxação atmosférica.

Ascensão e declínio

A cena chillwave floresceu principalmente em 2008 e 2009, culminando no chamado "Verão do Chillwave" (2009). O gênero perdeu força rapidamente: uma das principais razões foi a saturação de artistas, causa direta de seu processo de produção simples e acessível. O crítico Reed Fischer referiu-se à crítica negativa do Pitchfork a um álbum de Millionyoung (2011) como uma declaração do declínio do gênero. O cantor Chaz Bear, do Toro y Moi, deliberadamente distanciou-se do rótulo em 2011, afirmando que havia "superado aquele som". Apesar do declínio enquanto movimento coeso, a influência estética do chillwave permeou duramente outras cenas, incluindo o próprio Dreamwave e partes do Vaporwave.

Artistas referenciais: Washed Out, Toro y Moi, Neon Indian, Com Truise, Tycho, Memory Tapes.

RETROWAVE: Para ouvir num passeio de carro

O Retrowave refere-se ao estilo mais otimista, vocal e mais pop. A diferença entre Outrun e Retrowave é mais musical do que sobre estética visual: 

Retrowave usa estruturas de canções mais tradicionais com vocais proeminentes, instrumentação mais próxima do synthpop clássico e melodias mais acessíveis. 

Outrun evoca a rodovia noturna e o isolamento do condutor solitário, com tracks mais instrumentais e estruturas A-B-A ou A-B-B’-A. 

O Retrowave é mais radiofônico. Assim, é bem-sucedido estilo do synthwave em termos de presença no mainstream: o sucesso de artistas como FM-84, The Midnight e faixas como "Blinding Lights" (2019) do Weeknd se tornaram um fenômeno global. Em 2020, durante a pandemia de COVID-19, "Blinding Lights" alcançou o topo das paradas norte-americanas, tornando-se o primeiro hit genuinamente influenciado pelo synthwave a ocupar esse posto.

O som

O Retrowave usa sintetizadores analógicos e baterias eletrônicas características do Outrun, mas dentro de estruturas de canção mais convencionais: versos, refrões, bridges e letras explícitas. Guitarras, saxofone e outros instrumentos acústicos ocasionais conferem uma sonoridade AOR dos anos 80. Os ritmos e andamentos são acelerados e dançantes, e a produção tende a ser mais polida e com uma cara de arena.

Artistas referenciais: FM-84, The Midnight, The Weeknd, Dana Jean Phoenix, Kristine, NINA, LeBrock.

VAPORWAVE: Nostalgia Irônica

O Vaporwave é um estilo de música eletrônica que emergiu no início dos anos 2010 como um estilo de arte visual e meme de internet. ligado a gêneros experimentais como post-noise e hypnagogic pop, teve seu som delineado por artistas como:

Daniel Lopatin com o álbum Chuck Person's Eccojams Vol. 1 (2010); 

James Ferraro com Far Side Virtual (2011). 

Porém o álbum Floral Shoppe (2011), de Macintosh Plus deu os contornos finais ao estilo. A produtora e artista gráfica Ramona Andra Xavier (também conhecida como Vektroid) é o nome por trás da obra.

O nome do estilo é um ironia ao consumismo e combina dois conceitos: "vaporware" — termo da indústria de tecnologia para descrever um produto amplamente anunciado que nunca é lançado e a metáfora para o caráter efêmero das relações capitalistas ("tudo que é sólido se desmancha no ar") de Karl Marx. A conexão linguística é diretamente relevante para a filosofia do gênero.

Som e técnica de produção

O som do Vaporwave é definido pelo uso de samples, desaceleradas e uso pesado reverb, e elementos de smooth jazz, R&B, lounge music e muzak corporativa dos anos 80/90. As técnicas de "chopped and screwed" — herança do hip-hop do sul dos EUA — são usadas para desacelerar drasticamente as gravações originais, transformando músicas de ambiente de elevador ou comercial de TV em paisagens sonoras surreais e levemente perturbadoras (sabe backrooms?). A sensação evocada de "vagar por um shopping deserto" ou "ouvir musak de um vídeo de treinamento corporativo esquecido".

Filosofia e crítica cultural

O Vaporwave é amplamente interpretado como uma crítica ambígua e paródia do capitalismo consumidor e do utopismo tecnológico. O estilo cria conteúdo audiovisual que parece uma memória de um futuro que nunca chegou. Daí o uso de estéticas "mortas" de um passado recente para evocar uma sensação de nostalgia por um futuro que nunca se materializou. 

O "vaporware" representa uma promessa corporativa que nunca se concretiza, a música e a estética vaporwave exploram os "futuros perdidos" prometidos pelo capitalismo do final do século XX. Ao mostrar e distorcer o "lixo" da cultura de consumo — como muzak de elevador, infomerciais e Muzak corporativa. Essa ambiguidade entre sinceridade e ironia é um elemento central e deliberado.

Estética visual

A estética visual é uma colagem distinta que mistura elementos publicitários e corporativos dos anos 80/90: design de interiores de shoppings e lobbies, estátuas e colunas clássicas greco-romanas, plantas de palmeira, cores pastel de rosa e ciano, pisos de azulejos. Estéticas “digitais mortas”: padrões Memphis Lite, imagens da internet dos anos 1990, design de websites do final da década de 1990, glitch art, anime, e objetos renderizados em 3D. As letras japonesas — sem conteúdo específico — são um elemento visual recorrente, aludindo a uma visão ocidentalizada e fetichizada da cultura pop asiática dos anos 80 e 90.

Diferença fundamental em relação ao Synthwave

As diferenças entre Vaporwave e Synthwave são profundas, embora tenham surgido do mesmo ambiente da internet e do mesmo fascínio pelos anos 80/90.  

O Synthwave é caracterizado por uma celebração sincera e enérgica das cores vibrantes da cultura pop dos anos 1980, focando em motivos "legais" como velocidade, tecnologia e heroísmo, com acabamento polido e em alta definição. Synthwave quer ser a trilha sonora de um filme de ação dos anos 80.

O Vaporwave utiliza uma paleta mais suave de tons pastéis e incorpora imagens de baixa fidelidade, glitchadas ou surrealistas para criar um tom satírico ou melancólico. O Vaporwave encontrou essa trilha numa fita VHS deformada num shopping abandonado e está reproduzindo-a em meia velocidade.

Apesar dessas diferenças, a fronteira é porosa, artistas de ambas as cenas frequentemente colaboram, misturando a energia do Synthwave com as texturas surrealistas do Vaporwave.

Artistas referenciais:Macintosh Plus / Vektroid (Ramona Xavier), James Ferraro, Daniel Lopatin (Chuck Person / Oneohtrix Point Never), 2814, Blank Banshee.

DARKSYNTH: Os trevosos

O Darksynth é um estilo desenvolvido por produtores e artistas ligados ao cenário do metal. Tomou forma como um estilo distinto por volta de 2012. A França (mais uma vez ela) é o “berço” de estilo. Afinal, artistas como Perturbator e Carpenter Brut são ambos franceses. O estilo direciona os elementos do Synthwave a uma linha mais rápida e agressiva, incorporando elementos como linhas de baixo com timbres pesados e synths com timbres saturados do Industrial. 

O som do estilo obteve nas trilhas sonoras dos games Hotline Miami (2012) e Hotline Miami 2: Wrong Number (2015), com artistas como Perturbator, Carpenter Brut (eles de novo!) e Mega Drive. 

O Darksynth é uma mudança da "vibes de Miami Vice" para as sonoridades mais sombrias dos compositores de trilha para filmes de horror como John Carpenter e Goblin, além dos sons do post-punk, industrial e EBM.

O artista Wraith Walker, numa entrevista ao Massachusetts Daily Collegian, descreve a relação de forma direta: "Darksynth essencialmente brotou das trilhas sonoras de filmes de horror de John Carpenter. A partir de 2010 em diante, pessoas pegaram essa ideia e foram adiante."

O som

O Darksynth é caracterizado por uma abordagem de produção alta distorcida, percussiva e agressiva e também:

- Andamentos são rápidos (115–135 BPM); 

- Uso de timbres de sintetizadores vintage comuns no synthwave saturados;

- Uso Roland TR-808 para sequências de bateria, muitas vezes combinada com uma bateria real;

- Uma estrutura composicional influenciada pelo metal. Com ênfase em riffs e climas pesados.

Com o lançamento de álbuns como: EP I (2012)de Carpenter Brut; Skull (2013) de GosT; 198XAD (2014) de Mega Drive consolidaram o estilo na década dos anos 2010.

Ao longo do tempo, o Darksynth passou a incorporar também elementos de electro-house e drum & bass, expandindo ainda mais sua paleta.

Estética visual

A identidade visual do Darksynth rompe com a nostalgia pop da Synthwave. Ela é muito influenciada pelos filmes de horror e ficção científica dos anos 1970 e 80 (particularmente as obras de John Carpenter, Dario Argento, Horror cósmico e sobrenatural). Capas de álbuns, videoclipes e branding são uma miscelânea de: 

- paleta mais escura de cores; - imagens de distopia cyberpunk, simbolismo ocultista e satânico (como pentagramas e cruzes invertidas); - temas de ultraviolência.

Criando uma atmosfera coesa de "cyber-doom-horror", em contraste com o otimismo luminoso do Outrun.

Artistas referenciais: Perturbator, Carpenter Brut, GosT, Mega Drive, Dance With The Dead, Dan Terminus.

SLASHERWAVE: Synths, Final Girls e B-movies

O Slasherwave é uma ramificação interna do Darksynth, com temática que vao mais direção ao horror específico dos filmes slasher dos anos 70/80. Para muitos é o Darksynth que trocou as referências do horror clássico pelos filmes slasher.

O som

O Slasherwave que além das influências do metal e do uso de sintetizadores, emprega batidas de baixo distorcidas e caixas  da bateria super comprimida, com breaks, crescendos e decrescendos muito marcados. 

Na estrutura musical usam de padrões rítmicos irregulares procurando reproduzir a atmosfera instável e ameaçadora dos filmes de horror.

Também temos o uso de samples de diálogos de filmes de terror e efeitos sonoros comuns em filmes slasher. Em geral, o Slasherwave soa ainda mais cru, imprevisível e visceral do que o Darksynth convencional.

Estética visual e temática

As características visuais do Slasherwave apresentam: facas, máscaras, sangue em paleta neon, referências explícitas a franquias como Halloween, Friday the 13th e A Nightmare on Elm Street.

Artistas referenciais: GosT, Neoslave, SurgeryHead, HUBRID.

DREAMWAVE: Sonhos nos Sintetizadores

O Dreamwave é descrito como o "suave" do synthwave. O Dreamweaver é bastante similar ao Outrun e muitas vezes visto como uma extensão dele. Surgiu no final dos anos 2000 e é um dos estilos mais bem-sucedidos em termos de alcance em outras cenas. Inicialmente, o Dreamwave não tinha nome próprio e era mais uma forma de fazer synthwave. Só no início dos anos 2010 que passou a ser reconhecido como estilo distinto.

O Dreamwave se mescla com outros gêneros e pode transitar junto a gêneros como indie, chillwave e popwave. Enquanto o Outrun convoca imagens liberdade, dias de sol, autoestradas e neon urbano, o Dreamwave viaja em direção ao que é mais íntimo e contemplativo.

O som

Uma das principais diferenças em relação ao Outrun é que o Dreamwave é andamento das composições. Elas tendem a ficar entre 80 e 110 BPM. 

Outrun vs Dreamwave

O Outrun é urgência, adrenalina, intensidade do momento.

O Dreamweaver prefere a fluidez e a suspensão ao impulso.

Enquanto boa parte das composições do universo do Outrun tem as linhas de baixo como elemento de gravidade.

No Dreamwave o foco está nas textura mais suave com uso mais intenso de pads e melodias agudas.

Enquanto o Outrun é mais influenciado por videogames e uma música mais rítmica e até dançante.

O Dreamwave dá maior ênfase em vocais etéreos, melodias longas e texturas atmosféricas.


Os vocais, quando presentes, têm qualidade suave e quase sussurrada, frequentemente tratados com reverb e delay para criar uma sensação de profundidade e distância.: 

Conexão com a cultura pop

A faixa "A Real Hero" de College & Electric Youth é responsável por levar o Dreamweaver a um público mais amplo. A faixa que ficou famosa no filme Drive (2011). A faixa é um exemplo icônico do estilo: melancólica, cinemática e ao mesmo tempo acessível.

Artistas referenciais: Timecop1983, The Midnight, Electric Youth, FM Attack, Trevor Something.

NOIR SYNTH / TECH-NOIR: A Cidade numa noite chuvosa

O Noir Synth, também chamado de Tech-Noir, é um sub estilo musical e estética dentro das cenas do synthwave e darksynth, caracterizado por uma atmosfera escura, cinemática e distópica. 

O termo "Tech Noir" vem da crítica cinematográfica, cunhado pelo diretor James Cameron para descrever o gênero de seu filme O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984), em referência a cena da boate de mesmo nome onde os personagens principais se encontram (um espaço neon, violento e ao mesmo tempo sedutor).

Embora as raízes estéticas estejam nas trilhas sonoras dos anos 1980 nos trabalhos de Brad Fiedel (Terminator) e Vangelis (Blade Runner), o "Tech-noir" como descritor musical distinto solidificou-se em meados dos anos 2010, junto a explosão do Synthwave e do Retrowave. O estilo é uma ponte entre a nostalgia pop do Synthwave e o Cyberpunk.

O som

A música Tech-noir tem seu o foco numa atmosfera cinemática usando emulações de sintetizadores analógicos vintage (como o Yamaha DX7 ou Roland Juno) e o uso da caixa gated reverb de forma intensa. 

Como em quase todos os estilos de Synthwave, a linha de baixo é a condutora ( frequentemente usando semicolcheias) para criar uma sensação de urgência e movimento, típica de uma cena de perseguição. 

Harmonias em tom menor e acordes suspensos de nona e décima primeira. 

Uso de samples de narrações, diálogos de filmes, paisagens sonoras que evocam decadência urbana (trânsito, chuva uma área urbana) são marcas características do estilo. 

Efeitos sonoros industriais — clangs metálicos, vapor, texturas maquínicas — contrastam com as melodias neon dos sintetizadores saturados.

Relação com o cinema noir e o neo-noir

O Tech-noir não homenageia apenas o som dos anos 80, mas toda uma tradição visual e narrativa do cinema noir e do neo-noir: ruas molhadas, letreiros de néon refletidos nas poças, protagonistas moralmente ambíguos, sensação permanente de ameaça latente. O tom cyber-noir de filmes como RoboCop (1987), Escape from N.Y. (1981), Blade Runner (1982) e o Terminator (1984) são pontos de referência. Também a influência da literatura cyberpunk de William Gibson.

Artistas referenciais: Gunship, Power Glove, Perturbator (obras mais distópicas), Noir Deco.

QUADRO COMPARATIVO DOS SUBGÊNEROS


Estilo

Humor/Clima

BPM aprox.

Uso de Vocal

Influência

Outrun

Energético/ Nostálgico

90–120

Instrumental


Arcade, carros esporte, filmes de ação

Retrowave

Otimista/ Glamour

100–130


O uso de vocais é frequente

Synthpop, rádio dos anos 80

Darksynth

Sombrio/ Agressivo

115–135

uso de vocais é raro

Horror, metal, industrial, EBM

Slasherwave

Sinistro/ Visceral

120–140

uso de vocais é raro

filmes Slasher, John Carpenter, Goblin

Dreamwave

Suave / Onírico

80–110

uso de vocais suaves e etéreos

Dream pop, ambient

Chillwave


Relaxado / Lo-fi

70–100

soft/ desfocado

Praia, nostalgia, psicodelia

Vaporwave

Irônico/ Melancólico

uso de andamentos  lentos

vocais Processados/ samples

Critica ao capitalismo, shopping, muzak (música de elevador)

Noir Synth ou Tech-Noir

Distópico/ Cinemático

90–120

uso de samples com narrações e diálogos de filmes 

Neo-noir, cyberpunk, trilha sonora de Blade Runner


👘Menção honrosa: City Pop Japonês (revival) Música pop japonesa dos anos 1970–80 amplamente sampleada no vaporwave. Estética visual: fantasias ensolaradas com barcos, carros de luxo e horizontes oceânicos. Atração ocidental: soa como uma versão "pura" e não comercializada da nostalgia dos anos 1980.


Conclusão (por enquanto)

O Synthwave é um gênero musical do mundo pós digital, assim combina elementos diversos como música eletrônica, cinema, design visual, memória afetiva, imaginário, moda, tecnológico retrô para ser influenciado e influenciar esses mesmo campos. O synthwave como toda manifestação cultural também retrata o momento cultural, social e emocional de seus tempos. Incertezas, busca por seguranças, velocidade de comunicação, acesso a tecnologia, alienação do mundo e esperança da chegada de um futuro tudo isso está no Synthwave. Essa primeira parte fica por aqui. A segunda parte será mais técnica tratando apenas de elementos musicais como forma, harmonia e estruturas rítmicas.


👀Vão no Bandcamp e procurem pelos artistas brasileiros de Synthwave! Até mais! Algumas fontes utilizadas Wikipedia — Synthwave Unison Audio — Synthwave Chord Progressions Orpheus Audio Academy — How To Make Synthwave Synth-Centric — A Guide to Synthwave Orphiq — What is Synthwave? Groove3 — Synthwave Production Explained A brief history of Synthwave A Brief History of Synthwave — Midweek Crisis "Reconstructed Nostalgia" — Paul Ballam-Cross (2021) Journal of Popular Music Studies, Vol. 33, N. 1 Synthwave and Nostalgia: a Philosophical and Psychological undertaking - Dan Schwebel https://www.synth-centric.com/articles/synthwave-and-nostalgia-a-philosophical-and-pscyhological-undertaking More 1980s than the 1980s: Hauntological and Hyperreal Meanings of Synthwave Soundtracks. Mattia Merlini (2023) Reddit — Synthwave Producers Reddit — Synthesizers Aesthetics Wiki — Synthwave


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