“Música é som organizado” é na real umas das definições mais preguiçosas, senso comum e merdas. Coisa de leigo ou estudante preguiçoso e superficial. É claro que para a música “funcionar” temos que seguir alguns protocolos e acionar alguns mecanismos. Mas a música não se trata apenas de organizar fenômenos sonoros num espaço de tempo. Afinal, a “Música está nos ouvidos de quem ouve”, frase que apesar de brega e cafona, está um pouco mais próxima de um fato. Esse texto trata-se de uma apresentação que sempre usei para introduzir estudantes novatos no estudo da teoria musical e de como ela é importante para o músico conhecê-la para interpretar e manipular a linguagem com a qual trabalha (e não ficar falando merda por aí). Os tópicos serão apresentados de forma rápida alguns, sem grandes aprofundamentos, afinal é uma introdução!
Divirtam-se ou não…
Algumas observações:
No texto vou usar muito o termo "Prática Comum" que na música apresenta dois significados principais: O primeiro é da historiografia musical ocidental, refere-se ao período (cerca de 1650 a 1900) em que o sistema tonal foi a base universal das composições. Já no segundo, o termo "prática musical" define o fazer musical coletivo, a rotina de estudos e a relação entre teoria e prática. Vou me referir ao segundo conceito quando utilizar o termo.
Durante o texto vou usar diferentes formas de grafar as notas e os acordes. Mas vou seguir um princípio:
No corpo do texto, para designar notas musicais específicas irei usar os nomes (Dó, Ré, Mi…), nos exemplos (por pura preguiça de formatar) irei usar as abreviações do sistema inglês que usar letras para representar as notas.
Pelo começo…
Um mecanismo
Na imagem temos o mecanismo interno de um relógio de pulso, algo bastante mudando diriam alguns. Mas que na realidade é uma dessas maravilhas que não nos damos conta de sua complexidade (Aqui uma ótima matéria sobre como funciona essa “maravilha mecânica” (LINK).
Quando olhamos para um relógio mecânico, só enxergamos sua superfície, seu mostrador e ponteiros que apesar de muitas vezes belos e desejáveis, não nos parecem nada demais. Mas não imaginamos que por trás temos um universo me molas, engrenagens, rotores, conjuntos que podem chegar a ter mais de uma centena de peças que funcionam juntas em perfeita sincronia, sutileza e precisão.
Ainda mais curioso é saber também ouvimos uma melodia da mesma forma! Não imaginamos os mecanismos que fazem a melodia funcionar. Pensando nisso, vamos nesse texto “riscar” a superfície das engrenagem musicais mais elementares que fazem a música funcionar.
Primeiro vamos pensar um pouco
Bom, para começar, a música é som. E não é porque é organizado. Afinal, o som de um motor V8, também segue uma “organização”, funciona dentro de uma cadência rítmica, se recebe injeção de combustível numa aceleração gera um som. Alguns poderiam dizer que isso é “música para seus ouvidos”. E é! Pois, o som do V8 gera uma sensação estética, ativa senso de valores, gera e alimenta sensações e sentimentos. Assim, como uma canção, uma trilha sonora de game ou filme, uma peça de música de câmara. No final, música é tudo que nos gera sensações e emoções dentro de um determinado universo de valores emocionais, intelectuais, antropológicos, sociais.
Isso é bem radical de aceitar logo de cara. Na boa é um conceito muito amplo e que nos dá muitas alternativas. E nós humanos não somos muito bons de lidar com muitas alternativas, sempre caímos numa perplexidade e no fim, terminamos, ou indo no mais seguro e simples ou não escolhendo nada (tipo quando você vai escolher um filme para vê num catálogo muito amplo de streaming).
Culturalmente somos ensinados que música só é um determinado tipo de sonoridade, efetuado por determinadas fontes sonoras (qualquer objeto, fenômeno ou ser vivo capaz de vibrar e gerar ondas acústicas que se propagam pelo ar, água ou sólidos) e dentro de um contexto em particular. Bom, mas isso é uma discussão extensa e só falei disso para deixar uma pulga atrás da orelha de vocês.
Vamos com um resumo rápido dos elementos que compõem o som como o percebemos. Os elementos fundamentais do som musical são: altura, duração, intensidade e timbre.
Os Materiais da Música: Som e Tempo
Se formos resumir, bem resumido, os materiais básicos da música são o som e o tempo. Quando você toca um instrumento ou canta, está produzindo sons. Os sons são utilizados para estruturar o tempo na música. O tempo na música é entendido como a duração dos sons e nos silêncios entre eles. A complexa relação entre esses dois materiais básicos é o fundamento da construção musical.
Som
É a sensação percebida pelos órgãos da audição quando as vibrações (ondas sonoras/acústicas) que viajam em um meio chegam ao ouvido.
Vibração: É o movimento periódico de uma onda acústica. Ao tocar um instrumento, partes dele (cordas, caixa de ressonância etc.) e o ar dentro e ao redor do instrumento vibram gerando uma onda sonora.
Fontes sonoras: qualquer objeto, fenômeno ou ser vivo capaz de vibrar e gerar ondas acústicas.
Meio: Ambiente no qual as ondas sonora/acústicas se propagam: ar, água ou sólidos.
Compressão e Rarefação
Esses termos se referem à alternância entre aumento (compressão) e diminuição (rarefação) da pressão do ar, causada por uma superfície ativada (vibrante) ou coluna de ar. Um ciclo completo de compressão e rarefação produz uma vibração, ou onda sonora.
Frequência
Refere-se ao número de ciclos de compressão–rarefação que ocorrem por unidade de tempo, geralmente por segundo. Sons audíveis pelo ouvido humano variam de 20 a 20.000 ciclos por segundo (Hz).
As quatro propriedades do som
O som possui quatro características ou propriedades identificáveis: altura, intensidade, duração e timbre. Por mais complexa que seja uma composição, essas quatro são as únicas variáveis com as quais compositores e intérpretes trabalham.
1. Altura
é a agudeza ou a gravidade de um som. As variações de frequência são o que ouvimos como variações de altura: quanto maior o número de ondas sonoras produzidas por segundo por um corpo elástico, mais agudo o som que ouvimos; quanto menor o número de ondas por segundo, mais grave o som.
Os humanos conseguem ouvir sons em uma faixa limitada de frequências que está entre 20 Hz e 20.000 Hz (20 kHz). Os sons abaixo e acima dessa faixa são inaudíveis para os humanos. A percepção varia de acordo com a idade e a saúde auditiva, podendo ser dividida da seguinte forma:
0 Hz a 20Hz: Infra Som
20 Hz a 250 Hz: Sons graves.
250 Hz a 5.000 Hz: Frequências mais sensíveis ao ouvido, onde se concentra a maior parte da fala humana e conversas cotidianas.
5.000 Hz a 20.000 Hz: Sons agudos e superagudos.
Acima de 20.000 Hz: Ultra som.
A intensidade (amplitude) com a qual é percebida quão forte ou suave é uma altura. Na acústica (ciência do som), a intensidade é a quantidade de energia que afeta o corpo vibrante, e o físico a mede numa escala de 0 a 130, em unidades chamadas decibéis. Na notação musical, as gradações de intensidade são indicadas com as seguintes palavras italianas:
3. Duração
A duração é o período de tempo em que uma altura, ou tom, é sustentada. Para os padrões de duração, utilizam-se os seguintes termos: metro e ritmo.
4. Timbre (Qualidade do Som)
O timbre é a qualidade ou identidade do som. É a propriedade do som que nos permite, por exemplo, distinguir a diferença entre o som de um clarinete e o de um flauta.
Essa qualidade sonora é determinada pela forma do corpo vibrante, seu material (metal, madeira, tecido humano) e o método utilizado para colocá-lo em movimento (percutir, friccionar com arco, soprar, dedilhar). É também resultado da percepção do ouvido humano de uma série de sons chamada série harmônica, produzida por todos os instrumentos.
Série harmônica
A série harmônica inclui as diversas alturas produzidas simultaneamente por um corpo vibrante. Esse fenômeno físico ocorre porque o corpo vibra em seções, além de vibrar como uma unidade. Uma corda, por exemplo, vibra ao longo de todo o seu comprimento e também em metades, terços, quartos e assim por diante.
A - Onda
B - Onde dividida em 2 partes iguais
C - Onda Dividida em três partes iguais
Parciais e Fundamental
As alturas produzidas simultaneamente pelas seções vibrantes são chamadas de parciais ou harmônicos. O primeiro parcial, frequentemente chamado de fundamental, e a série de parciais constituem um tom musical. Como o fundamental é a frequência mais baixa e também é percebido como o mais intenso, o ouvido o identifica como a altura específica do tom musical.
Embora a série harmônica teoricamente se estenda ao infinito, há limites práticos — o ouvido humano é insensível a frequências acima de 20.000 Hz. A tabela abaixo apresenta a série harmônica de um Lá fundamental até o décimo sexto parcial:
Os parciais individuais que compõem um tom musical não são distinguidos separadamente, mas são ouvidos pelo ouvido humano como uma combinação que caracteriza o timbre.
Você pode notar que a série harmônica se parece muito com os sons 'abertos' dos instrumentos de sopro de metal (como trompete e trombone). Os instrumentos de metal e outros, como os de sopro de madeira, são capazes de tocar diversas alturas da série harmônica.
VOCABULÁRIO ESSENCIAL
Som
Vibração
Compressão
Rarefação
Frequência
Altura
Timbre
Série Harmônica
Parciais
Fundamental
Intensidade
Duração
Metro
Ritmo
Decibéis
Acústica
Batida
Tom
Um monte de coisas sobre uma canção
Percepção
A experiência auditiva é algo que é real por causa de nossa mente. Consequentemente a apreciação musical está incluída nesse balaio. Contudo, os mecanismos mais básicos de reconhecimento de sons são inatos. Já o reconhecimento dos elementos musicais como: harmonias, ritmos sobrepostos, melodias simultâneas precisam de uma mente treinada em algum nível. Esse treinamento pode ser formal ou não. Mas é necessário. Algumas pessoas, os melômano (termo para uma pessoa apaixonada por música) conseguem perceber esses elementos musicais também quanto um músico treinado, conduto não sabem como nomeá-los, nem entendem suas relações e funções.
Sobre apaixonados por música e som também temos:
Musicófilo: Refere-se a quem demonstra um grande amor ou propensão pela música;
Audiófilo: Mais específico, define o apaixonado pela música focado na qualidade técnica e na alta fidelidade do som (equipamentos de som, fones, caixas).
Tem maluco para tudo!
Tons sucessivos se unem em fragmentos melódicos;
Fragmentos formam melodias completas;
Melodias se organizam em frases e longos trechos;
Tons simultâneos se integram em intervalos;
Intervalos se tornam acordes;
Acordes formam progressões harmônicas;
Padrões de acentuação se convertem em ritmos;
Variações de intensidade se tornam crescendos e decrescendos.
Não necessariamente nessa ordem, cada camada surge na mente do compositor que sem depender da precedência da anterior. Muitas vezes, a 7 aparece primeiro e depois vem 2, e depois a 4 e etc. Nosso cérebro é especialista em procurar e organizar padrões. Assim, ouvir não é montar essas relações e depois escutá-las — ouvir é o próprio ato de modelar essas relações.
Mas a mente treinada muitas vezes em algum grau, também é "surda" a certos gêneros musicais — especialmente para aqueles que estão fora do âmbito cultural e estético do ouvinte. Lembremos que nossa percepção é enviesada, afetada pelo estado emocional e fenômenos externos. Não por “falta de ouvido", mas por falta de familiaridade mental com aquelas estruturas de relações que podem ser culturais, sociais, estéticas, antropológicas, históricas. Ou seja, o ser humano é um bicho complicado e sua audição também.
Vejam como abaixo da superfície a quantidade de elementos que trabalham para música funcionar. Na próxima postagem irei apresentar os elementos teóricos relacionados as alturas e as durações.