sexta-feira, 12 de junho de 2026

A música é igual a um relógio de pulso - parte 1.


“Música é som organizado” é na real umas das definições mais preguiçosas, senso comum e merdas. Coisa de leigo ou estudante preguiçoso e superficial. É claro que para a música “funcionar” temos que seguir alguns protocolos e acionar alguns mecanismos. Mas a música não se trata apenas de organizar fenômenos sonoros num espaço de tempo. Afinal, a “Música está nos ouvidos de quem ouve”, frase que apesar de brega e cafona, está um pouco mais próxima de um fato. Esse texto trata-se de uma apresentação que sempre usei para introduzir estudantes novatos no estudo da teoria musical e de como ela é importante para o músico conhecê-la para interpretar e manipular a linguagem com a qual trabalha (e não ficar falando merda por aí). Os tópicos serão apresentados de forma rápida alguns, sem grandes aprofundamentos, afinal é uma introdução!


Divirtam-se ou não…


Algumas observações:


No texto vou usar muito o termo "Prática Comum" que na música apresenta dois significados principais: O primeiro é da historiografia musical ocidental, refere-se ao período (cerca de 1650 a 1900) em que o sistema tonal foi a base universal das composições. Já no segundo, o termo "prática musical" define o fazer musical coletivo, a rotina de estudos e a relação entre teoria e prática. Vou me referir ao segundo conceito quando utilizar o termo.


Durante o texto vou usar diferentes formas de grafar as notas e os acordes. Mas vou seguir um princípio: 


No corpo do texto, para designar notas musicais específicas irei usar os nomes (Dó, Ré, Mi…), nos exemplos (por pura preguiça de formatar) irei usar as abreviações do sistema inglês que usar letras para representar as notas.


A

Si

B

C

D

Mi

E

F

Sol

G



Logicamente, também vou usar o sistema de cifras para os acordes (prática comum).

acorde maior

C

acorde menor

Cm

acorde aumentado

Caum

acorde diminuto

Cdim

maior com sétima

C7

menor com sétima

Cm7

maior com sétima menor

C7b

menor com sétima menor

Cm7b

nota/acorde sustenido

C#

nota/acorde bemol

Cb


Vamos ver mais adiante no texto outras formas de grafias, mas vou usar essas aí em cima. Se essa não é a forma que vc usa… Paciência “alecrim dourado” ou vá só se fuder!

Pelo começo…


Um mecanismo



Na imagem temos o mecanismo interno de um relógio de pulso, algo bastante mudando diriam alguns. Mas que na realidade é uma dessas maravilhas que não nos damos conta de sua complexidade (Aqui uma ótima matéria sobre como funciona essa “maravilha mecânica” (LINK).


Quando olhamos para um relógio mecânico, só enxergamos sua superfície, seu mostrador e ponteiros que apesar de muitas vezes belos e desejáveis, não nos parecem nada demais. Mas não imaginamos que por trás temos um universo me molas, engrenagens, rotores, conjuntos que podem chegar a ter mais de uma centena de peças que funcionam juntas em perfeita sincronia, sutileza e precisão.  


Ainda mais curioso é saber também ouvimos uma melodia da mesma forma! Não imaginamos os mecanismos que fazem a melodia funcionar. Pensando nisso, vamos nesse texto “riscar” a superfície das engrenagem musicais mais elementares que fazem a música funcionar. 


Primeiro vamos pensar um pouco


Bom, para começar, a música é som. E não é porque é organizado. Afinal, o som de um motor V8, também segue uma “organização”, funciona dentro de uma cadência rítmica, se recebe injeção de combustível numa aceleração gera um som. Alguns poderiam dizer que isso é “música para seus ouvidos”. E é! Pois, o som do V8 gera uma sensação estética, ativa senso de valores, gera e alimenta sensações e sentimentos. Assim, como uma canção, uma trilha sonora de game ou filme, uma peça de música de câmara. No final, música é tudo que nos gera sensações e emoções dentro de um determinado universo de valores emocionais, intelectuais, antropológicos, sociais.


Isso é bem radical de aceitar logo de cara. Na boa é um conceito muito amplo e que nos dá muitas alternativas. E nós humanos não somos muito bons de lidar com muitas alternativas, sempre caímos numa perplexidade e no fim, terminamos, ou indo no mais seguro e simples ou não escolhendo nada (tipo quando você vai escolher um filme para vê num catálogo muito amplo de streaming). 


Culturalmente somos ensinados que música só é um determinado tipo de sonoridade, efetuado por determinadas fontes sonoras (qualquer objeto, fenômeno ou ser vivo capaz de vibrar e gerar ondas acústicas que se propagam pelo ar, água ou sólidos) e dentro de um contexto em particular. Bom, mas isso é uma discussão extensa e só falei disso para deixar uma pulga atrás da orelha de vocês.


Elementos do som

Vamos com um resumo rápido dos elementos que compõem o som como o percebemos. Os elementos fundamentais do som musical são: altura, duração, intensidade e timbre.

Os Materiais da Música: Som e Tempo


Se formos resumir, bem resumido, os materiais básicos da música são o som e o tempo. Quando você toca um instrumento ou canta, está produzindo sons. Os sons são utilizados para estruturar o tempo na música. O tempo na música é entendido como a duração dos sons e nos silêncios entre eles. A complexa relação entre esses dois materiais básicos é o fundamento da construção musical.

Som

É a sensação percebida pelos órgãos da audição quando as vibrações (ondas sonoras/acústicas) que viajam em um meio chegam ao ouvido.


Vibração: É o movimento periódico de uma onda acústica. Ao tocar um instrumento, partes dele (cordas, caixa de ressonância etc.) e o ar dentro e ao redor do instrumento vibram gerando uma onda sonora.


Fontes sonoras: qualquer objeto, fenômeno ou ser vivo capaz de vibrar e gerar ondas acústicas.


Meio: Ambiente no qual as ondas sonora/acústicas se propagam: ar, água ou sólidos.

Compressão e Rarefação


Esses termos se referem à alternância entre aumento (compressão) e diminuição (rarefação) da pressão do ar, causada por uma superfície ativada (vibrante) ou coluna de ar. Um ciclo completo de compressão e rarefação produz uma vibração, ou onda sonora.


Frequência


Refere-se ao número de ciclos de compressão–rarefação que ocorrem por unidade de tempo, geralmente por segundo. Sons audíveis pelo ouvido humano variam de 20 a 20.000 ciclos por segundo (Hz).

As quatro propriedades do som

O som possui quatro características ou propriedades identificáveis: altura, intensidade, duração e timbre. Por mais complexa que seja uma composição, essas quatro são as únicas variáveis com as quais compositores e intérpretes trabalham.

1. Altura

é a agudeza ou a gravidade de um som. As variações de frequência são o que ouvimos como variações de altura: quanto maior o número de ondas sonoras produzidas por segundo por um corpo elástico, mais agudo o som que ouvimos; quanto menor o número de ondas por segundo, mais grave o som.


Os humanos conseguem ouvir sons em uma faixa limitada de frequências que está entre 20 Hz e 20.000 Hz (20 kHz). Os sons abaixo e acima dessa faixa são inaudíveis para os humanos. A percepção varia de acordo com a idade e a saúde auditiva, podendo ser dividida da seguinte forma:

  • 0 Hz a 20Hz: Infra Som

  • 20 Hz a 250 Hz: Sons graves.

  • 250 Hz a 5.000 Hz: Frequências mais sensíveis ao ouvido, onde se concentra a maior parte da fala humana e conversas cotidianas.

  • 5.000 Hz a 20.000 Hz: Sons agudos e superagudos.

  • Acima de 20.000 Hz: Ultra som.




2. Intensidade (Dinâmica)

A intensidade (amplitude) com a qual é percebida quão forte ou suave é uma altura. Na acústica (ciência do som), a intensidade é a quantidade de energia que afeta o corpo vibrante, e o físico a mede numa escala de 0 a 130, em unidades chamadas decibéis. Na notação musical, as gradações de intensidade são indicadas com as seguintes palavras italianas:


Palavra Italiana

Símbolo

Tradução

Decibéis Médios

Pianíssimo

pp

Muito suave

40 dB

Piano

p

Suave

50 dB

Mezzo piano

mp

Moderadamente suave

60 dB

Mezzo forte

mf

Moderadamente forte

70 dB

Forte

f

Forte

80 dB

Fortíssimo

ff

Muito forte

100 dB

3. Duração

A duração é o período de tempo em que uma altura, ou tom, é sustentada. Para os padrões de duração, utilizam-se os seguintes termos: metro e ritmo.


4. Timbre (Qualidade do Som)

O timbre é a qualidade ou identidade do som. É a propriedade do som que nos permite, por exemplo, distinguir a diferença entre o som de um clarinete e o de um flauta.


Essa qualidade sonora é determinada pela forma do corpo vibrante, seu material (metal, madeira, tecido humano) e o método utilizado para colocá-lo em movimento (percutir, friccionar com arco, soprar, dedilhar). É também resultado da percepção do ouvido humano de uma série de sons chamada série harmônica, produzida por todos os instrumentos.

Série harmônica

A série harmônica inclui as diversas alturas produzidas simultaneamente por um corpo vibrante. Esse fenômeno físico ocorre porque o corpo vibra em seções, além de vibrar como uma unidade. Uma corda, por exemplo, vibra ao longo de todo o seu comprimento e também em metades, terços, quartos e assim por diante.

A - Onda 

B - Onde dividida em 2 partes iguais

C - Onda Dividida em três partes iguais


Parciais e Fundamental

As alturas produzidas simultaneamente pelas seções vibrantes são chamadas de parciais ou harmônicos. O primeiro parcial, frequentemente chamado de fundamental, e a série de parciais constituem um tom musical. Como o fundamental é a frequência mais baixa e também é percebido como o mais intenso, o ouvido o identifica como a altura específica do tom musical.


Embora a série harmônica teoricamente se estenda ao infinito, há limites práticos — o ouvido humano é insensível a frequências acima de 20.000 Hz. A tabela abaixo apresenta a série harmônica de um Lá fundamental até o décimo sexto parcial:



Parcial

Frequência (Hz)

Nota Aproximada

55 Hz

Lá (fundamental)

110 Hz

Lá (1 oitava acima)

165 Hz

Mi

220 Hz

Lá (2 oitavas acima)

275 Hz

Dó#

330 Hz

Mi

385 Hz

Sol (aproximado)

440 Hz

Lá (3 oitavas acima)

16°

880 Hz

Lá (4 oitavas acima)


Os parciais individuais que compõem um tom musical não são distinguidos separadamente, mas são ouvidos pelo ouvido humano como uma combinação que caracteriza o timbre.


Você pode notar que a série harmônica se parece muito com os sons 'abertos' dos instrumentos de sopro de metal (como trompete e trombone). Os instrumentos de metal e outros, como os de sopro de madeira, são capazes de tocar diversas alturas da série harmônica.


VOCABULÁRIO ESSENCIAL

Som

Vibração

Compressão

Rarefação

Frequência

Altura

Timbre

Série Harmônica

Parciais

Fundamental

Intensidade

Duração

Metro

Ritmo

Decibéis

Acústica

Batida

Tom


Um monte de coisas sobre uma canção


Bom, nem preciso dizer que Parabéns Para Você é uma canção popular. Contudo, pouco se pensa a quantidade de conceitos e informações que estão envolvidos para que essa canção “funcione”. Sem mais delongas vamos lá… 

Percepção


Para Robert Jourdain os músicos não são aqueles que tem um "bom ouvido", mas sim, os que tem uma boa (e treinada) mente.

A experiência auditiva é algo que é real por causa de nossa mente. Consequentemente a apreciação musical está incluída nesse balaio. Contudo, os mecanismos mais básicos de reconhecimento de sons são inatos. Já o reconhecimento dos elementos musicais como: harmonias, ritmos sobrepostos, melodias simultâneas precisam de uma mente treinada em algum nível. Esse treinamento pode ser formal ou não. Mas é necessário. Algumas pessoas, os melômano (termo para uma pessoa apaixonada por música) conseguem perceber esses elementos musicais também quanto um músico treinado, conduto não sabem como nomeá-los, nem entendem suas relações e funções. 


Sobre apaixonados por música e som também temos:

Musicófilo: Refere-se a quem demonstra um grande amor ou propensão pela música;

Audiófilo: Mais específico, define o apaixonado pela música focado na qualidade técnica e na alta fidelidade do som (equipamentos de som, fones, caixas).


Tem maluco para tudo!


Sendo bem cruel: Uma mente menos treinada não é diferente daquela de um peixinho que ouve apenas as relações mais simples.

Como o cérebro treinado para música não só a percebe, mas também constrói a música durante a audição. Ele elabora e organiza um processo em camadas progressivas de complexidade:

  1. Tons sucessivos se unem em fragmentos melódicos;

  2. Fragmentos formam melodias completas;

  3. Melodias se organizam em frases e longos trechos;

  4. Tons simultâneos se integram em intervalos;

  5. Intervalos se tornam acordes;

  6. Acordes formam progressões harmônicas;

  7. Padrões de acentuação se convertem em ritmos;

  8. Variações de intensidade se tornam crescendos e decrescendos.


Não necessariamente nessa ordem, cada camada surge na mente do compositor que sem depender da precedência da anterior. Muitas vezes, a 7 aparece primeiro e depois vem 2, e depois a 4 e etc.  Nosso cérebro é especialista em procurar e organizar padrões. Assim, ouvir não é montar essas relações e depois escutá-las — ouvir é o próprio ato de modelar essas relações.


Uma mente menos treinada musicalmente, ouve a mesma música de uma mente treinada. A diferença é que a segunda está atenta e preparada para “observar” nuances e relações que para a primeira “passam em branco”. A mente menos treinada ouve apenas as relações mais simples da música. Contudo, ela não tem como saber o que está perdendo da mesma forma que um daltônico aprecia um quadro de Monet sem consciência das cores que estão além de sua percepção.

Mas a mente treinada muitas vezes em algum grau, também é "surda" a certos gêneros musicais — especialmente para aqueles que estão fora do âmbito cultural e estético do ouvinte. Lembremos que nossa percepção é enviesada, afetada pelo estado emocional e fenômenos externos. Não por “falta de ouvido", mas por falta de familiaridade mental com aquelas estruturas de relações que podem ser culturais, sociais, estéticas, antropológicas, históricas. Ou seja, o ser humano é um bicho complicado e sua audição também.


Vejam como abaixo da superfície a quantidade de elementos que trabalham para música funcionar. Na próxima postagem irei apresentar os elementos teóricos relacionados as alturas e as durações.


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