sábado, 7 de março de 2020

Relações dentro dos Modos: ferramentas de analise, aplicação e ensino.

                                                                                                                            Por Marcello Ferreira Soares Junior

A. Preliminares

Oi pessoal, nesse texto vou abordar alguns conceitos que utilizo para estudo, analise e ensino das escalas (ao menos as mais simples). Nosso foco reside na estrutura escrita, assim, não irei abordar aspectos históricos ou etnomusicológicos. Pronto? Então vamos lá!  

Lados de uma mesma história: Conceitos

Os modos como todas as escalas musicais podem ser pensadas (em termos de construção) como uma coleção de um certo número de intervalos distribuídos dentro do âmbito de uma oitava. baseados nessa ideia inicial vamos observar os dois conceitos abaixo:

 - Podemos definir uma escala como uma sequência de notas diferentes consecutivas entre si que estão organizadas e segmentadas por intervalos menores que uma oitava (exemplo: semitom, tom, terças) dentro da tessitura de uma oitava. A forma (distribuição dos intervalos dentro da oitava) de uma escala influencia sua sonoridade.

 - Em algumas definições as escalas são entendidas como uma sequência de notas escolhidas entre aquelas que compõem uma escala cromática. Na escala cromática o intervalo entre a primeira nota e sua repetição deve ter 12 semitons na direção ascendente (escrita mais comum) ou descendente. Aqui as escalas são construídas através da escolha de alguns elementos extraídos de um manancial (a escala cromática).

Observamos que as duas definições optam por focar em aspectos diferentes e as vezes complementares do estudo das escala. Dependendo da abordagem escolhida elas se completam ou não. 

De forma geral podemos observar o fenômeno da construção escrita de uma escala de diferentes formas sem que uma anule outra.

Algumas observações antes de começar: Detalhes técnicos

Como disse aqui nesse texto pretendo apresentar uma série de conceitos que acredito serem importantes para o estudo das escalas. Alguns já são de uso comum no estudo da música, mas um em particular tomei a liberdade de chamar de Fórmula. A Fórmula é uma forma que utilizo para facilitar e torna mais clara analise e entendimento da estrutura interna de uma escala musical.

Mas vamos simplificar ao extremo usando uma analogia. Imaginemos que estamos preparando uma grande quantidade de massa para um bolo. Contudo, nossa ideia não é fazer um enorme bolo e sim vários bolos menores de formatos diversos. A nossa disposição temos sete diferentes fôrmas com formatos diferentes, onde temos que considerar que cada forma influencia no sabor do bolo.   

Em nosso texto vamos chamar essas fôrmas de fórmulas. Assim, vamos usar o termo fórmula designar a distribuição dos intervalos dentro da oitava que compõem uma determinada escala. As fórmulas serão apresentadas na forma de uma coleção de intervalos (utilizaremos os modos litúrgicos - Med pág. 165) de tom [T] e semitom [ST]. Em alguns casos para analise utilizaremos algarismos (de 1 à 7) para identificar os graus{*} que formam uma escala.

Exemplo:

Figura 1

 +++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
{*} Detalhe técnico: Os graus de uma escala não sinalizam apenas ordem seguida pelas notas dentro de uma escala. Ela identifica cada nota com uma função estrutural dentro daquele contexto perceptivo.

O primeiro grau é a nota tônica da escala
O quinto grau é a nota com função de dominante. 

Normalmente para representar os graus são utilização algarismos romanos (I-II-II). Contudo, irie tomar a liberdade de utilizar os algarismos arábicos (1-2-3). 
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Outra categoria de nomenclatura utilizada para classificar e analisar as escalas está relacionada a quantidade de notas que compõem cada escala:

Pentatônica: cincos notas (penta = 5)
Heptatônica: sete notas (hepta=7)
Octatônica: oito notas (octa=8)

Vamos nos deter nas escalas heptatônica (com sete notas). Pois as escalas são as mais comuns (modos, diatônica) são heptatônicas, dessa forma, mais familiares para o público em geral (é só lembrar do famoso dó-ré-mi-fá-sol-lá-si). 

O tetracorde é um conjunto de quatro notas divididas por quatro intervalos musical {*}.

 +++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
{**} Detalhe técnico: São as distâncias entre as frequências de dois sons. Na acústica essas distâncias são medidas utilizando a grandeza física chamada hertz. Na teoria musical utilizamos o semitom e o tom para designar as duas menores distâncias entre dos sons na música ocidental.
++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

O Tetracorde é uma sequência de quatro notas diferentes escritas e/ou tocadas em sequência ou simultaneamente. A divisão por tetracordes facilita a observação e analise das heptatônicas. As escalas modos ou diatônicas (maior e menor) são formadas por dois tetracordes. Um tetracorde é forma por quatro notas e três intervalos.


Figura 2





















Podemos analisar os tetracordes em maiores, menores, diminutos e aumentados. Cada classificação irá designar uma configuração diferente de um tetracorde. 

Maior: T - T - ST = dó T ré T mi ST fá.

Menor: T - ST - T = dó T ré ST mib T fá.

Aumentado: T - T - T = dó T ré T mi T fá#

Diminuto: T ST ST/ST ST T/ST T ST = dó T ré ST mib ST fáb

Essa analise é importante para determinar a qualidade da escala: maior, menor, natural, harmônica ou melódico (Essa classificação pode ser assunto para outro artigo).  

Por exemplo:

Uma escala é considerada maior quando seu primeiro tetracorde é um tetracorde maior. 

Uma escala é considerada menor quando seu primeiro tetracorde é um tetracorde menor.

Ou

Uma escala é maior natural quando:

O primeiro tetracorde da escala é um tetracorde maior e segundo é um tetracorde menor. Sendo esses dois tetracordes ligados por um intervalo de TOM entre o 4º e 5º graus da escala.

Vejam que surgiu um novo elemento! O intervalo entre entre o 4º e 5º graus da escala. É interessante observa que entre os dois tetracordes que formam uma escala heptatônica sempre haverá um "intervalos de divisão ou conexão". Esse intervalo interliga os dois tetracordes formadores da escala. Esse também é em muitos casos determinante na estruturação da escala, no caso das heptatônicas, na estrutura das escalas diminutas.

Aplicação da Fórmula

A aplicação da Fórmula patroniza e normatiza a construção de uma escala sobre qualquer nota.

Figura 3

Cuidado com a escrita dos acidentes!

Nunca! Jamais! Utilize notas com mesmo nome dentro uma escala! Isso pode causar confusão entre as notas que compõem a escrita e comunicação da escala. Sim, comunicação! Imagina que você está montando um arranjo com um colega ou numa gravação e alguém comunica da seguinte forma as notas que compõem a escala de Sol Maior: 

Sol - lá - si - dó - ré - mi - solb - sol.

Quando poderia ser menos ambíguo da seguinte forma:

 Sol - lá - si - dó - ré - mi - fá# - sol.

No meio de todo a agitação e comunicação incorreta pode causar uma confusão desnecessária.

Por que é melhor utilizar fá# ou invés de solb? 

R: Como a escala já apresenta uma nota com o nome SOL causaria confusão utilizar o mesmo nome para dois sons diferentes (sol e sol bemol). Além disso, isso excluiria da escala a nomenclatura fá, quebrando o padrão de sequência estabelecido pelas notas naturais (dó-ré-mi-fá-sol-lá-si).  

DICA:
Na hora de ensinar a escala maior voce pode usar essa dica para ajudar a memorização: 

1. Todas as escalas maiores que tem em sua fundamental (1ª nota) uma nota natural (Dó, Ré, Mi , Sol, Lá e Si) ou notas com sustenido (Fá#) usaram o sustenido # (ou o dobrado sustenido como acidentes).

2. Todas as escalas maiores que tem em sua fundamental (1ª nota) uma nota com bemol (Réb, Mib, Láb e Sib) o usaram o Bemol b (ou o dobrado sustenido como acidentes).


Os Modos

Bom, aqui posso dizer que os modos podem ser vistos como um espraiamento das escala maior e menor natural.



Exemplo 4



Vamos pensar da seguinte forma: toda escala musical heptatônica é um arranjo de sete intervalos dentro de um intervalo de oitava. De forma, os modos podem ser pensados como rearranjo desse conjunto interno de intervalo.



Figura 5

Na teoria musical contemporânea, os modos comuns no ocidente (dórico, frígio, lídio e mixolídio) são gerados a partir da escala maior. Usamos as mesmas notas da escala maior, modificamos apenas a ordem na qual elas se apresentam. Essa modificação na ordem de apresentação das notas, gera outras escalas com os intervalos internos diversos daqueles presentes na escala maior que os originou.




Na figura abaixo, vemos como os modos mixolídio e dóricos tem suas alturas provenientes da escala de C maior. Para gerar o modo mixolídio dentro da escala de C Maior, é preciso passar a delimitar o intervalo de oitava que engloba os 7 intervalos da escala heptônica, não mais entre a nota dó e sua repetição uma oitava mais aguda. E sim entre a nota sol e sua repetição uma oitava mais aguda. Em resumo, na escala C Maior tenho as notas na seguinte ordem: dó - ré - mi - fá - sol - lá - si - {}; já no modo G mixolídio tenho:  sol - lá - si - dó - ré - mi - fá - {sol}. AS mesmas notas ordenadas de forma diferente.


Quando comparamos a escala de C Maior e o modo G mixolídio, podemos verificar uma ligeira diferença na distribuição do intervalos (em Tom [T] e Semitom [ST]) segundo tetracorde da escala e do modo. 


Vamos guardar esse apontamento: As alturas que compõem um modo são provenientes de uma escala maior.


Essa variação de intervalos dentro da escala gera o intervalo característico de cada modo que a difere da escala maior ou menor natural. Ela ocorre no intervalo musical entre a nota da tônica do modo e a nota que marca o intervalo que se altera em relação a escala maior que deu origem ao modo. Essa nota não é fixa, ela varia de acordo com o modo. Aqui vamos chamá-lo de Intervalo Característico (IC). E a nota que forma o intervalo junto com a tônica de Nota Característica (NC). 



 


Relações entre os modos


Figura 

Um belo dia encontrei uma imagem similar (não encontrei o autor) e achei uma ótima sacada em termos de uma ferramenta norteadora da analise dos modos. Resolvi reconstruir adicionando alguns detalhes complementares para torna incrementar uma ideia já muito boa. O que mais admirei foi o uso do modo dórico como o eixo central ao redor do qual as diversas relações entre os demais modos gravitam.

Sem mais delongas, vamos entender todas essas setas e cores. 

A imagem acima apresenta quatro relações existentes dentro do contexto dos modos:

- Proximidade (Verde); 
- Inversão (Azul);
- Intervalo alterados na transposição (Laranja);
- Qualidade (Roxo).

- Proximidade: é a relação de vizinhança entre os modos dentro de uma ordem. Essa é a mais simples de ser observada e aprendida.

Figura  5


- Intervalo alterados na transposição: utilizando um seta que indica de qual modo partiremos para iremos transforma-lo e a legenda ao lado indica qual grau do modo sofrerá alteração e a direção da seta da legenda indica qual a alteração (um semitom acima ou um semitons abaixo.

Ex.: 

1. Jônico para Lídio - iremos alterar o 4º do modo Jônico um semitom para cima.

2. Jônico para Mixolídio - iremos alterar o 7º do modo Jônico um semitom para baixo.

Figura 6


Inversão: É a relação mais interessante que mostra a organicidade dos modos. O exercício apresenta a condição que os modos apresentam que ao inverter de forma espelhada a relação dos intervalos de suas Fórmulas encontramos outro modo (vimos isso no artigo sobre Escrita espelhada). A linha azul indica quem se transmuta em quem!

Ex.: 

O Jônico ao ter os intervalos de sua Fórmula invertidos de forma espelhada se converte no Frígio.

Figura 7
Figura 8


- Qualidades: Simplesmente identifica os modos maiores, menores ou diminuto.

Acredito que partindo das ideias apresentadas cada um pode criar varias formas de abordagem e aplicação. O que entendo como mais importante é entender como um simples esquema visual auxilia no ensino, memorização e aquisição de uma série de informações.

Bom ficamos por aqui. 

Abraços!   



Fontes:

Lacerda, Osvaldo. Compêndio De Teoria Elementar Da Música. Ricordi. Rio de Janeiro (2006)
Med, Bohumil. Teoria Musical. 4ª ed. Musimed – Brasilia (1996)
Dicionário Grove de Música: Edição Concisa. Editado por Stanley Sadie. Zahar – Rio de Janeiro (1994)
Rimsky-Korsakov, Nicolas. Tractado Practico de Armonia. Ricordi – Buenos Aires (1997)
Schoenberg, Arnold. Funções Estruturais da Harmonia, Via Lettera -  São Paulo (2004)

quarta-feira, 4 de março de 2020

O Quadrivium

                                                                                            Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior



Durante a Idade Média até o Renascimento a música foi classificada dentro de um sistema de disciplinas científicas chamadas de Trivium e Quadrivium. Isso se deu com a "redescoberta" na Idade média da Paidéia que foi então reintroduzida na educação inicialmente de religiosos e em seguida nas elites aristocráticas e intelectuais renascentistas.  

O conhecimento intelectual era dividido entre as sete artes liberais: Gramática, Lógica, Retórica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia.


O termo Quadrivium, que significa o cruzamento de quatro ramos ou caminhos. O Quadrivium se voltava para observação do universo representado pelo número, pelo espaço, pela vibração e pelo tempo. Ele é composto por aritmética (a teoria do número), música (a aplicação da teoria do número na vibração, no ritmo e as dinâmicas), geometria (a teoria do número no espaço) e astronomia (a aplicação da teoria os movimentos observáveis do corpos celestes). 

O Quadrivium formado era pelas quatro artes liberais das “coisas” - aritmética, geometria, música e astronomia. Ele era a forma de entender, medir, reproduzir e vislumbrar a natureza da realidade. 



O número é a linguagem do Quadrivium dentro de cada disciplina era aborda um objeto diferente: 

O Matemática é o número como linguagem universal que traduz o universo.

A Geometria é o número traduzindo o espaço. 

A Música é o número traduzindo o tempo e as vibrações.

 A Astronomia representa o número tradutor dos movimentos observáveis do corpos celestes. 

De acordo com a ideia central do Quadrivium Número, Música e a Geometria são verdades metafísicas e modelos de beleza. 

O Quadrivium é uma espécie de “precursor” das ciências físicas modernas. 

Observação: A Editora É Realizações editou no Brasil um titulo organizado por John Martineau que vale a pena a consulta.


sábado, 25 de janeiro de 2020

Contratempo

                                                                                                        Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior


Vamos continuar nossa série sobre tópicos básicos da teoria musical. Nosso foco está na compreensão das estruturas rítmicas básicas como é apresentada da literatura.

O entendimento do conceito de contratempo é muitas vezes ignorado por muitos (mas muitos mesmo!) músicos. Existe uma imensa confusão sobre o tópico! Ao ponto de muitas vezes o conceito de contratempo ser confundido com a sincope! Assim, vamos tentar esclarecer essa confusão nesse rapidíssimo artigo.


CONCEITO DE CONTRATEMPO


A Síncope ocorre quando a duração de um tempo fraco ou de uma parte fraca de um tempo se prolonga sobre um tempo forte ou a parte forte de um tempo seguinte.

O Contratempo é o deslocamento do acento métrico para uma parte fraca do tempo ou para um tempo fraco dentro de um compasso. (LACERDA pág. 39)

Ele ocorre quando:

1. Há omissão das figuras rítmicas nas partes fortes de um tempo ou nos tempos fortes de um compasso. (MED pág. 46)

Ex. Temos pausas nos tempos fortes de uma compasso.

2. Deslocamos os acento métrico de uma figura rítmica. Para sinalizar utilizasse o sinal (>).

Observemos os dois casos na figura 1 e 2.

Figura 1

Figura 2


+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Observação: Usa-se, em casos raros, a sigla (sfz) do termo sforzando para demarcar um deslocamento no acento.
+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

LACERDA (pág. 38 tópico 73) chama a atenção para os contratempos "sinalizados" através das ligaduras de expressão. (figura 3)

Figura 3

  •  "A nota de onde parte a linha curva recebe, então, mas acento que a seguinte" - (LACERDA pág. 38 tópico 73).

TIPOS DE CONTRATEMPO

Contratempo regular: É aquele onde a figura que recebe o acento e a figura que perde o acento e/ou pausa tem a mesma duração. (figura 1) (MED pág. 147)

Contratempo irregular: É aquele onde a figura que recebe o acento e a figura que perde o acento e/ou pausa apresentam durações diferentes.(figura 4).

Figura 4

Observamos na figura 4 que as figuras rítmicas acentuadas (>) apresentam durações diversas das pausas ou figuras que se apresentam nas partes fortes de uma tempo ou de um compasso.

Bom, esse tópico foi rápido e direto! Continuaremos com a analise das configurações rítmicas que iniciam e concluem temas e frases musicais. 

Divirtam-se (Ou Não!)

Teoria Musical - Bohomil Med (4º edição);
Compêndio de teoria elementar da música - Osvaldo Lacerda;
Fraseologia Musical - Esther Scliar;
Elementos básicos da música - Roy Bennet.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Síncope

                                                                                                        Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Oi pessoal!

Antes de entrar no conteúdo em si, eu gostaria de esclarecer um detalhe que as vezes causa celeuma. Qual o termo correto Síncope ou Sincopa? Os dois estão corretos! Contudo, há um detalhe a ser levando em consideração!

Atualmente no Brasil se convencionou a utilização da palavra síncope. Entretanto, entre os músicos mais veteranos é muito comum o uso do termo sincopa. Isso talvez ocorra (não posso cravar!), por causa do referencial bibliográfico utilizado na formação de diferentes gerações.

Em seu livro Compêndio De Teoria Elementar Da Música (1962), Osvaldo Lacerda utiliza o termo “Sincopa”, que é o termo usado na língua espanhola. Já mais recentemente, em seu livro Teoria Musical, Bohumil Med utiliza o termo “Síncope”, que talvez seja uma tentativa de “aportuguesa” os termos Sincope (do italiano), Synkope (do alemão) e Syncope (do francês).  Isso claro é uma especulação, não tem nenhuma pesquisa (minha) sobre isso. Mas é provável que algum pesquisador mais cuidadoso tenha se debruçado sobre o tema.

Nesse texto irei usar o termo na sua forma mais comum no Brasil: Síncope.

Vamos ao que interessa!!

A síncope ocorre quando a duração de um tempo fraco ou de uma parte fraca de um tempo se prolonga sobre um tempo forte ou a parte forte de um tempo seguinte. Isso pode ocorrer por meio de uma ligadura (entre compassos diferentes) ou de uma variação na escrita das estruturas rítmicas dentro de um mesmo compasso.

Lacerda chama a atenção para supressão do acento “natural” no tempo forte ou na parte forte de um tempo (LACERDA pág. 38). Med coloca que a síncope “produz um efeito de deslocamento das acentuações naturais” ocasionando “uma sensação de desorientação métrica pela falta do acento esperado” (MED, pág. 143).



  • Observação preciosista: A figura rítmica que “sofre” a síncope é aquele que perde seu acento métrico natural.
Exemplos e observações



figura 1
Na figura 1 temos exemplos comuns de síncopes ocasionadas por ligaduras entre dois diferentes compassos. Nesses exemplos estou utilizando o compasso binário para facilitar a visualização.

A: figura rítmica no tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura que está no tempo forte do compasso seguinte.

B: A figura da parte fraco do tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura no tempo forte do compasso seguinte.

C: A figura do tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura na parte forte do tempo forte do compasso seguinte.

D: A figura da parte fraco do tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura na parte forte do tempo forte do compasso seguinte.

figura 2
Na figura 1 temos exemplos comuns de síncopes ocasionadas por ligaduras ou variação na escrita das estruturas rítmicas dentro de um mesmo compasso. Nesses exemplos estou utilizando o compasso quaternário para facilitar a visualização.

A: figura rítmica no tempo fraco do compasso expande sua duração sobre a figura que está no tempo meio-forte seguinte. 

B: As figuras nas partes fracas dos tempos expandem suas durações sobre as figuras nas partes fortes dos tempos seguintes.

C: Nesse exemplo ocorre juntas as situações descritas em A e B.

D: Temos uma variação na escrita das estruturas rítmicas de B.

E: Esse exemplo é uma "forçada de barra" de minha parte, dificilmente essa situação será usada para exemplificar uma síncope, mas é interessante pensar que toda regra teórica em música tem de ser observada com parcimônia.

Para finalizar, lembro que Med chama atenção para algumas classificações que ajudam a analisar a síncope no texto musical.

Ritmo sincopado: É aquele onde os acentos métricos estão em desacordo com a métrica "natural" de uma figura rítmica ou compasso. (MED, pág. 145)

Sincope regular: Liga duas figuras rítmicas de mesma duração (Exemplo A das figuras 1 e 2).

Sincope irregular: Liga duas figuras rítmicas de duração diferente (Exemplo B e C da figuras 1 e exemplo C da figura 2).Liga duas figuras rítmicas de mesma duração (Exemplo A das figuras 1 e 2).

Bom, continuaremos na próxima publicação sobre Contratempo.

Divirtam-se (ou não)!

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Métrica e outros aspectos (tópicos de teoria básica).

                                                                                                    Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior
Oi pessoal!

Uma coisa que sempre me incomodou é o fato da imensa confusão que existe em relação aos usos feitos de termos como Acento Métrico, Síncope, Contra-tempo, Tempo Forte, Anacruse e etc.

Observo que há uma imensa confusão em relação a esses conceitos. Mas o pior de tudo é ouvir músicos (práticos) e "entendidos em música" cometerem verdadeiras aberrações quando tentam usar ou explicar esses conceitos. A meu ver, isso se dá, porque alguns músicos baseiam seus conceitos sobre o assunto em meros "achismo" ou apenas repetem um bordão que já foi lhe ensinado errado.

Por desencargo de consciência resolvi fazer uma pequena série de quatro postagens sobre esses assuntos. Tentarei apresentar tudo de forma simples e rápida.

Nessas postagem vou utilizar como base alguns textos teóricos (para ninguém falar de achismo!) de fácil acesso e amplamente aceitos e utilizados tanto em escolas de música quando em cursos superiores. São esses textos:

Teoria Musical - Bohomil Med (4º edição);
Compêndio de teoria elementar da música - Osvaldo Lacerda;
Fraseologia Musical - Esther Scliar;
Elementos básicos da música - Roy Bennet.


Acento Métrico

Conceito: É uma intensidade atribuída a uma determinada nota (figura rítmica) numa estrutura musical (pulso ou compasso). (Med pág. 41/ Em itálico estão complementos colocados por mim).

- Quando eu acentuo (executo com mais força) uma determinada figura ou um determinado tempo numa contagem de pulso, eu estou acentuando ou destacando aquela determinada fração de tempo.

Digamos que vamos contar de 1 até 4. E nessa contagem eu darei ênfase ao número três:

1 - 2 - 3 - 4 - 1 - 2 - - 4 - 1 - 2 - - 4 - 1 - 2 - - 4

Estou acentuando o terceiro momento dentro da minha contagem! Então podemos em música dá mais enfase a determinadas frações de tempo do que a outras. Essa dinâmica concede um sentido de apoio e suspensão para a estrutura rítmica da música.

Essa ideia é extensamente aplicada na música tanto uma sentido micro (dentro de um pulso) quando no sentido macro (numa frase ou período musical).

=====================================================================

Antes de seguirmos gostaria de delinear dois conceitos: Pulso (tempo) e Ritmo.

Pulso: é um marcação (batida) regular que serve como referência de velocidade ou andamento da música.

Ritmo: é distribuição temporal ordenada dos sons dentro da música, ele é o componente central da música. Sem ele não existe noção de estrutura musical. Para que essa ordenação dentro de tempo seja facilmente compreendida devemos ocorrer a uma referência, o pulso (ou tempo). 

O ritmo numa escala micro é uma forma de fracionar a duração de um pulso em partes menores. Mas ao mesmo tempo ele pode se expandir sobre a duração de vários pulsos.

Definir o que é o ritmo é algo complexo. Pois dentro da música ele atua em diferentes dimensões. Sua influência vai além do movimento e e articulação das durações. O ritmo interfere em elementos que muitas vezes não lhe são associados na música, tal como a harmonia (mais isso é uma discussão para outra publicação.     

=====================================================================

Acentuação num contexto micro (tempos e compassos)

Dentro de um pulso (tempo) temos uma subdivisão regida pela acentuação. Chamamos de Parte Forte do Pulso ou do Tempo o momento do "ataque", ou seja, quando começamos a contar (também chamado de Apoio ou Tesis). E uma Parte Fraca do Tempo  (também chamada de Suspensão ou Arsis) que é o intervalo de temporal entre cada "ataque" da Parte Forte.

Figura 1

Na figura 1 temos uma contagem simples de dois tempos. Sendo cada tempo ou pulso dividido em duas parte uma mais forte e outra fraca. Quando estamos aprendendo a contagem de tempo é muito comum fazermos o exercício de denotar para as partes fortes um número e para as partes fracas a letra "e".

Esse mesma ideia é expandida para estruturas maiores como os compassos. O compasso é uma divisão de um trecho musical em um série regular de acentuações e durações. 

Dentro de um compassos temos os Tempos Fortes e os Tempos Fracos


Figura 2
Na figura 2 temos um compasso binário onde a divisão de tempos fortes e fracos é bem clara. O primeiro tempo é sempre acentuado, por esse motivo ele se destaca e concede uma sensação de regularidade a compasso.

=====================================================================

A acentuação também é utilizada para criar fórmulas compassos irregulares. Mas esse também é assunto para uma outra postagem! 

========================================================================

De acordo com Osvaldo Lacerda podemos seguir o seguinte raciocínio (pág. 19 tópico 36) para organizar as divisões métricas baseadas na acentuação:

  • Os tempos ou pulsos são divididos em Partes Fortes e Partes Fracas. 
  • Os compassos podem ser divididos em Tempos Fortes e Tempos Fracos.

Figura 3

=====================================================================

Para ninguém dizer que deixei passar. O Lacerda também se refere a uma acentuação "meio-forte". Que aparace em compassos como o quartenário, onde o terceiro tempo também é visto como um apoio de menor intensidade que o primeiro tempo.

figura 4
========================================================================

Para finalizar, três exemplo para analise

figura 5

No exemplo A, temos uma pausa sobre a Parte Forte do primeiro tempo do compasso. E nesse caso apenas a Parte Fraca do primeiro tempo é executada. Todos os outros tempos do compasso são executados a partir de suas Partes Fortes.

No exemplo B, ocorre com o segundo Tempo do Compasso o mesmo que ocorreu com o primeiro tempo do exemplo A. O Tempo Forte do compasso (o 1º) e o Tempo Meio-forte do compasso ( o 3º) são executados a partir de suas Parte Fortes. Já o Quarto Tempo não apresentada som, ele apenas é contado.

No exemplo C, os tempos 1 e 4 do compasso não são tocados apenas contados. O tempo 2 é tocado a partir de sua Parte Forte e o tempo 3 tem apenas sua Parte Fraca tocada.

Conclusão... Por Enquanto.    

Bem, como vocês viram não me aprofundei muito, apenas tentei pontuar de forma simples e objetiva o conceitos básicos de acentuação. Em seguida apresentei de como essa acentuação é importante para delimitar as estruturas básicas do ritmo musical. Na próxima postagem vou abordar o conceito de Sincope ou Sincopa. 


Links para Artigos que desenvolvem o assunto:



terça-feira, 10 de setembro de 2019

Mozart - Jogo de dados musical (Musikalisches Wuerfelspiel)

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Musikalisches Wuerfelspiel é um quebra-cabeças musical atribuído a W. A. Mozart. Atualmente, esse jogo musical faz muito mais "sucesso" entre matemáticos e programadores do que entre os músicos (esses "ignorantes") por suas propriedades matemáticas e probabilísticas.

Os resultados estéticos do jogo são encantadores! Nele temos a possibilidade de gerar pequenos minuetos, trios e valsas no estilo rococó. Uma bela peça de exercício intelectual, lógico, matemático e estético.

Com uma busca rápida podemos encontra aplicativos que simulam o jogo e geram as composições em MIDI.

Aplicativo on line do jogo de dados (Atenção o programador inverteu as tabelas do minueto e do trio..rsrs)
LINK

Versão editada com todas as tabelas e trechos musicais:
LINK PARA BAIXAR

Vídeo do canal M3 Matemática Multimídia sobre o assunto:
LINK

Divirtam-se!

Explicando o jogo de Dados Musical























No sentido vertical temos todas as colunas contendo todas as possibilidades de soma dos resultados obtidos
por dois dados:


  •  Menor valor: 2
  •  Maior valor: 12  


No sentido horizontal temos 16 colunas que indicam o número de compassos para composição do minueto ou trio. Dentro de cada coluna horizontal temos um número que indica um trecho musical
(Tabela da Página seguinte).

Tabela do trio (jogo de um dado)
Na coluna vertical temos todas os obtidos por um dado:

  • Menor valor: 1
  • Maior valor: 6  

Como jogar:

O jogo funciona como o quebra-cabeça no qual você vai combinando os trechos musicais representados por números até compor uma peça musical inteira.

Por exemplo: jogo os dados e o valor somado é 8. Observa a tabela vertical dos valores no número 8.
Em seguida, observo a coluna horizontal 1 (compassos) onde teremos o trecho musical de número 152 (ver tabelas na página seguinte).

Seguindo esse processo descubro que a o primeiro compasso da minha composição será formado pelo trecho musical 152!

Jogo novamente os dados e repito o processo. Digamos que novamente caí o número 8, seguindo o mesmo processo só que agora sigo para coluna horizontal 2, onde tenho o trecho musical 60.

Esse processo repetido 16 vezes gera um minueto completo com início meio e fim.

O mesmo processo se aplica na composição do trio. Ao final teremos uma composição de 32 compassos.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Régua para montagem das escalas maiores e acordes maiores e menores.

Por Marcello Ferreira Soares Junior 

Oi pessoal,

Faz tempo que não posto nada (A vida tem sido corrida!). Mas para não deixar o blog ao "relento" vou postar o link para um ferramenta simples que uso como material didático no ensino das escalas maiores e acordes maiores e menores.

É um pappercraft que elaborei no formato de uma régua que auxilia o inciante no estudo da teoria musical a montar escalas maiores e acordes maiores e menores,






Segue o link:

LINK

Abs.

Bartok Axis simplificado, "Aladim Sane" do David Bowie e como Erno Lendvai evita você perder tempo com “ginásticas e martelinhos teóricos”.

Bom, nesse texto vou ser rasteiro mesmo. Mas isso aqui vai funcionar com algumas regras. 1. Não vou começar com contextualizações sobre quem...