quarta-feira, 6 de maio de 2015

Primórdios da Polifonia no século XIII: Ars Antiquæ; Organum; Escola de Notre Dame


Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

A Europa – e por extensão, o Ocidente – moderna nasce no século XI, este período entre os anos 1000 e 1100 d.C. assistiu o renascimento da economia européia; o aumento populacional; a fundação de muitas das cidades modernas; a conquista da Inglaterra pelos povos Normados; o inicio da reconquista da Espanha; a fundação das primeiras universidades e traduções do grego e árabe, além do nascimento da literatura em língua vernácula. O Principal marco deste “renascimento” da Europa foi a divisão definitiva das igrejas do Ocidente e Oriente em 1054.

A música não ficou isenta desta fase de distinção, em alguns aspectos ela começa a se distanciar de suas raízes orientais e se formatar da maneira que a conhecemos hoje, vamos a um resumo dos principais aspectos:

·         Composição: aos poucos a improvisação foi sendo substituída pela composição definitiva. Antes, a cada interpretação a melodia de uma canção sofria alterações, pois as melodias eram passadas oralmente. Contudo, graças ao desenvolvimento de uma notação musical que permitia registrá-las as melodias com mais precisão, estas melodias passaram a ser reproduzidas como compostas. Elas se tornaram composições, ou seja, passaram a existir na forma que foram concebidas, independente de serem executadas ou não.

·          Princípios Estruturadores ou ordenadores: a música começa a ser criada a partir de princípios “conscientes”, em outras palavras, regras de utilização de modos, ritmos; forma e tratamentos das consonâncias.

·         A polifonia: este que é um fenômeno que se tornou marca registrada da música ocidental, apesar da polifonia não ser de forma alguma um aspectos exclusivo da música ocidental, foi no ocidente onde ela encontrou seu maior grau de desenvolvimento, por conseqüência da notação musical das alturas e ritmos. Temos que convir que o preço desta especialização, foi uma diminuição das sutilezas melódicas encontradas na música de outras civilizações. Entretanto, apenas na música ocidental encontraremos o grau tão alto de complexidade polifônica consciente e planejada.

Todas estas reformas ocorreram ao logo dos séculos de modo gradual. O século XI assiste o inicio do caminho que levou a afirmação da polifonia [Séc. XII] como uma nova maneira de criar música. É importante sabermos que a monodia e a improvisação não foram completamente abandonadas, continuaram a ser utilizadas e a foram revitalizadas mais tarde em diversos períodos da música.       
  
Ars Antiquæ: O Organum Primitivo e a escola de Notre Dame

Não se sabe ao certo em que momento os compositores passaram a usar a polifonia, acreditasse que ela já era usada na música sacra não litúrgica e na música secular como elemento ornamental. A polifonia primitiva consistia na duplicação da melodia principal em intervalos de terças; quartas ou quintas isso ocorria ao mesmo tempo do uso de heterofonia sobre a melodia principal. Os registros mais antigos desta prática são do século IX, contudo, não há nenhuma referência de que ela consistisse numa proposta de um novo processo de composição, era sim, apenas uma indicação de algo que já vinha sendo exercitado já há algum tempo. 

A palavra Organum foi inicialmente utilizada para identificar um tipo de obra, onde uma voz era improvisada abaixo de um cantochão. Depois passou a designar vários estilos de Polifonia primitiva entre os Séculos IX e XIII, na Europa ocidental. Consistia basicamente na adição de uma ou mais vozes a um cantochão já existente.

Organum Paralelo

Os organum paralelos são as primeiras obras polifônicas que se tem notícia.No século IX, já era comum adicionar outra voz para acompanhar a voz principal do cantochão, embelezando a sonoridade do canto. Neste contexto a melodia do cantochão passou ser chamada Vox Principalis ("voz principal"), e a voz acompanhante de Vox Organalis (“voz organal”). Inicialmente, estas vozes eram harmonizadas paralelamente no sistema de nota-contra-nota, ou seja, para cada nota da voz Principal temos uma nota na voz organal. A voz organal era normalmente escrita abaixo da voz principal, em geral, em intervalos de oitava, com o tempo se passou a utilizar os intervalos de quarta e quinta. Comumente, a Vox Principalis era um cantochão e a Vox Organalis improvisava. Este tipo de composição chamava-se Organum Paralelo. Esta forma de escrita foi largamente utilizada em composições com grupos maiores que duas vozes, entretanto, as vozes dividiam-se entre as que apenas duplicavam a voz principal e a que duplicavam a voz organal. Um exemplo desta forma de escrita seria a duplicação da vox principalis uma oitava abaixo e a duplicação da vox organalis acima das outras três[ilustração 2]. Surgiram a seguir outros tipos de Organum: o Livre e o Meslimático. Em resumo temos três tipos iniciais de escrita polifônica:

Ilustração 1 Organum Paralelo

Ilustração 2 Voz organal duplicada uma oitava acima


Organum Livre
Desenvolvido no período subseqüente ao organum paralelo, o organum livre iniciasse quando os compositores passam a experimentar vários tipos de movimentos na voz organal: paralelo ou direto, oblíquo, contrário na voz organal. Passar a usar intervalos de uníssono, oitava, quinta e quarta. Nesta técnica a vox organalis passa a ser escrita acima da vox principalis. Contudo, o organum livre mantém o sistema de escrita de nota-contra-nota do Organum Paralelo.


Ilustração 3 tipos de movimento

Ilustração 4 Organum Livre

Organum melismático
No Século XII, o sistema de escrita de nota-contra-nota foi gradativamente sendo abandonado em favor de um estilo de escrita. Nele as notas da voz principal passaram a ser escritas em valores rítmicos mais longos e ela passou a ser chamada de Tenor (do latim tenere, que significa manter). O tenor mantinha as notas longas enquanto a vox organalis se desenvolvia um linha melódica baseada em agrupamentos de notas com valores rítmicos mais curtos, criando uma melodia sinuosa cantadas numa única sílaba do texto. Esta técnica passou a se chamar melisma.

Ilustração 5 Organum Merismático – verso: Senescento mudano filio

Escola de Notre Dame

A construção da Catedral de Notre-Dame de Paris foi decidida pelo Bispo Maurice de
Sully, logo após sua eleição, no final 1160 ou início de 1161. A construção começou em 1163 e continuou até 1245. Sendo que o altar-mor foi consagrado em 1182. Uma obra como esta na Idade Média não trazia apenas status para a igreja, mais também para a cidade que a comportava. Pois para manter uma catedral era necessário dispor de uma grande infra-estrutura. Assim, muitas das grandes mentes da Europa convergiram para Paris, o que resultou na a fundação universidade sedentária. Este contexto transformou a cidade de Paris um pólo artístico e cultural. E finalmente com vinda da família real, a cidade também se tornou um centro de movimento político-econômico da Europa cristã.
A música, neste ambiente experimentou um desenvolvimento sem precedentes. Pois diferente dos primeiros anos da Idade Média, os músicos que desenvolviam sua arte quase que isoladamente nos mosteiros espalhados pela Europa, passaram a ser reunidos num único lugar, assim a criação e o desenvolvimento técnico passaram a conhecer um nível nunca visto antes na Europa medieval.  

Dois aspectos colaboraram com este desenvolvimento: a igreja passa a aumentar a complexidade e pompa das cerimônias. Desta forma, as congregações passaram a competir entre si cada uma dispondo de um corpo de músicos. Além disso, nobreza passa a incorporar música na sua vida doméstica, a própria família real mantinha uma trupe de cantores e músicos disponíveis.

Neste contexto, os músicos da chamada Escola de Notre Dame entram para a história da música ocidental como personagem decisivoa, pois sistematizando o uso da polifonia e de uma notação rítmica coerente, a musica mensurabilis. Mudaram os rumos da criação musical do ocidente.

O primeiro período da música polifônica é chamado de Ars Antiquæ (também chamado de Ars Ars Vetus Veterum) refere-se à música produzida no período entre 1170 e 1310, abrangendo o período inicial de escola de Notre Dame. A Ars Antiquæ é uma conseqüência do desenvolvimento musical ocorrido nos séculos IX e XII, quando surgiram e se desenvolveram as primeiras formas polifônicas: Moteto, conductos, discantus. Na História da Arte este período é conhecido como Gótico. E teve como principal centro Paris.
O principal centro de atividade musical da Paris Gótica era a catedral de Notre Dame, dela faziam parte de um grupo de músicos consagrados em sua época, entre eles estão dois que passaram para a história como os primeiros compositores polifônicos conhecidos: Leonin e Perotin

Leonin ou Leoninus (Paris, c. 1135 – 1201), era francês, a única referência feita a ele, foi registrada um século após sua morte por um monge britânico anônimo, que o descreveu como: "o maior compositor de organum para amplificação do serviço divino". Mestre de capela da igreja de Bienheureuse-Vierge-Marie (viria a ser a catedral de Notre Dame). Leonin foi o primeiro grande representante da Escola de Notre Dame, era considerado o melhor compositor de organa do seu tempo. Não foi encontrado qualquer documento que pudesse estabelecer a sua biografia, nem qualquer manuscrito que lhe pudesse ser atribuído com certeza. É atribuída a Leonin a autoria do Magnus liber organi (que do século XIII). Magnus liber organi de gradali et antiphonarii pro servitio divino multiplicando (c.1160-1180).


Ilustração 6 Organum Duplum – Aleluia Pascha Nostrum

Sua escrita consistia em primeiro escolher uma melodia apropriada do repertorio do cantochão, em seguida era escrito sobre ela a vox organlis, esta pratica era conhecida como Organum Duplum. Tecnicamente falando, fazia-se a seguinte operação: sobre a melodia do cantochão era colocada em valores muito longos e a voz organal era sobreposta ora por melismas, ora na forma de nota contra nota.

Pérotin, chamada de Perotin le Grand ("o Grande") ou Perotinus Magnus Magister (Mestre Maior) também era francês, nascido em Paris entre 1155 e 1160 e morreu cerca de 1230. Considerado o mais importante compositor da Escola de Notre Dame. Revisou o Magnus Liber (atribuído a Leonin) entre 1180 e 1190, adaptando seu repertorio ao estilo mais moderno praticado em sua época, ou seja, ampliou as obras de duas vozes para três e quatro vozes (Organum Triplum e Quadruplum respectivamente). Perotin também foi importante para o desenvolvimento da escrita dos modos rítmicos e o desenvolvimento de estilos como o discante.

Pouco se sabe sobre sua vida, entre as fontes confiáveis estão os tratados teóricos de Johannes de Garlandia datados da segunda metade do século XIII. Sua obra mais importante é Viderunt Omnes, o que foi encomendado pelas autoridades da Igreja para celebrar o dia de Natal do ano 1198.

Modos rítmicos

Era um esquema rítmico baseado na métrica da poesia. Foi usado na Idade Média e desenvolvido pelos compositores da Escola de Notre Dame.
No tratado De mensurabili musica, atribuído a Johannes de Garlândia, escrito por volta de 1240. Este modelo é pela primeira vez exposta como estudo. Existiam de seis modos rítmicos principais, embora na prática somente os três primeiros fossem mais usados. Eram eles:



1. Troqueu - semilonga/curta
Semínima-colcheia - compasso 3/8
2. Jâmbico - curta/semilonga
Colcheia-semínima - compasso 3/8
3. Dáctilo - longa/curta/semilonga
Semínima pontuada-colcheia-semínima - compasso 6/8

4. Anapesto - curta/semilonga/longa
Colcheia-semínima-semínima pontuada - compasso 6/8
5. Espondeu - longa/longa
Semínima pontuada-semínima pontuada - compasso 3/8 ou 6/8
6. Pírrico - curta/curta/curta
Colcheia-colcheia-colcheia - compasso 3/8 ou 6/8




Ilustração 7 Modos rítmicos

Ilustração 8 Aplicação dos Modos

Podiam-se construir agrupamentos rítmicos maiores tendo como base cada modo. Esse modelo foi utilizado até no século XIV. Os modos também eram usados com sutis variações, como veremos a seguir.

Discante e Clausula

Apesar do Organum ser baseado numa melodia original escrita sobre um tenor extraído do repertorio do Cantochão, com o tempo, os músicos começaram a adicionar um novo trecho as composições, onde tanto o tenor quanto o organum teriam melodias originais. Este novo estilo passou a se chamar Discante o trecho com melodias originais Clausula. A clausula não tinha texto ela era basicamente um vocalize sobre uma silaba. A voz principal passava a ter uma divisão rítmica mais rápida, baseada em variações dos modos rítmicos. No exemplo abaixo temos o uso de variações sobre o modo Espondeu:


Ilustração 9 Exemplo de Discante, com a Clausula destacada.

Moteto

O desenvolvimento do moteto é vinculado a Escola de Notre Dame, no século XIII. O termo moteto é derivado de mot, que significa: palavra em francês. Ele é um gênero musical polifônico surgido no século XII. Ele tem sua origem ligada a clausula do discante, inicialmente, os compositores passaram destacar a clausule e adicionar textos a suas melodias, usavam-se um texto distinto para cada voz. O moteto se tornou uma das grandes formas da música polifônica, sendo o apogeu de seu uso no contraponto modal do século XVI, ele desfrutou de grande importância até o período barroco e também foi retomado por alguns compositores românticos em suas obras sacras.

O a voz aguda do duplum passa a ser designada como Moteto, posteriormente com Perotin ocorre o acréscimo de outra voz sobre o duplum, o triplum, com uma divisão rítmica igual ou ligeiramente mais rápida.

Os textos usados muitas vezes não tinham qualquer conexão contextual, misturava-se um texto religioso e um texto secular que abordavam diferentes temas sem qualquer problema. Pois a preocupação dos compositores é muito mais ajustar as palavras ao ritmo das melodias do que a o contexto temático. Este tipo de composição mais tarde passou a ser identificada como moteto politextual.

Os principais nomes da escola de Notre Dame: Leonin e Perotin foram seus primeiros grandes autores. Um exemplo do estilo inicial de moteto é Salve salus hominum-O radians Stella preceteris-Nostrum, este moteto de Leonin é baseado na Clausula derivada do organum Alleluia Pascha nostrum. Os textos não têm qualquer relação com o versículo da Aleluia, contudo, os dois se completam em sentido de serem textos de exaltação a Virgem.
Observe que os modos rítmicos são bem obedecidos:

  • No Triplum e no Duplum temos o terceiro modo. Contudo em alguns trechos temos rápidas variações sobre as estrutura dos modos (estas variações estão assinaladas com hastes sobre elas).
  • No tenor (chamado de Cantus na partitura) temos variações do quinto modo.
Notem também que por terem de metros diferentes os textos do Triplum e Duplum sobrepõem inícios e finais de frases, sem nunca se encontrar, o compositor teve de planejar e ajustar bem os metros dos textos para se encontrem no compasso final.  Já o tenor faz o papel de nota pedal (nota pedal é nota sustentada por tempo indeterminando) num longo melista sobre as silabas da palavra Nostrum.

Vamos escutar com atenção o moteto Salve salus hominum - O radians Stella preceteris - Nostrum, ele foi montado sobre a clausula do duplum Alleluia Pascha Nostrum, o triplum nada mais é que um arranjo sobre a melodia do duplum. Mas tarde este motete foi adaptado para a música secular no motete Qui d’amour veut bien - Qui longuement poroit- Notrum. Observe como as métricas das frases se defasam:


Ilustração 10 Salve salus hominum-O radians Stella preceteris-Nostrum

O moteto tornou-se umas das formas musicais mais populares no final da Idade Média e no Renascimento. Surgiram estilos como o Franconiano onde a escrita das melodias se liberta em certa escala da rigidez dos nos modos rítmicos. Abaixo temos um belo exemplo o conhecido moteto Pulecete-Je Langius-Domino


Ilustração 11 Moteto: Pulecete-Je Langius-Domino de meados do Séc. XIII

Podemos observa que quanto mais aguda a melodia, mais rápida é sua divisão rítmica, cada voz com um modo rítmico diferente; O tenor com o quinto; o Moteto evolui com base do segundo e o Triplum usa versões do sexto. Quanto ao texto é curioso observar que quanto mais copioso o texto ele é colocado numa melodia rápida.

Já no final do século XIII o moteto passou por varias modificações. Passaram e existir basicamente dois tipos:

1.       Com o triplum muito rápido, numa divisão próxima a da fala, o Duplum ou moteto mais lento e o tenor passou a ter uma estrutura mais rígida e a ser executado por instrumentos.

2.       Que tinha no tenor o texto secular em língua vernácula, e todas as demais vozes evoluíssem num ritmo próximo, contudo, muitas vezes o Triplum tinha a melodia principal e era escrito mais rápido.      

Ainda podemos destacar os motetos de Petrus de Cruce (Pierre de la Croix) que escreveu Triplum numa velocidade inédita em relação as outras vozes. É importante entender que não havia a idéia de uma melodia principal com outras melodias servido apenas como acompanhamento. A idéia do moteto Petroniano de destacar fortemente o Triplum acabou se tornando um estilo de escrita que nos períodos seguintes será a base para o desenvolvimento de outras formas de música secular, onde uma melodia passa a se destacar sobre as demais.


Ilustração 12 Moteto Petroniano

Conductus

Outro gênero que se popularizou com os compositores de Notre Dame foi o conductus, ele era o cântico usado nas procissões. O conductus pode ser considerado a primeira forma de composição totalmente original, ele foi um importante modelo para vários gêneros de canção secular polifônica que se seguiram ele. O conductus foi caído em desuso a partir de 1250.


A melodia do conductus não tinha como base uma melodia do cantochão o compositor criava tanto as melodias quanto o texto de cada composição. O texto era sempre tratado na melodia de forma silábica, ou seja, uma nota para cada silaba, tendo sempre como base o estilo de nota contra nota com algumas poucas variáveis. Diferentemente do moteto, o conductus usava o mesmo texto para todas as vozes, assim tínhamos duas, três e até mais vozes cantando o mesmo texto. Contundo em alguns casos fragmentos de melodia ou frases inteiras eram trocadas entre as vozes, Por exemplo: enquanto uma voz cantava a melodia A e outra voz cantava a melodia B, em outro momento da execução podia ocorrer uma inversão entre as melodias.

Alguns conductus apresentavam trechos longos sem letra, estes trechos eram chamados Caudae, nestes trechos havia uma variedade rítmica maior entres as vozes, próximo do que acontecia nas clausula.


Ilustração 13 exemplo de conductus do séc. XIII: Ave Virgo 

História da música ocidental - Donald Jay Grout, Claude V. Palisca
Uma Breve História da Música - Roy Bennett
Masterpeices of music before 1750 - Carl Parrish
Music: The Definitive Visual History - Ian Blenkinsop
A Concise History of Western Music - Paul Griffiths
Harvard Dictionary of Music - Willi Apel

Se você quiser e puder colabore com o Parlatório Musical (LINK)

PS: Foda-se abnt

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Um rápida, rapidíssima, velocíssima história do videoclipe.

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Oi pessoal! esse é outro material para sala de aula. É simples e bem resumido, mas cumpre seu papel de guia inicial para uma aula. 

Oskar Fischinger um pioneiro na união da música e imagem em movimento. Fischinger cineasta de vanguarda, começou a desenvolver suas ideias durante os anos 20, em pequenos filmes de animação, nelas as imagens tentavam interagir com a música, (A trilha geralmente utilizada era o Jazz). Ele foi o primeiro a aplicar a cor e som, usando o movimento, geometria e espaço e os recursos relativos ao tema.

Nos anos 30, temos o advento do cinema falado, com o lançamento do filme O Cantor de Jazz, Hollywood impulsiona um novo gênero: o musical. Criando toda uma nova técnica de movimento de câmera, os gestos dos atores, coreografia, dança e cenários, todos dependentes do enredo e das músicas escolhidas para o filme. Um famoso exemplo desse tipo de vídeo musical na década de 50 é a cena de Gene Kelly em Cantando na Chuva (1952). Os produtores de Elvis Presley tomaram carona nessa tendência em Jailhouse Rock - vídeo (1957). 

Nos anos 50 e 60, esse gênero vai continuar diversificando e criando novos formatos. Nos anos 50 iniciou-se a distribuição (forma reduzida) vídeos com performances ao vivo ou em estúdio. A primeira canção a ter um vídeo produzido para sua divulgação foi Penny Lane vídeo (não era uma performance filmada e sim uma compilação de cenas com a banda) dos Beatles

O vídeo de Bohemian Rhapsody (vídeo) do Queen de 1975, é considerado o primeiro vídeo clip moderno. Ele foi dirigido por Bruce Gowers. A insistente divulgação na TV levou o single da canção ao posto número um da parada inglesa por nove semanas. Bohemian Rhapsody não tem o formato de uma canção pop tradicional. Mas a força da divulgação potencializada pela imagem alavancou seu sucesso e gerou um novo conceito. O clipe passou a ser considerado um formato audiovisual de divulgação na música popular.
   
Nos anos 80, algumas produtoras do mercado fonográfico dos EUA criaram um canal a cabo dedicado a transmitir música 24 horas por dia. A MTV, nascido 01 de agosto de 1981, tinha inicialmente cerca de quatro milhões. A estreia do canal marcou uma nova era da divulgação na indústria musical. Curiosamente o primeiro vídeo exibido foi Video Killed the Radio Star (vídeo) do The Buggles.

Nos anos 80, os clips de vídeo passam a ser produzidos em larga escala, mas ainda seguindo a estética das décadas anteriores. Ou seja, compilações de imagem da banda ou artista, em alguns casos ocorriam tentativas de criar algum sentido temático. 
  
Michael Jackson foi um dos visionários (numa postagem anterior falei sobre MJ e o vídeo clipe), contratou o diretor de cinema John Landis para dirigir alguns de seus clipes. O mais famoso foi, sem dúvida, Thriller (vídeo), que teve uma história de horror com uma maquiagem muito credível complementado e coreografia que marcou toda uma geração. Foi um dos primeiros que decidiu alterar o formato de vídeo criando um mini filme de três minutos.

Tipos videoclipe

Tipo A. Descritivo.
A narrativa com a sensação de certa ordem ou no momento na sucessão de imagens, que são os fatores que irão moldar a representação espaço-temporal, mas não há lugar para contar histórias. O objetivo é criar uma sensação de participar de uma experiência. Eles apresentam a música e seu músico ou grupo no palco, em um estúdio ou em um concerto. Tudo isso é acompanhado por imagens associadas de alguma forma com o outro, tentando manter a atenção do espectador e introduzir na situação, dentro do discurso.
Exemplo: Livin’ on the Prayer – Bon Jovi

Tipo B. Narrativo.
Ele apresentada uma sequência de eventos de uma história sob a estrutura clássica dramática. Ele desenvolve um programa de narrativa, onde atores podem interpretar os papeis das personagens do drama (ou os próprios músicos podem atuar). A relação entre música e imagem pode ser:
·         Linear (repete o que a canção narra);
·         Adaptação (enredo paralelo da música);
·         Sobreposição (história independente da música, mas funciona).
Exemplo: Jesus Of Suburbia - Green Day

Tipo A + B. Descritivo - narrativo. É uma mistura dos dois.
Exemplos: Miles Away - Winger


Maiores e melhores informações consulte: www.kandykills.jimdo.com/ (página em espanhol).

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Escalas e acordes - como fazer?

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Elementos formais da música: Intervalos musicais

O termo intervalo dentro da teoria musical é utilizado para designar a distância acústica entre dois sons. Os intervalos musicais têm as seguintes classificações:
 Melódico: sons sucessivos.

 



    Harmônicos: sons simultâneos.


 


Os intervalos melódicos são divididos em seis categorias:

Ascendente: quando a primeira nota é seguida de outra mais aguda.

 



Descendente: quando a primeira nota é seguida de outra mais grave.

 



Conjuntos: quando as notas que se sucedem são vizinhas diretas.

 



Disjuntos: quando as notas que se sucedem são vizinhas indiretas.




Simples: quando os intervalos encontram-se no âmbito de uma oitava.





Composto: quando o âmbito de uma oitava é excedido pelos intervalos.






Analise dos intervalos

Vamos analisar de acordo com as classificações e categorias que já vimos:
Aqui o intervalo é melódico, ascendente, disjunto e simples.





Abaixo temos um intervalo é harmônico, descendente (usamos como referencia a nota aguda), conjunto e simples.





Identificando os intervalos

Na música ocidental, o menor intervalo entre duas notas é o semitom, já o maior a oitava. Uma oitava é formada pela soma de 12 semitons dispostos de forma consecutiva. Esta organização recebe o nome de Escala Cromática.





Tipos de intervalos

Dentro de uma oitava podemos encontrar outros 11 intervalos menores. Os intervalos dentro da oitava podem ser:

·         Segundas; Terças; Quartas; Quintas; Sextas; Sétimas.
Elas também estão divididas em:

·         Maiores;
·         Menores;
·         Justos;
·         Diminutos;
·         Aumentados;
·         Tritono.
Eles recebem essas denominações de acordo com a distância acústicas da nota tomada como referencia e o número de semitons entre duas notas (no exemplo temos a nota Dó como referencia).

Muitas vezes, um intervalo com o mesmo número de semitons terá nomenclaturas diferentes, isso ocorrerá dependendo do contexto onde se encontra esse intervalo.

Inversão dos intervalos

A inversão dos intervalos musicais ocorre quando as notas de um intervalo mudam de posição em relação anota de referencia. Por exemplo: um intervalo ascendente tornasse descendente utilizando as mesmas notas.

Para facilitar a compreensão dos intervalos utilizamos cinco regras básicas:

·         Quando um intervalo maior é invertido ele se torna menor (e vice-versa);
·         O tritono não sofre inversão;
·         A inversão de um intervalo justo irá resultar em outro intervalo justo;
·         As 2ª ßà 7ª;     As 3ßà 6ª.                                                                                       
                               
A escala Maior

Uma escala é um conjunto de intervalos, onde usamos os semitons para organizar o local de cada nota na escala.



Na escala de maior temos setes notas, já os intervalos entre elas são os seguintes:



Essa sequência de tons e semitons irá forma todas as escalas maiores.

Acordes

Os acordes básicos, as tríades, são conjuntos de três notas de uma determinada escala “empilhados” em intervalos de terças Maiores e menores. Cada nota tem uma designação:

Tônica – dá nome é a nota (raiz) principal de um acorde;

Terça – determina se o acorde será maior ou menor;

Quinta – determina se o acorde será justo, aumentado ou diminuto.

Como empilhar as terças para forma uma acorde?

Vamos tomar como exemplo o acorde de Dó maior.  

Vamos pegar a escala de dó maior e sobrepor à nota dó.

 O acorde Maior é formado por uma terça Maior se guinda e uma terça menor. O acorde menor é o inverso 3ª menor seguida de uma 3ª Maior.

Exemplo: acorde de Ré menor.


“Tabua” dos acordes


Campo Harmônico


São os acordes formados sobre as notas de uma determinada escala (no exemplo temos a escala de Dó Maior). Formando o conjunto de acordes usados em uma determinada tonalidade.


Monodia Secular séculos XI à XIII: Goliardos; Troubadours; Trouvères; Minnersänger e Meistersinger

Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior

Monodia Secular séculos XI à XIII: Goliardos; Troubadours; Trouvères; Minnersänger e Meistersinger

Por volta do século XI, com a afirmação das monarquias nacionais, se inicia o renascimento econômico da Europa. As cidades voltam a ser os centros da vida e do comercio. Nestes centros o imobilismo social e intelectual que marcou o sistema feudal começa a desaparecer, comerciantes, artesões e artífices ressurgem como classes organizadas, organizações que estavam desaparecidas desde o fim do Império Romano. O conhecimento e a erudição se deslocam para fora dos mosteiros, fazendo florescer uma nova classe de eruditos fora da igreja, agora no ambiente aristocrático. Sendo conseqüência disso o nascimento das primeiras as universidades.


Neste ambiente nasce o movimento literário e poético trovadoresco que foi de imensa importância para cultura ocidental, pois se configurou como um evento inédito na Europa deste a antiguidade. Acredita-se que dois aspectos foram de fundamental importância para o surgimento este movimento: 

1 - A mobilidade promovida pelo renascimento do comercio. Essa situação econômica e de intercâmbio de comunicação incentivou os costumes, as informações e as idéias passaram a circula com mais freqüência; 

2 - A afirmação das línguas nacionais (por exemplo: o Provençal no sul ou Langue L’oc e no norte a Langue L’oil da França; o alemão; o castelhano na Espanha; o galaico-portugues)

Por volta do final do século XI e inicio do séc. XII, formas poéticas como as Chansons de gesta estavam difundidas com sucesso pela Europa, chegaram a nós alguns exemplos das Chanson de Geste como: Chanson de Roland no reino da França e os Niebelungen no Reino dos Alemães. Outros poemas já tinham inclusive adaptações em diferentes línguas como a Lenda de Tristão e Isolda. Neste período a divisão entre a música sacra e secular não era tão forte os dois gêneros se entrecruzavam com muita naturalmente. Coexistindo neste período, divididos em três categorias principais: Música sacra litúrgica (usada no oficio); Música sacra não litúrgica (canções de exaltação ou usada nas procissões) e Música Secular.   


Figura 1 Mapa político da Europa por volta do século XI e XII

A monodia estava plenamente estabelecida como também já havia passado por uma série de desenvolvimentos em termos de forma e escrita melódica e iniciava a trilha em direção à polifonia. Formas como o Conductus monódico foram amplamente difundidas e passaram a ser também utilizadas na música secular e no cancioneiro popular que nasce na Idade Média. Apesar de a música secular medieval prestigiar as línguas nacionais, seus mais antigos registros ainda são em língua latina, o repertoria chamado de Canções dos Goliardos.

Os Goliardos
Associados ao seu mítico patrono o Bispo Golias. Eles eram estudantes e clérigos de vida errante, que perambulavam pela Europa antes do nascimento das grandes universidades sedentárias. Seu estilo de vida era considerado vagabundo e mau visto por muitos, suas canções em língua latim celebravam sua vida errante e delas foram feitas inúmeras coletâneas como a Carmina Burana. Os temas tratados algumas vezes com extrema sutileza em outras não, transitavam em torno do tripé: Mulheres, vinho e sátira (dos costumes, autoridades e etc.). Com seu caráter franco e mordaz desfrutou de uma imensa popularidade no período. Contudo pouco da sua música chegou até nós de forma completa, muito do que temos hoje são reconstituições feitas a partir de varias fontes. Esta dificuldade se dá pela falta de um sistema de notação mais preciso para música dos Goliardos. Ouça: Dulce Solum


A Chanson de Geste; Jograis e os Menestréis

A Chanson de Geste era um poema do gênero épico em língua vernácula que narra feitos heroicos, As
mais antigas Chanson datam de fins do século XI e do início do século XII, muitos destes poemas ficaram famosos como: La Chanson de Roland, Le Pèlerinage de Charlemagne e Galiens li Restorés. Elas são quase 100 anos mais antigas que a poesia lírica dos trovadores e dos mais antigos romances em verso.  Elas foram uma tradição oral registrada em texto apenas num período já tardio, assim boa parte da música que acompanhava as Chansos foi perdida.

 Muitas destas Chansons eram recitas ou cantadas, e em alguns casos representadas. As pessoas que representavam as Chansons eram chamadas de Jograis ou Menestréis, eles eram uma classe de músicos e artistas que perambulavam sozinhos ou em grupos de aldeia em aldeia, castelo em castelo sendo pobremente remunerados, eram considerados páreas na sociedade medieval. Contudo com o desenvolvimento econômico dos séculos XI e XII e a estabilização da sociedade, sua condição melhorou muito. Por volta do meio do século XI, grande parte deles se fixou em cidades e passaram a se organizaram em confrarias, que deram origem a corporações de músicos profissionais, que não só regulamentavam seu trabalho, mas também concediam formação aos músicos.  É importante saber que os menestréis não eram poetas e compositores, eles cantavam, tocavam canções compostas por outros ou extraídas do domínio popular. Contudo, o engenho e sua tradição profissional foram de extrema importância para o desenvolvimento da música secular européia.

Troubadours e Trouvères

As duas palavras têm o mesmo significado: inventores. Troubadours (com o feminino, Trobairitz) em Provençal ou langue d’oc no sul da França e Trouvères em langue de d’oil (dialeto que deu origem ao francês moderno) no norte. Os dois grupos não eram grupos bem definidos, na sua maioria eram formados por membros da nobreza (aristocratas e até reis). É curioso observar que nestes círculos, mesmo as pessoas de nascimento humilde podiam ascender por meio de seu talento. Estes poetas criavam e cantavam suas cantigas ou muitas vezes contratavam menestréis para tal. Muitas das cantigas foram conservadas em coletâneas chamadas de Chansonniers. Mas não existia uma sistematização nos registros, por este motivo, atualmente temos muitas versões diferentes de uma mesma cantiga, pois elas podem variar de acordo com o escriba que as registrou ou até por causa da fonte do registro (um menestrel que aprendeu de cor e com o tempo alterou a melodia ou letra original).

Chegaram até um numero um tanto reduzido de poesias e melodias Troubadours e Trouvères:
Troubadours: 2600 poemas e 260 melodias.
Trouvères: 2130 poemas e 1420 melodias.

A temática poética dos dois grupos não era demasiado profunda, mas era imensa na variedade e o engenho em termos de forma.  Havia principalmente duas categorias de composição: as baladas e as baladas dramáticas estas necessitavam de mais de um interprete e provavelmente eram representadas. O gênero mais cultivado das baladas dramáticas foi a Pastourelle, seu texto sempre apresenta o mesmo enredo: uma jovem pastora encontra o cavaleiro que a corteja, ela resiste, mas ceder ou pede socorro, neste momento surgi o irmão ou namorado da pastora que põem o cavaleiro para corre, não sem que antes haja um combate.

Para os Troubadours o tema mais freqüente era o amor com conotações tanto carnais e sensuais quando místicas e idealizadas, também existiam cantigas que abordavam temas morais e políticos, algumas eram inclusive debates sobre temas do cotidiano, já outras traziam temas amenos como as cantigas de amor cortês. Já os Trouvéres em sua maioria cultivaram um estilo de cantiga com temas religiosos, utilizando muitas formulas da musica secular para exaltar figuras religiosas, isso é possível constata nas cantigas de louvor a Virgem Maria, que apresenta recursos usados na poesia de amor cortês.

Amor Cortês foi uma expressão do pensamento medieval que contemplava: atitudes, mitos e etiqueta para amour courtois ("amor cortês"), foi cunhada por Gaston Paris em um artigo escrito em 1883, "Études sur les romans de la Table Ronde: Lancelot du Lac, II: Le conte de la charrette", um tratado da analise do Lancelote, o Cavaleiro da Carreta (1177) de Chrétien de Troyes. O amour courtois era uma disciplina nobre e idealizadora: O amante (idealizador) aceita a independência de sua senhora e tenta fazer de si próprio merecedor dela, agindo de forma corajosa e honrada (nobre) e fazendo quaisquer feitos que ela deseje. Mas o amor não é totalmente platônico, já que se baseia numa atração sexual.
exaltar o amor. Ela deu origem a vários gêneros da literatura medieval. A expressão

Em termos musicais o tratamento dado as melodias pelos Troubadours e Trouvères era silábica, ou seja, uma nota por silaba, com um pequeno melisma normalmente na penúltima silaba dos versos. Esta regra não impedia que os cantores incluíssem ornamentações durante o canto para que houvesse variedade e contraste entre as melodias, muitas vezes havia uma rápida improvisação entre cada estrofe da cantiga. Existe uma incerteza em relação à métrica e o ritmo das melodias, alguns especialistas acreditam que as notas longas e curtas eram definidas em correspondências as sílabas acentuadas e não acentuadas das palavras.  As melodias não passavam do âmbito de uma sexta e raramente de uma oitava. As cantigas do Trouvères eram relativamente curtas (entre três e cinco compassos numa transcrição moderna em compasso ternário). Suas melodias eram simples e fáceis de decorar, seu ritmo livre, é curioso observar estas cantigas muita afinidade com as canções do folclore francês. Recursos como repetição, variação e contraste são largamente usados para da forma conferindo interesse variedade às melodias das cantigas. Muitas das cantigas do Trouvères apresentam um refrão, que são versos ou pares de versos que são repetidos após cada estrofe cantada, o refrão quando repetido implica da repetição de sua melodia ao longo da cantiga. O refrão como estrutura é importante para o desenvolvimento da forma nas músicas com caráter de dança, pois, acredita-se que este processo possa ter dando origem as cantigas de dança, onde o coro de dançarinos cantava o refrão.
Os Minnesinger e os Meistersinger

Os Troubadours franceses foram o modelo para nobres poetas-compositores alemães, os Minnisinger. Suas canções as minnelieder (minne = amor; lieder = canção) tinham representações mais abstratas do amor que aquelas dos Troubodours, por outro lado outras muitas tinham caráter religioso. Por este motivo as cantigas tinham um estilo mais sóbrio, outro aspecto que indica isso é uso dos modos e modelos rítmicos da música litúrgica em suas melodias, os ritmos obedeciam ao ritmo dos textos (a maior parte das cantigas era em ritmo ternário). Em termos de forma as canções eram estróficas com uma estrutura rígida onde a repetição das frases melódica era cuidadosamente observada.           
Alguns gêneros foram amplamente cultivados dentro do repertorio dos minnesinger como as cantigas de alvorada ou de vigília, onde a personagem principal é o amigo que fica de sentinela, protegendo e alertando os amantes da chegada da alvorada. Tanto na Alemanha como na França foram também escritas muitas cantigas de devoção religiosa inspiradas nas cruzadas. Como as de Walther von der Vogelweide que escreveu, entre outras, Palästinalied (Canção da Palestina) quando seu protetor, Frederico II, partiu para a cruzada. Minnesänger : Walther von der Vogelweide - Under der linden
Palästinalied

A partir do século XIII na França a arte de criação dos Troubadours e Trouvères passou a ser cultivada também pelos primeiros burgueses (neste contexto o termo burguês se aplica para representar os profissionais liberais que viviam nas cidades onde havia centros de comercio, ou burgos). Como reflexo disso, surgiu na Alemanha a classe dos Meistersingers, os sucessores dos Minnesingers a partir do século XIII. Eles se organizaram em corporações em varias cidades alemãs, sendo a mais famosa delas a de Nuremberg (retratada na ópera de Wagner Der Meistersinger Von Nuremberg, 700 anos depois), esta corporação foi tão forte que se dissolveu apenas no século XIX. A música dos Meistersingers tinha regras rígidas de composição que apesar de produzir obras primas nos dar a impressão de serem menos expressiva que dos minnesingers.

Em outros países da Europa também ocorreram movimentos paralelos aos da França dos Troubadours e Trouvères, gerando obras importantes como as Cantigas de Santa Maria de Alfonso X, O sábio, na Espanha. Também formas importantes como as cantigas de amigo, que tem suas origens na Península IbéricaCantigas de Santa Maria - Porque trobar - Prologo


A Música Instrumental
As danças Medievais eram acompanhadas inicialmente pelas cantigas, com o tempo começou a se utilizar dentro das cantigas trechos instrumentais (que repetiam a idéias das clausula dos duplum polifônicos que veremos na próxima apostila) ou versões instrumentais das melodias. A partir do século XIII e XIV começa a se destacar uma forma de música instrumental de dança na Inglaterra e no continente, a estampida (estampie na França e instampite na Itália). As estampidas são os mais antigos exemplos de música instrumental medieval que temos registro. A música instrumental servia apenas para dança, não havia outra aplicação a para ela, a música instrumental só ira se desvincular totalmente da dança no séc. XVII, já no período Barroco.   


O estampie consiste de quatro a sete seções, chamadas punctum, onde cada uma que se repete, veja a formula:
aa, bb, cc, etc.
Há também as chamadas terminações que eram espécies de cadências que tinham duas categorias em duas diferentes: Ouvert [X] (aberto) e Clos [Y] (fechado) elas eram usadas após a declamação da primeira e da segunda estrofe respectivamente. Aqui as estrofes eram chamadas de punctum, deste modo a estrutura pode ser:
a + x, a + y, b + x, B + y, etc.
Às vezes, as mesmas duas terminações são usadas para todos os punctum da estrutura:
A + X, a + y; b + x, b + y, c + X, C + y, etc.

Uma estrutura semelhante foi usada em formas de dança medieval como o saltarello.


O mais antigo exemplo conhecido desta forma musical é a canção "Kalenda Maya", supostamente escrita pelo trovador Raimbaut de Vaqueiras (1180-1207). Todos os outros exemplo conhecidos são puramente instrumentais. Exemplos do século XIV incluem estampies dentro de dramatizações de lendas como Lamento di Tristano, Manfredina, Isabella, Tre Fontane. Embora o estampie seja geralmente monofônica, há exemplo de composições para duas vozes.Kalenda Maya

Instrumentos Medievais
Os instrumentos encontrados na Europa medieval tinham varias origens, alguns como a harpa era uma adaptação da lira romana. Outras tinham sua origem fora da Europa como o alaúde que é árabe. Segue uma rápida lista de instrumentos medievais:
Vielle ou Fiedel instrumento de cordas friccionada, muito comum entre os jograis e menestréis, foi o protótipo da viola renascentista e do violino, e talvez de nossa rabeca, era usado para acompanhar a recitação ou canto.
 
Iconografias de alguns instrumentos musicais medievais  
Saltério era uma espécie de citara que tinhas as cordas percutidas com bicos-de-pena.
Alaúde instrumento de cordas trazido pelos árabes a península ibérica pelos árabes.
Flautas de vários tipos retas ou transversais.
Charamela instrumento de sopro da família do oboé.
Trombetas de uso exclusivos dos nobres.
Gaita de fole instrumento popular universa na Europa.
Vários tipos de tambores usados a partir do século XII nas músicas para dança.
Carrilhão: conjunto de sinos graduados, para ser tocado com martelos de metal.
Cítola ou cistre: instrumento de 4 cordas de arame
Harpa: menor em tamanho que a harpa moderna.
Rebec: instrumento em forma de pêra, com 3 cordas para serem friccionadas por um arco.
Viela de roda: instrumento no qual uma roda movida a manivela fazia as cordas vibrarem, e um teclado em conexão com as cordas melódicas respondia pela diferenciação dos sons.


Lista de alguns importantes Troubadours; Trobairitz e Trouvères:
Bernart de Ventadorn (1130-1180)
Folquet de Marselha (1180-1231)
Gautier De Coincy (1167-1236)
Thibaut De Champagne (1201-1253)
Beatriz condessa de Diá (1190 – 1210)
Adam De La Halle (1240-1287)

Lista de alguns importantes Minnesinger e Meistersinger:
Neidhart Von Reuental (1180-1237)
Tannhaüser (1205-1270)
Walther Von Der Vogelweide (1170-1230)

Península Ibérica:
Alfonso X, O Sábio (1221-1284)

Algumas Fontes Importantes:


Cangé Chansonnier
Cappella Giulia Chansonnier
Chansonnier Cordiforme
Chansonnier du Roi (also Occitan)
Chansonnier Nivelle de la Chaussée
Copenhagen Chansonnier
Dijon Chansonnier
Florentine Chansonnier
Mellon Chansonnier
Seville Chansonnier
Wolfenbüttel Chansonnier
Pergaminho Sharrer (fragment)


 Leitura complementar:

Adam de la Halle (Arras, c. 1237 - Paris, França, entre 1285 e 1288) foi um trovador francês também conhecido como Adam, O Corcunda. É considerado um dos principais percussores da comédia francesa. Mudou-se para Paris, onde aperfeiçoou seu talento em apresentações para a corte francesa. Chegou a acompanhar o rei Carlos I em visitas à Sicília e a Nápoles. Sua obra diferenciou-se em sua época, pois normalmente todas eram fundamentadas no contexto religioso.

Ele escreveu também dezenas de poemas e composições musicais monódica e  numa polifonia primitiva. Entre suas peças para teatro mais conhecidas estão A História de Griseldis, considerada precursora das peças sérias sem a temática religiosa da época, e o Jeu de Robin e Marion, comédia pastoral musicada que é tida como uma das primeiras obras dramáticas francesas, representada por volta de 1285 para corte. Foi também o primeiro músico francês a viajar para a Itália, algo extremante difícil na época. Em sua obra ele cultivou estilos musicais e poéticos como: Rondeaux, motetos e jeux-partis.

Adam estudou gramática, teologia e música na abadia cisterciense de Vaucelles, perto de Cambrai. O pai de Adam o tinha destinado a igreja, mas ele renunciou a essa intenção, e se casou com Maria (que figura em muitas de suas canções). Depois ele se vinculou a família de Robert II, conde de Artois, e, em seguida, foi passou viver sub a proteção de Carlos de Anjou, irmão de Charles IX, cujas aventuras levaram o poeta a segui-lo ao Egito, Síria, Palestina e Itália.

Jeu de Robin et Marion é supostamente o Jeu secular mais antigo com a música encontrado em língua francesa, e é a obra mais famosa de Adam de la Halle.  Adam escreveu o Jeu de Robin et Marion para o corte de Charles I de Nápoles. Ele foi para Nápoles ao serviço de Robert II de Artois. Le Jeu de Robin et Marion (extractos, parte 1)

A história é uma dramatização de um gênero tradicional da canção francesa medieval, o pastourelle. Este gênero normalmente fala de um encontro entre um cavaleiro e uma pastora, freqüentemente chamado Marion. Versão Adam de la Halle da história coloca uma maior ênfase nas atividades de Marion, seu amante Robin e seus amigos depois que ela resiste ao avanço do cavaleiro.


O Jeu é constituído de um diálogo no dialeto Picardian falando na cidade natal de Adam, Arras, os diálogos são intercalados por refrões curtos ou canções em um estilo que pode ser considerado popular. As melodias são têm o caráter de música popular, pois parecem mais espontâneos do que das canções mais elaboradas do autor. 


História da música ocidental - Donald Jay Grout, Claude V. Palisca
Uma Breve História da Música - Roy Bennett
Masterpeices of music before 1750 - Carl Parrish
Music: The Definitive Visual History - Ian Blenkinsop
A Concise History of Western Music - Paul Griffiths
Harvard Dictionary of Music - Willi Apel


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PS: Foda-se abnt

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