domingo, 16 de fevereiro de 2025

Introdução à algumas culturas musicais histórica do leste da Ásia: China, Índia, Japão, Indonésia.

Elaborei esse material para sala de aula do atual nono ano e ensino médio. Por essa razão, não é um estudo aprofundado. Contudo, pode ser útil como ponto de partida para a apreciação e apresentação dessas milenares e sofisticadas culturas musicais. A segunda parte deste tópico trata das escalas mais comuns usadas nas culturas musicais presentes nessa postagem (LINK)


Música na cultura Chinesa


A tradição musical chinesa é uma das mais antigas. Existem registros e textos sobre a música chinesa que datam da dinastia Zhou (1122 A.C – 256 A.C).  Nesse período já existia um conjunto de leis que regulavam a atividade musical. Sua evolução teve influência das doutrinas religiosas, políticas, filosóficas e ideológicas.

O Gongche é o sistema de notação mais antigo que se tem registro. 


Pipa (琵琶; pinyin: pípá) é um instrumento em forma de pêra com cerca de 2 mil anos. É dedilhado como um alaúde. Ele é um instrumento leve e extremamente ágil. Seu repertório é vasto, vai desde canções tradicionais a composições virtuosísticas. Esse instrumento é um símbolo da cultura na China, lá existem cursos superiores em música especializados no ensino desse instrumento. Atualmente a instrumentista Liu Fang é a grande virtuose do instrumento.




O Erhu (二胡; pinyin: èrhú) é um instrumento de arco com apenas duas cordas (uma grave e grossa e outra aguda e fina) e é tocado de forma parecida com a do violoncelo. O músico toca sentado, utilizando um arco na mão direita. O curioso é que o arco fica entre as duas cordas, por trás corda grave e pela frente corda aguda. A mão esquerda muda as notas nas cordas. Sua sonoridade está entre um violino e um violoncelo.

Os instrumentos da orquestra tradicional chinesa são classificados segundo os materiais que os compõem:

Seda: instrumentos de corda;

Bambu: Sopros e flautas;

Madeira: percussões e xilofones;

Pedra: sinos e carrilhões;

Metal: sinos, gongos, címbalos;

Barro: ocarinas;

Cabaça: órgãos de sopro;

Couro: tambores.

A Ópera Chinesa

A ópera chinesa é um espetáculo que mistura canto, danças, teatro, performances circenses com cenários elaborados e figurinos deslumbrantes.

Diferente do que entendemos como ópera no ocidente, onde a música está vinculada a um texto fixo, o libreto. Na ópera chinesa os textos podem se modificar, contudo eles têm de se adequar aos qupai, que são melodias fixas preexistentes e aos changqiang que são formas de recitação faladas/cantadas. Claro que com o tempo foram surgindo novas melodias. As melodias da ópera chinesa tem origem na música Qin (Qinqiang), a história desse estilo de música remonta à dinastia Qin que unificou a China por volta de 210 a.C.


As tramas giram em torno de lendas e mitos do folclore, cenas históricas e passagem da literatura chinesa.

Esse tipo de espetáculo floresceu a partir de um estilo chamado de Kunqu. A principal obra desse estilo é O pavilhão de peônias de Tang Xianzu (1550-1616).

O estilo e a representação podem parecer estranhos para quem não tem familiaridade com essas obras. Os recursos sonoros e musicais são utilizados de forma a moldar o ambiente psicológico das cenas. Daí muitas vezes canto se apresentar agudo em falsete e a instrumentação às vezes ruidosa para expressar os ânimos delicados ou ferozes da encenação.

Outra curiosidade é que em alguns casos elencos masculinos tenham papéis femininos, assim como como elencos exclusivamente femininos apresentam papéis masculinos.

A ópera chinesa foi trazida ao ocidente (principalmente para os EUA) nos últimos anos do século XIX, pelos chineses que migraram para trabalhar nas construções de estrada de ferro na américa do norte. Contudo, era considerado uma espécie de versão do espetáculo de variedades tão popular na época, o reconhecimento com uma arte sofística que é, viria do artista Mei Lanfang que excursionou pela Europa nos anos 30.








Música na cultura Indiana

A tradição musical indiana é passada de geração em geração há mais de 3000 anos. Sua complexidade e beleza impressionam músicos do mundo todo. Acredita-se que as primeiras composições fixas da música do subcontinente indiano são os Vedas (hinos sacros hindus) compostos por volta dos anos 1500 -1200 antes da era comum.

Na Índia, a música é tida como uma dádiva de Sarasvati Deusa hindu das artes, sabedoria e música. Ela é sempre representada tocando um instrumento de cordas (Sitar ou Tambura).


Existem duas tradições na música indiana:

Hindustâni (Norte da Índia) tem formas livres e é baseada na improvisação sobre melodias (ragas). Os instrumentos tradicionais são a sitar e a tabla.

Carnática (Sul da Índia) tem formas rígidas. Também temos a improvisação sobre os ragas. Mas as variações mais marcantes estão nos modelos rítmicos ou talas

Sistema teórico musical mais antigo ainda vem uso é o indiano. Vamos conhecer alguns se seus detalhes.

Raga é a espinha dorsal da Música Clássica Indiana. Ele é uma forma melódica científica, precisa, sutil e estética. A melodia nela movimenta-se de forma ascendentes e descendentes. Dentro de oitavas ou séries de cinco ou seis notas.

Cada Raga é associada a um sentimento, horário particular do dia ou a uma estação do ano.

Temos 3 tipos de Ragas: Shuddha Raag;  Chhayalag Raag; Sankeerna Raag.

 Tala é um modelo de ritmo. O ritmo na música indiana funciona como ciclos de repetição com um número de batimentos por segundo e que são agrupados de modo particular.

Outra diferença da música indiana é que as unidades rítmicas não são divididas ou multiplicadas como no ocidente. Na música indiana as unidades de tempo são somadas.

Exemplos de Talas comumente usados:

Kehrva         (8 tempos) 4 tempos + 4

Teen Taal    (16 tempos) 4+4+4+4    Jhaptaal       (10 tempos) 2+4+2+4

Dadra'          (6 tempos) 3+3     Roopak         (7 tempos) 3+2+2

Instrumentos tradicionais


Sitar é o instrumento símbolo da música da Índia. Seu som é metálico e glissandos. É um instrumento de cordas dedilhadas com trastes móveis. Tem em geral dezoito cordas, subdivididas em três categorias: as cordas de execução, as cordas de bordão (notas graves que soam), e as cordas simpáticas (que vibram de acordo com a nota tocada nas cordas de execução).

A Tabla é o instrumento de percussão, ele surgiu no século XVIII. Atualmente é o instrumento de percussão mais popular na Índia. Ele é mais comum na tradição Hindustâni e também no Paquistão e em Bangladesh.
 

Tambura é um instrumento de cordas dedilhadas e braço sem trastes, que costuma acompanhar a música vocal, O instrumento sustenta uma nota pedal sobre a "tonalidade" nas pausas do discursos melodicos das peças musicais.

Pandit Ravi Shankar foi o compositor e músico indiano de maior fama no século XX. Ficou conhecido em todo o mundo na década de 1960 quando chamou a atenção dos Beatles. Falecimento: 11/12/2012. Seus filhos Anoushka Shankar, Norah Jones, Shubhendra Shankar continuam seu legado musical.







Música na cultura Japonesa

A palavra para música em japonês é 音楽 (ongaku), combinando o kanji 音 "on" (som) com o kanji 楽 "gaku" (divertimento).

A música no Japão é uma das mais tradicionais e cerimoniais expressões culturais, ela tem uma grande variedade de estilos distintos tanto tradicionais quanto folclóricos.

Existem duas formas principais na música tradicional japonesa: O shōmyō (声明 ou 聲明), ou cânticos budistas, música religiosa. E o gagaku     (雅楽) é um tipo de música clássica orquestrada da corte imperial desde o período Heian (de 794 a 1185). O gagaku é dividido em kangen (管弦) (música instrumental) e bugaku (舞楽) (música para balé acompanhada por gagaku).

O tradicional teatro Nô é uma das expressões mais importantes da cultura japonesa, ele conjuga música, drama, dança e poesia num ritmo lento e reflexivo. Suas narrativas incluem histórias sobre deuses, seres sobrenaturais, belas mulheres e guerreiros. Os atores costumam usar máscaras para representar seus personagens. 

A música no teatro nô é conduzida pelo jiutai (ou coro) composto por, normalmente, oito musicos sentados que através canticos melodicos ou recitativos narram a trama. Outro gênero do teatro tradicional é o Kyogen que junto ao teatro Nô como interlúdio (cômico ou sério) dos atos da peça principal. Ele tem como caracterista incluir mais dialogos que o nô e seus atores raramento usam máscaras. A música vocal e instrumental do teatro tradicional japonês é normalmente acompanhada por instrumentos como o Shamisen.

Instrumentos



Shamisen. que é uma espécie de alaúde com três cordas que podem ser tocadas dedilhadas ou atacadas com uma espécie espátula utilizada como uma palheta.  

O Koto é o instrumento símbolo do Japão. Ele é um instrumento de cordas tangidas. Sua origem está ligada a um instrumento chinês conhecido como guzheng. O maior músico de koto foi Yatsuhashi Kengyo (1614-1685). Ele criou a música para esse instrumento, também ajudou a desenvolver uma notação especial para o ele.



O Shakuhachi é uma flauta de bambu que surgiu no século XIX. A sua forma peculiar de como é tocada influência sua sonoridade única. Ela usa uma escala pentatônica (Ré, Fá, Sol, Lá, Dó, Ré), mas é possível executar outras notas apenas mudando a embocadura. Sua técnica de execução é complexa e única.



O Biwa é um instrumento da família da Pipa chinesa. Diz o mito que o biwa foi o instrumento escolhido da Deusa Benten (Deusa da música, da eloquência, poesia, e de educação) no xintoísmo japonês. Seu uso mais comum é no gênero gagaku. O Biwa é tocando com uma palheta em forma de espátula. 



O Taiko é uma estilo de música totalmente percussiva originária do Japão. Ele engloba uma grande números de tambores de tamanhos variados e instrumentos de percussão diversos.


Sua origem mitológica é descrita no conjunto de crônicas Nihon Shoki. No mito, o taiko se originou da deusa xintoísta Ame no Uzume, a deusa do raio de sol, Amaterasu, e seu irmão Susanoo, o deus dos mares e das tempestades. A origem exata do taiko é incerta, embora haja muitas sugestões.

Não se tem certeza da origem do Taiko, alguns registos remontam o ano de 558 d.C. afirmam que jovens homens japoneses iam à Coreia estudar a execução de um tambor chamado kakko original do sul da China.

As performances do Taikos são sempre em grupo e são impressionantes por sua precisão, seus ritmos e força expressiva. No Brasil, temos o Festival Brasileiro de Taiko que é organizado pela Associação Brasileira de Taiko (ABT) com mais de 150 grupos. O que mostra a imensa presença da imigração nipônica e sua cultura no país.




Música do Gamelão



O gamelão é uma orquestra de música tradicional da Indonésia, composta por instrumentos percussivos. Presente na cultura dos povos balineses, javaneses e sudaneses. Diz a lenda que o primeiro grupo de gamelão foi formado por volta do ano 230 da era comum pelo Guru Sang Hyang. A música do Gamelão está muito ligadas a preceitos do budismo e hinduísmo. Dentro das crenças edo folclore o objetivo dessa música é convocar os deuses com o toque dos gongos. Existem dois tipos de orquestra de gamelão, o de Bali (a mais conhecida) e o de Java. A música de gamelão faz parte essencial da cultura indonésia.

Metalofones, xilofones, tambores (kendang) e gongos. Algumas vezes são incluídos flautas de bambu e instrumentos de cordas percutidas ou arco.

As orquestras muitas vezes acompanham apresentações de danças sacras Bedhaya ou apresentações do wayang kulit, que é o teatro de fantoches tradicional de Java.


Bedhaya



A música do gamelão é uma tradição oral, ou seja, não há notação musical. As melodias usam basicamente duas escalas, uma de sete notas chamada pelog e outra de cinco, chamada slendro. A unidade métrica básica da música de gamelão se chama gatra. Cada gatra tem 4 batidas. As gatras são organizadas dentro do balungan (compasso).

A música do gamelão funciona por meio de ostinatos, ou seja, repetição contínua de uma frase musical. Assim os músicos têm de ser bem entrosados, pois todos devem tocar suas melodias juntos, essa característica é chamada de kotèkan.

Bebranangan é a melodia da música de gamelão. Ela tem três partes com duas notas em cada. As partes têm ritmos variados e são tocadas por grupos diferentes da orquestra simultaneamente. O kotèkan teve de estar em dia!!!

A orquestra de gamelão tem uma sonoridade própria de timbres diversos e inusitados. Um composição apresenta vários grupos de instrumentos:

Os metalofones: são instrumentos com barras de metal sobre estruturas de madeira. Tocados com baquetas. Outro instrumento do gênero é o gambang.

Os tambores chamados de Kendhang se apresentam em três ou quatro tamanhos diferentes.

Os metalofones saron: são instrumentos com barras de metal sobre estruturas arredondadas. Tocados com baquetas. Outro instrumento do gênero é o slenthem.

Os bonang: são gongos de metal e são organizados como um carrilhão. Nesse mesmo grupo estão o kenongkempyang e o kethuk.

Também temos o gongo ageng que tem proporções maiores que estão suspensos em cordas amarradas em traves. Temos também o kempul e o siyem.

Em alguns casos especiais encontramos instrumentos de cordas como rebab (instrumento de arco) e o celempung (uma espécie de harpa), e flautas de bambu como a suling.



Referencias:

Musical Scales Of The World - Michael Hewitt

New Oxford History of Music Vol. 1 - Ancient and Oriental Music

Music - Definitive Visual History 



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