Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior
Embora em muitos aspectos a música da igreja primitiva seja aparentada
com a música da tradição grega (homofônica ou heterofônica; sempre associada a
um texto poético ou religioso) não podemos dizer que existe um laço de
continuidade entre elas. Em sentido estrito, a música do ocidente tem inicio
com a Igreja Cristã primitiva e medieval, ou seja, aquele período que
compreende dos dois séculos iniciais da era cristã até a tomada de
Constantinopla pelos Otomanos (1453).
Ao contrario de outras artes como a literatura, arquitetura e escultura
que tanto foram influenciadas pelos modelos dos períodos clássicos da cultura
grega e romana, os músicos da Idade Média seque conheciam qualquer exemplo da
música da época de apogeu destas culturas. Contudo, os textos filosóficos e
teóricos dos gregos foram conservados e suscitaram o interesse dos estudiosos e
teóricos medievais. Além disso, muitas das ideias sobre música dos gregos ainda
hoje são amplamente discutidas.
É
importante lembrar que atualmente – por mais curioso que possa parecer – temos
uma idéia muito mais clara de como era a música grega e romana que no passado.
Pois graças aos estudos de verdadeiros arqueólogos musicais temos acesso às reproduções
de obras sobreviventes destas culturas. Mas apesar do acesso que temos hoje a
documentos (filosóficos e teóricos), representações
visuais de músicos e seus instrumentos, da música em si nos restam apenas alguns
de fragmentos de textos com notação, dos quais a reconstrução ainda causa
imensa controvérsia entre os especialistas.
A música para os gregos
Podemos dividir a compreensão dos gregos acerca da música em dois
períodos distintos, no primeiro a música tinha sua origem divina, ligada a
divindades como Apolo e Dionísio.
Sendo que o primeiro representava os aspectos sagrados e divinos. Já o
segundo aos aspectos sensuais e orgásticos da música. Apolo regia as Musas, que
na mitologia grega eram as nove irmãs que presidiam todas as Artes e Ciências
(tendo Euterpe como patrona da Música). A música era considerada como um elemento
constante na vida e nas suas varias atividades: religiosas, cívicas ou
privadas.
Nos períodos mais primitivo da cultura grega (Arcaico, Pré-Homérico e
Homérico), a música era vista como detentora de poderes misteriosos capazes de
influenciar a personalidade e os costumes, curar enfermidades e até evocar
poderes naturais e sobrenaturais.
Os cultos a Apolo e Dionísio dividiam os usos
da música no âmbito religioso, enquanto no culto a Apolo a música era utilizada
na consagração dos poderes sobrenaturais do deus solar, como por exemplo, nos
Jogos Olímpicos e Pítios. Já no culto a Dionísio, ela prestava-se muitas vezes
aos ritos orgásticos das deusas da fertilidade e do amor cultuadas na Grécia e
Ásia menor.

Figura 1 Lira instrumento da música de Apolo e o Aulos da música de Dionísio
Nos períodos posteriores (a partir do período Clássico), a música passou
a ser vista pelos pensadores gregos como instrumento de descoberta dos segredos
cósmicos e também de formação moral do homem. Para muitos filósofos a música
era um instrumento da busca da beleza e verdade.
Vejamos alguns exemplos:
Pitágoras e seus seguidores acreditavam que a “chave” para os mistérios
do mundo físico e metafísico eram os números e a música. Nesse contexto a música
era vista como o instrumento capaz de demonstrar esta afirmativa.
Claudio Ptolomeu acreditava que os movimentos dos corpos celestes eram
regidos por um sistema baseado nos intervalos das escalas musicais, quando este
movimento ocorria gerava uma música inaudível ao homem, mas que matinha a
harmonia nos movimentos do universo. Mas tarde esta idéia foi eternizada por
Platão no mito da “Música Das Esferas”.
Platão e Aristóteles desenvolveram toda uma doutrina para formação moral
e cívica tendo a música e a ginástica como elementos principais, a chamada
doutrina do Ethos.
Doutrina do Ethos
Como já dissermos anteriormente a maior herança da musical da civilização
grega para a Idade Média e o Renascimento foi o pensamento filosófico voltado a
Música. Talvez o mais influente sistema filosófico neste sentido tenha sido a
doutrina do Ethos.
Na antiga Grécia dentre todas as artes, a música era a mais relevante. Para
os gregos a música tinha o poder de influenciar as qualidades da moral do homem
e do estado.
A música foi um dos principais interesses da política do estado grego. A
formação musical era um requisito básico na educação de qualquer cidadão. A música
caberia o papel de formadora da conduta moral, social e política de cada
indivíduo dentro estado.
A música dentro da doutrina do Ethos
não era um elemento passivo da cultura, os gregos acreditavam (principalmente
Aristóteles) que a música é capaz de representar os estados da alma (brandura,
raiva, paixão, coragem, alegria, temperança e seus opostos). Acreditava-se que
quando escutássemos um trecho musical com uma destas representações, nós
seriamos afetados pelo estado representado na melodia, desta forma, depois de
certo tempo expostos a estas qualidades elas passariam a fazer parte de nossa
personalidade.
Em contrapartida, se fossemos expostos a música que suscitasse
sentimentos negativos estes também se tornaria parte de nossa personalidade.
Esse conceito era tão intrínseco na sociedade grega que havia um ditado
famoso: “deixai-me fazer as canções de uma nação, que pouco me importa quem faz
suas leis”, esta máxima também é um trocadilho, pois em grego a palavra nomos que designa “lei” ou “costume”
também era usada para representar esquemas melódicos usados nas canções líricas
e para solos instrumentais.
Estas questões foram tratadas por
Platão e Aristóteles, principalmente na República (380 A.C.) e na Política (330 A.C.) respectivamente. Os
dois concordavam com o fato de que se a educação musical e física fossem estimuladas
de maneira equilibrada, poderiam estruturar o indivíduo e sua conduta moral e
emocional de forma suficiente para vida em sociedade. Já o exagero de uma
pratica em detrimento da outra poderia ser nociva para a capacidade do
individuo viver em sociedade.
Em nossa visão moderna tal preocupação pode parecer exagerada ou
autoritária, quase primitiva. Mas é importante lembrar que esta preocupação é
evidente em varias sociedades e regimes políticos ao longo dos séculos. No
século XX regimes políticos e religiosos têm imensa preocupação com a música
vinculada e atualmente vários educadores demonstram preocupação com o tipo de
música vinculada à juventude. Infelizmente não chegaram até nós vestígios desta
música educativa vinculada aos gregos.
Assim a herança do pensamento grego acerca da música ainda vive entre
nós, pois sendo ele é fundamental para vida humana, como a própria música e
será sempre retomado e discutindo enquanto somos civilização.
Obras sobreviventes
Atualmente sobrevivem poucos fragmentos da Grécia antiga. A duas mais
famosas são Epitáfio de Seikilos
datado dos séculos I a.C. e poucos trechos da tragédia Orestes de Eurípides do século V a.C. Apesar de aparentemente
simples, a forma pela quais os gregos faziam sua notação musical não é
plenamente conhecida, e grande parte da reconstituição destas obras é
conjetural.
Figura 2 dois fragmentos de papiro com música notada
O Epitáfio de Seikilos é o
mais antigo exemplo de uma composição musical com notação musical e letra no
ocidente. A melodia foi encontrada gravada em uma lápide perto de Aidin na
Turquia (próximo a Éfeso) datada do século I d.C..
Nele é informado a autoria
na música, creditada a Seikilos (Ele também poderia ser o mecenas que
encomendou a composição). Ao que parece a canção foi composta em homenagem a
esposa de Seikilos, provavelmente enterrada no local. Além da composição, foram
encontradas estas inscrições:
Eu sou um túmulo, um ícone.
Seikilos me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal.
Na figura abaixo uma reprodução do texto gravado na lápide com o
alfabeto grego moderno, há uma linha acima com letras e sinais que indicam as
notas:
Ilustração 1
texto gravado no Epitáfio de Seikilos
Abaixo temos uma transcrição para notação contemporânea:
Ilustração 2 transcrição
A melodia está escrita num modo
dentro de uma oitava que vai de Mi (3) - MI (4), Muito próximo ao modo de
Dórico contemporâneo.
A seguir uma transliteração das palavras cantadas na melodia e uma
tradução para o português:
Hoson zes, phainou - Enquanto viveres, brilha
Meden holos su lupou - Não sofras nenhum mal
Pros oligon esti to zen - A vida é curta
To telos ho chronos apaitei - E o tempo cobra suas dívidas
Acreditasse que a lápide foi gravada entre 200 a.C. e cerca de 100 d.C.
Embora existam exemplos mais antigos de notação musical, todos eles são apenas
fragmentos. O Epitáfio de Seikilos é
único por ser uma partitura completa de uma composição. Há exemplos ainda mais
antigos no oriente de composições notadas. Por exemplo, o Hino para a entrada do Imperador, originário da China é datado para
aproximadamente 1000 a.C.
Era cristã
Apesar de sabermos que os primeiros cristãos absolveram muitos aspectos
das culturas do Oriente Próximo (judaica e árabe) e do mundo Helênico-Romano, é
necessário entender porque não houve uma continuação entre a música da
antiguidade ocidental e a música do ocidente cristão.
Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do moribundo Império
Romano, as autoridades trataram imediatamente em separar a nova cultura oficial
daquela ligada ao passado pagão. Muitos dos aspectos da vida social e privada
foram radicalmente alterados, as antigas iconografias dos deuses pagãos foram
substituídas por imagens de Cristo; os templos foram convertidos em igrejas; praticamente
toda a música e instrumentos utilizados em rituais religiosos pagãos ou desapareceu,
foram adaptados ou caíram em desuso.
Mais tarde com a canonização de outras regiões da Europa, como o norte e
as ilhas britânicas e a Irlanda, a música primitiva destes povos também desapareceu
por completo, por motivos variados, deste o simples desuso e a falta de um
sistema de notação para registro, até a proibição destas manifestações musicais
imposta por parte das autoridades eclesiásticas.
É necessário se ter em mente que este tipo de proibição não foi uma
novidade, deste a antiguidade os povos dominadores tinham como hábito suprimir
ou absolver a cultura dominada.
A música na antiguidade (como ainda hoje!) era vista um instrumento
determinante para propagação de idéias, desta forma, a ascendente igreja cristã
observava sua música com muita atenção. Um notável exemplo é a obra Da Música de Santo Agustinho. Nela o
autor, inspirado no pensamento grego de Platão e Aristóteles trata de conceitos
de como devem ser as melodias e seus aspectos éticos e vocacionais.
Muito do desenvolvimento da linguagem musical do ocidente esta ligada a
música litúrgica, por dois motivos básicos: ela foi extensamente divulgada na
Europa pré-medieval e desta maneira suas formas e linguagem melódicas
tornaram-se modelos para música secular. Assim, muito da música que hoje é
rotulada como música "ancestral" ou "pagã" europeia tem suas raízes no período medieval
com forte influência da música cristã da antiguidade.
O Cantochão
Cantochão “inaugura” a música do ocidente, apesar de sua teoria ser
pautada sobre os manuscritos da época clássica da civilização greco-romana, ou
até mesmo fontes anteriores (salmos do Antigo Testamento). Em termos práticos o
cantochão pouca relação musical com a música destas culturas.
O cantochão é a música mais antiga ainda em uso, ela
representa um dos grandes e mais ricos tesouros da cultura ocidental.
Na prática o cantochão é:
Monofônica e originalmente desacompanhado. Muitas
vezes temos referencias a coros, que na verdade cantam as melodias e uníssono
ou em oitava (quando há jovem entre os coristas).
As melodias normalmente são era cantadas por graus
conjuntos, ou seja, quase sem saltos, dentro de um âmbito não ultrapassa uma
oitava e o ritmo é baseado na acentuação tônica da língua latina.
Um aspecto curioso do Cantochão primitivo é que as
melodias eram todas anônimas, não se costumava identificar seus autores, algo
que só passou a acontecer por volta do séc. VII e VIII.
Isso se deve a máxima teológica afirma que se todos
são iguais aos olhos do criador, desta forma suas obras também o eram. Dessa
forma, não havia motivo para destacar um autor, por outro lado, em termos práticos
os cantos eram todos pertencentes a igreja e seu serviço.
O cantochão pode ser dividido quanto ao texto, forma e estilo.
Quanto ao texto
Textos bíblicos
Textos em prosa (as lições do Ofício Divino, as epístolas e o Evangelho
da missa).
Textos poéticos (os Salmos e os Cânticos).
Textos não bíblicos
Textos em prosa (o Te Deum e
várias antífonas incluindo as Marianas)
Textos poéticos (os hinos e as sequências
de cultos e Missas)
O Cantochão pode também ser classificado em sua forma (como cantado):
Quanto a Forma
Antífono: dois coros cantam versos com um refrão,
alternadamente;
Responsório: solistas cantam os versos e o coro canta o
refrão;
Direto: os cantores cantam os versos e não há
refrão.
Quanto ao Estilo
Refere-se à relação entre as notas entoadas (melodia) e as sílabas
pronunciadas (texto):
Silábico: os
cantos em que a cada sílaba do texto corresponde a uma nota somente.
Melismático: os cantos em que uma única sílaba de uma
palavra canta longas passagens de notas.
Neumático: o canto é na maior parte dele silábico e,
em poucas breves passagens, segue um melisma de quatro ou cinco notas somente
sobre algumas sílabas do texto.
Os primeiros hinos cristãos surgem nas Igrejas de Jerusalém, Antioquia (na
Síria) e da Ásia Menor chegando a Europa via Bizâncio e finalmente Milão. O
historiador Romano Plínio, O Jovem,
documentou estes hinos por volta do ano 112 d.C.
Um dos principais núcleos do desenvolvimento dos cantos da igreja
primitiva foi Bizâncio (ou Constantinopla, atual Istambul) como centro urbano e
político após a queda de Roma.
Bizâncio passou a incorporar o papel de núcleo
não só da política, mas também da religião do ocidente. Lá ocorre uma grande
evolução dos hinos primitivos relatados por Plínio para formas mais elaboradas,
sendo a mais importante delas o kontakion.
Contudo apesar da centralização de Bizâncio várias regiões da Europa
desenvolveram suas próprias formas de liturgia, conseqüentemente, criando
variações dos hinos do cantochão. Com o tempo cada território do antigo império
romano formalizou seus ritos e cantos ritos no norte da Itália e o canto Ambrosiano, já no sul o Benaventino; na região da Gália (França)
o canto Gálico; Na Espanha o Moçárabe;
e na Inglaterra o Sarum.
Por volta de 590, o papa São Gregório Magno visando o fortalecimento da Igreja
Romana inicia um movimento de unificação dos Ritos cristãos, este movimento é
marcado pela abolição dos ritos regionais (e com eles seus cantos característicos)
sendo seguindo da instauração de um modelo padrão de liturgia e canto. Este
movimento foi mais tarde chamando de Reforma Gregoriana. Esta reforma é levada
a cabo pelo Papa Gregório Magno e por seu sucessor o papa Vitaliano.
Contudo, somente no período carolíngio ela é finalmente concluída. Graças
ao imperador Carlos Magno que por volta de 789, impõem o uso da liturgia romana
dentro do território do reino Franco. E quando coroado imperador do Sacro-Império
Romano institui o Rito e o Canto Gregoriano como o rito oficial de toda a
Europa cristã.
Entretanto ainda hoje é possível ouvir o Canto Ambrosiano é cantado atualmente nos arredores de Milão e o canto Moçárabe em Toledo e Salamanca.
O Oficio e a Missa
A principal aplicação da música sacra no final da Antiguidade e inicio
da Idade Media ocidental foi nos oficio e missas. Dentro destas formas temos as
primeiras manifestações formalizadas da música ocidental que temos noticia.
O Oficio ou as Horas Canônicas
são a rotina religiosa dos mosteiros, sua primeira codificação ocorreu por
volta de 520 dentro da Regra de São Bento.
O oficio é celebrado todos os dias em determinadas horas tanto nos mosteiros
quando em determinadas igrejas e catedrais. As Horas canônicas se dividem em:
Matinas: antes do nascer do sol
Laudas: ao amanhecer
Prima, terça, sextas e novas: às 6h, 9h, 12h e 15h respectivamente.
Vésperas: ao pôr do sol
Completas: logo a seguir das vésperas
O oficio é composto por orações, salmos, cânticos, antífonas,
responsórios, hinos e leituras.
A música dos ofícios esta compilada nos Antifonários. Os principais momentos musicais dos ofícios estão nos
Salmos e suas respectivas antífonas, no canto dos hinos e cânticos, além da
recitação das passagens das Escrituras. Alguns cânticos eram comuns em alguns
casos: como nas Vésperas o canto do Magnificat anima mea Domino (A minha
alma glorifica o Senhor). E nas Completas
as quatro antífonas da Virgem Maria (Antífonas Marianas), cada uma nos seus
respectivos momentos do calendário litúrgico:
Alma Redemptoris Mater (Doce Mãe do Redentor) desde o advento a 1
de fevereiro
Ave, Regina caelorum (Salve, Rainha dos Céus) 2 de fevereiro à
quarta-feira da Semana Santa
Regina coeli laetari (Alegrai-vos, Rainha dos Céus) da Páscoa
até o domingo da Trindade
Salve, Regina (Salve, Rainha) Da Trindade até ao advento
A execução correta destes cânticos era tão importante quando a liturgia
em si. Para que sempre se seguisse em boa ordem os ritos da liturgia da Regra de São Bento temos nela indicado o surgimento da figura do Chantre incumbido de organizar o scripitorum e o serviço religioso, assim
como a música. Por volta do século VI surgem as Schola Cantorum que eram grupos destinados à formação de cantores
para desempenhar o canto dentro do serviço religioso.
A Missa
Como sendo a missa o serviço religioso mais importante, o papel de sua
música passou a ser de extrema relevância dentro do mundo cristão. Até por volta
do Século VII não havia um padrão comum para sua celebração, até o edital Ordo romanus primus (final do século
VII) que era um conjunto de instruções para celebração litúrgica. Nele foram determinados
textos das missas variavam de acordo com a data, já outros passaram a ser fixos
dentro do serviço.
Estas duas categorias são chamadas de:
Próprios: eram os textos que variavam: orações (colectas) e Epistolas. As partes musicais: Intróito; Gradual,
Aleluia, Tractus, Ofertório e
Comunhão (Communio).
Ordinário: as partes invariáveis do serviço: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Benedictus, Agnus
Dei e Ite, missa est.
As partes da missa eram assim organizadas pelo Ordo romanus primus:
Intróito que é normalmente um salmo cantando na
entrada do padre. Segue o Kyrie, que é
composto de dois refrões onde o primeiro é repetido após o canto do segundo:
kyrie eleison (Senhor, tende piedade de nós); Christo eleison (Cristo, tende
piedade de nós). Cada um é cantando três vezes, sobre uma mesma melodia.
Depois
o Gloria: iniciado pelo padre e
continuado pelo coro a partir do trecho “Et in terra pax”. Depois temos a colecta e a leitura da epístola do dia e
logo em seguida o canto do Gradual e
da Aleluia (na Páscoa a Aleluia é
substituída pelo Tracto).
Segue a
leitura do evangelho e depois o canto do Credo
iniciado pelo padre e continuado pelo coro a partir do trecho “patrem
omnipotentem”, segue o sermão e a eucaristia.
Durante a partilha do pão
cantasse o Ofertório, seguisse uma
nova colecta e o canto do Sanctus e o Benedictus, depois o canôn
(prece da consagração) e a oração Pater
Noster, depois o canto do Agnus Dei; após o consumo do pão e vinho temos
Communio e o Post-Comunio e a missa é concluída com a formula: Ite, missa est ou com Benedicamus Domino.
Desenvolvimentos ulteriores ao Ordo
romanus primus
Entre os séculos V e IX os povos do centro e norte da Europa já se
encontravam convertidos, o canto gregoriano já era uma instituição firme. Por
volta de 719, com a invasão muçulmana na Síria, norte da África e península da
Espanha, fez com que a cristandade se deslocasse mais para norte e assim surgissem
outros centros políticos e de irradiação cultural.
Assim tornando a França o
centro da cristandade. Esta proximidade do centro da cristandade, fez com que
em outras regiões da Europa, missionários começassem a fundar escolas e
congregações, em região até então distantes de Roma como na Irlanda, Escócia,
Alemanha e Suíça surgiram centros de música importantes, como o mosteiro de São
galo na Suíça. Neste período os compositores começaram a sair do anonimato
passaram a ser identificados nos registros e Codex.
Com estas novas escolas surgiram também novas formas de ser fazer a
música, por exemplo, as melodias do cantochão no norte da Europa como Christus hunc diem são cantadas com
vários saltos melódicos.
Estes compositores não só desenvolveram uma nova
maneira de canto, mas também novas formas musicais, sendo as três principais o Troppo e Sequentia, Drama Litúrgico. Estas formas de composição são
importantes, pois pela primeira vez em vários séculos os músicos da igreja que apenas
adicionavam textos a melodias prontas, passaram a compor tanto a música e o
texto ao mesmo tempo.
O Troppo surgiu por volta dos
séculos X e XI, e era na verdade um adendo em estilo neumático e com textos
poéticos dos cantos antífonos do próprio
da missa. Mais tarde surgiram como adição das partes do ordinário da missa, especialmente para o Gloria. Um nome que se destaca neste tipo de composição é o do
monge Tuotilo do mosteiro de São Galo.
Já nos primeiros manuscritos do cantochão podiam-se observar longos
trechos melódicos melismáticos, que muitas vezes se repetiam sem qualquer
modificação em diferentes coletâneas. Estas longas melodias na música do
serviço ficaram associadas às Aleluias.
A estas melodias se deu o nome de Sequentia
(do latim sequor ou seguir). É
creditado ao monge de São Galo, Notker Balbulus “O Gago” (840-912) a
autoria das primeiras Sequentia, ele
escreveu sobre os melismas palavras. A Sequentia
no serviço religioso passou a ser cantada entre os salmos e partes do ordinário
das missas.
Quanto a sua forma a Sequentia
se dividia normalmente em quatro grupos melódicos A B C D que eram repetidos até o fim do texto e uma formula
conclusiva N. A melodia A era sempre uma formula inicial e B um trecho diferente melodicamente de A. Já C e D guardam semelhanças
melódicas, contudo D é
semi-conclusiva. A parte final N é
uma formula melódica de conclusão, normalmente sobre as palavras “Amém”.
A Sequentia com o tempo se
torna independente do texto sacro e seu modelo é usado em canções populares e
músicas instrumentais para dança. O Concilio de Trento (1543-1563) bane a forma
do serviço religioso, mantendo apenas cinco Sequentia:
Victimae paschali laudes usada na
Páscoa; Veni Creator Spiritus no
domingo de Pentecostes; Lauda Sion no
Corpus Cristis; Dies Irae e Stabat Mater.
O Drama Litúrgico consistia em pequenos diálogos cantados apresentando
trechos e de passagem dos evangelhos ou referentes a eles e que estivem de
acordo com o calendário canônico. Muitos destes textos eram originais em termos
de texto e música. Eles eram apresentados antes do Intróito. O mais conhecido entre eles é Quem quaeritis in praesepe.
Mais tarde o drama litúrgico se tornou uma forma independente e mais
extensa, como por exemplo, Ordo Virtutum
(1152) de Hidengard Von Bingen (1098-1179). O formato do Drama Liturgico foi
copiado pelos músicos populares para apresentação de temas seculares.
Neumas: sistema de notação do Cantochão
Neuma (do grego νεύμα Neum, sinal, ou
alteração de pneuma grego πνεύμα,
respiração) foi o sistema de sinais de notação musical utilizados desde o Séc. IV e em toda a Idade Média até a criação do sistema moderno de cinco
linhas. O neuma é uma fórmula melódica e rítmica aplicada a uma sílaba (uma
única sílaba pode receber várias neumas nos vocais melismaticos).
Diferentemente da abordagem moderna, o elemento básico da notação do canto
gregoriano (quer para a sua análise ou a sua interpretação) não é a nota musical, mas neuma.
Os neumas descrevem pequenas fórmulas
melódicas aplicadas à uma sílaba, cada tipo de neuma correspondente a um valor acima da melódica e rítmico em
particular. O monge-teórico (e compositor) Hucbald Saint-Amand
(v.850-930) faz alusão, em sua Musica (v. 885) eo caráter rítmico de neumas
ornamentais gravado sem linhas (em Campo aperto) no seu tempo .
Inicialmente, somente o texto litúrgico é anotado na gradual. Mas as melodias são transmitidas
apenas oralmente.
No Séc. IV aparece o neuma
.é
um conjunto de sinais, escritos geralmente acima do texto, que permitiam ao
cantor "encontrar" a canção
que ele conhecia de memoria, mas sem indícios claros de intervalos ou altura notas. Os primeiros registros por neuma surgem por volta do ano 850. A classificação baseia-se
fundamentalmente em acentuada o uso de dois tons simples:
- O acento grave \ de cima para baixo,
indica que a sílaba é pronunciado em um mais grave do que o resto.
- O ascendente aguda / indicando vez
que a sílaba é pronunciado em um tom mais acentuado do que o resto.
O acento agudo cai na sílaba tônica, o acento grave
sobre as interpolações e terminações das palavras. Na declamação de textos litúrgicos, de acordo
com a pronúncia do latim usado na Idade Média, as sílabas são cantandas em um
tom neutro, sem acentuações fortes. Ao acento agudo foi dada a virga, já ao acento grave para simplificar
uma pequena linha (tractulus) ou um simples ponto (punctum).
Estes sinais podem ser combinados para
grupos nota melódica em uma única sílaba:
- /\ ( clivis ) agudos e graves (acento
circunflexo) traduz a sucessão de duas notas, a primeira maior que o
segundo.
- \/ (Podatus)
e Aguda Severa (anti-acento circunflexo) é a sucessão de duas notas, a
primeira mais grave do que o segundo.
- /\/ ( porrectus ) um grupo de três notas em sucessão agudo,
grave e agudo.
- \/\ (Torculus)
três notas em sucessão aguda grave e grave. Ut Queant laxis
Origem notas da
escala: Hino de São João Batista, Guido d'Arezzo, que foi usado para nomear as
notas da escala.
Seguindo o mesmo princípio, os grupos
mais complexo de quatro ou cinco módulos podem ser construídos: / \ / \ flexus
porrectus, \ \ / resupinus Torculus, etc.
Na notação silábica, as notas são
descritos como "grave" ou "grave" a partir da linha
melódica das sílabas outros. Em contraste, na notação de sílabas modulada, as variações
de altura são detectados pelo resto do grupo, independentemente da altura desse
grupo em relação ao resto da frase.
Esta avaliação foi bem consciente do ritmo, e dá
orientações sobre o áspero linha melódica (para cima ou para baixo), mas não em
altura e periodicidade de cantar.
A notação neuma quadrado
Dans la notation grégorienne,
les notes se présentent en groupes appelés neumes .Na notação gregoriana, as notas são apresentadas
em grupos chamados neumas. Tous les neumes sont toujours interprétés de manière liée, le groupement
graphique reflétant leur nature de groupe de note.Un neume (ou un groupe
d'éléments neumatiques) s'applique toujours à une syllabe unique. Um
neuma só pode ser aplicado a uma única sílaba. En revanche, une syllabe peut recevoir un neume formé de
plusieurs notes, voire de très nombreux neumes (de tels groupements s'appellent
des mélismes). Em contraste, uma sílaba pode receber grupos de neumas
(Esses grupos são chamados melisma).
Dans tous les neumes, la hauteur de la note à émettre est marquée sur la
portée par un élément graphique.Em todos os
neuma, a altura da notas está marcada no âmbito de um elemento gráfico. Une note peut être marquée par quatre signes
graphiques: A nota pode ser marcado por quatro sinais gráficos:
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* Par un petit carré
(le plus fréquent). * Para um pequeno quadrado
(mais comum).
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* Par un losange (qui
s'appelle également punctum , mais ne se trouve jamais isolé). * Para um diamante (também chamado punctum, mas nunca é
isolado).
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* Par une sorte de
carré barbelé dénotant un quilisma .
* Por uma espécie de praça que denota uma Quilisma farpado.
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* Par le bec supérieur de
la hampe qui intervient dans la composition graphique du porrectus . * Para o bico superior do pólo, que ocorre no porrectus
gráfico composição.
|
Les traits verticaux qui unissent les différentes parties du neume ne
servent qu'à guider l'œil et marquer l'unité du neume. As linhas verticais que ligam as diferentes partes
do neuma só servem para orientar o olho e marca a unidade do Neuma.
A notação
Neumatica é o mais antigo sistema de registro
musical de uma melodia ainda em uso, ele foi o ponto de partida para
notação moderna e ajudou a afirmar o conceito de obra musical.
História da música ocidental - Donald Jay Grout, Claude V. Palisca
Uma Breve História da Música - Roy Bennett
Masterpeices of music before 1750 - Carl Parrish
Music: The Definitive Visual History - Ian Blenkinsop
A Concise History of Western Music - Paul Griffiths
Harvard Dictionary of Music - Willi Apel
Se você quiser e puder colabore com o Parlatório Musical (
LINK)
PS: Foda-se abnt