Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior
Monodia Secular séculos XI à
XIII: Goliardos; Troubadours; Trouvères; Minnersänger e Meistersinger
Por volta do século XI, com a afirmação das monarquias nacionais, se
inicia o renascimento econômico da Europa. As cidades voltam a ser os centros
da vida e do comercio. Nestes centros o imobilismo social e intelectual que
marcou o sistema feudal começa a desaparecer, comerciantes, artesões e
artífices ressurgem como classes organizadas, organizações que estavam
desaparecidas desde o fim do Império Romano. O conhecimento e a erudição se
deslocam para fora dos mosteiros, fazendo florescer uma nova classe de eruditos
fora da igreja, agora no ambiente aristocrático. Sendo conseqüência disso o
nascimento das primeiras as universidades.
Neste ambiente nasce o movimento literário e poético trovadoresco que
foi de imensa importância para cultura ocidental, pois se configurou como um
evento inédito na Europa deste a antiguidade. Acredita-se que dois aspectos
foram de fundamental importância para o surgimento este movimento:
1 - A mobilidade
promovida pelo renascimento do comercio. Essa situação econômica e de intercâmbio de comunicação incentivou os costumes, as informações e as
idéias passaram a circula com mais freqüência;
2 - A afirmação das línguas
nacionais (por exemplo: o Provençal no sul ou Langue L’oc e no norte a Langue L’oil da França; o alemão; o castelhano na Espanha; o galaico-portugues).
Por volta do final do século XI e inicio
do séc. XII, formas poéticas como as Chansons
de gesta estavam difundidas com sucesso pela Europa, chegaram a nós alguns
exemplos das Chanson de Geste como: Chanson de Roland no reino da França e
os Niebelungen no Reino dos Alemães.
Outros poemas já tinham inclusive adaptações em diferentes línguas como a Lenda de Tristão e Isolda. Neste período
a divisão entre a música sacra e secular não era tão forte os dois gêneros se
entrecruzavam com muita naturalmente. Coexistindo neste período, divididos em
três categorias principais: Música sacra litúrgica (usada no oficio); Música
sacra não litúrgica (canções de exaltação ou usada nas procissões) e Música
Secular.
 |
Figura 1 Mapa político da Europa por volta do século XI e XII |
A monodia estava plenamente
estabelecida como também já havia passado por uma série de desenvolvimentos em
termos de forma e escrita melódica e iniciava a trilha em direção à polifonia.
Formas como o Conductus monódico foram
amplamente difundidas e passaram a ser também utilizadas na música secular e no
cancioneiro popular que nasce na Idade Média. Apesar de a música secular
medieval prestigiar as línguas nacionais, seus mais antigos registros ainda são
em língua latina, o repertoria chamado de Canções
dos Goliardos.
Os Goliardos
Associados ao seu mítico patrono
o Bispo Golias. Eles eram estudantes e clérigos de vida errante, que
perambulavam pela Europa antes do nascimento das grandes universidades
sedentárias. Seu estilo de vida era considerado vagabundo e mau visto por
muitos, suas canções em língua latim celebravam sua vida errante e delas foram
feitas inúmeras coletâneas como a
Carmina
Burana. Os temas tratados algumas vezes com extrema sutileza em outras não,
transitavam em torno do tripé: Mulheres, vinho e sátira (dos costumes,
autoridades e etc.). Com seu caráter franco e mordaz desfrutou de uma imensa
popularidade no período. Contudo pouco da sua música chegou até nós de forma
completa, muito do que temos hoje são reconstituições feitas a partir de varias
fontes. Esta dificuldade se dá pela falta de um sistema de notação mais preciso
para música dos Goliardos. Ouça:
Dulce Solum
A Chanson de Geste; Jograis e os Menestréis
A Chanson de Geste era um poema do
gênero épico em língua vernácula que narra feitos heroicos, As
mais antigas
Chanson datam de fins do
século XI
e do início do
século XII, muitos destes poemas ficaram famosos
como:
La Chanson de Roland,
Le Pèlerinage de Charlemagne e
Galiens li Restorés. Elas
são quase 100 anos mais antigas que a poesia
lírica dos trovadores
e dos mais antigos romances em verso. Elas foram uma tradição oral registrada
em texto apenas num período já tardio, assim boa parte da música que
acompanhava as Chansos foi perdida.
Muitas destas Chansons eram recitas ou cantadas, e em alguns casos representadas.
As pessoas que representavam as Chansons
eram chamadas de Jograis ou Menestréis, eles eram uma classe de músicos e
artistas que perambulavam sozinhos ou em grupos de aldeia em aldeia, castelo em
castelo sendo pobremente remunerados, eram considerados páreas na sociedade
medieval. Contudo com o desenvolvimento econômico dos séculos XI e XII e a
estabilização da sociedade, sua condição melhorou muito. Por volta do meio do
século XI, grande parte deles se fixou em cidades e passaram a se organizaram
em confrarias, que deram origem a corporações de músicos profissionais, que não
só regulamentavam seu trabalho, mas também concediam formação aos músicos. É importante saber que os menestréis não eram
poetas e compositores, eles cantavam, tocavam canções compostas por outros ou
extraídas do domínio popular. Contudo, o engenho e sua tradição profissional
foram de extrema importância para o desenvolvimento da música secular européia.
Troubadours e Trouvères
As duas palavras têm o mesmo significado: inventores. Troubadours (com o feminino, Trobairitz) em Provençal ou langue d’oc no sul da França e Trouvères em langue de d’oil (dialeto que deu origem ao francês moderno) no
norte. Os dois grupos não eram grupos bem definidos, na sua maioria eram
formados por membros da nobreza (aristocratas e até reis). É curioso observar
que nestes círculos, mesmo as pessoas de nascimento humilde podiam ascender por
meio de seu talento. Estes poetas criavam e cantavam suas cantigas ou muitas
vezes contratavam menestréis para tal. Muitas das cantigas foram conservadas em
coletâneas chamadas de Chansonniers.
Mas não existia uma sistematização nos registros, por este motivo, atualmente
temos muitas versões diferentes de uma mesma cantiga, pois elas podem variar de
acordo com o escriba que as registrou ou até por causa da fonte do registro (um
menestrel que aprendeu de cor e com o tempo alterou a melodia ou letra
original).
Chegaram até um numero um tanto reduzido de poesias e melodias Troubadours
e Trouvères:
Troubadours: 2600 poemas e 260 melodias.
Trouvères: 2130 poemas e 1420 melodias.
A temática poética dos dois grupos não era demasiado profunda, mas era
imensa na variedade e o engenho em termos de forma. Havia principalmente duas categorias de
composição: as baladas e as baladas dramáticas estas necessitavam de mais de um
interprete e provavelmente eram representadas. O gênero mais cultivado das
baladas dramáticas foi a Pastourelle,
seu texto sempre apresenta o mesmo enredo: uma jovem pastora encontra o
cavaleiro que a corteja, ela resiste, mas ceder ou pede socorro, neste momento
surgi o irmão ou namorado da pastora que põem o cavaleiro para corre, não sem
que antes haja um combate.
Para os Troubadours o tema mais freqüente era o amor com conotações
tanto carnais e sensuais quando místicas e idealizadas, também existiam
cantigas que abordavam temas morais e políticos, algumas eram inclusive debates
sobre temas do cotidiano, já outras traziam temas amenos como as cantigas de
amor cortês. Já os Trouvéres em sua maioria cultivaram um estilo de cantiga com
temas religiosos, utilizando muitas formulas da musica secular para exaltar
figuras religiosas, isso é possível constata nas cantigas de louvor a Virgem
Maria, que apresenta recursos usados na poesia de amor cortês.
Amor Cortês foi uma expressão do pensamento
medieval que contemplava: atitudes, mitos e etiqueta para amour courtois ("amor
cortês"), foi cunhada por Gaston Paris em um artigo escrito em 1883,
"Études sur les romans de la Table Ronde: Lancelot du Lac, II: Le conte de la
charrette", um tratado da analise do Lancelote, o Cavaleiro da Carreta
(1177) de Chrétien de Troyes. O amour
courtois era uma disciplina nobre e idealizadora: O amante (idealizador)
aceita a independência de sua senhora e tenta fazer de si próprio merecedor
dela, agindo de forma corajosa e honrada (nobre) e fazendo quaisquer feitos que
ela deseje. Mas o amor não é totalmente platônico, já que se baseia numa
atração sexual.
exaltar o amor. Ela deu
origem a vários gêneros da literatura medieval. A expressão
Em termos musicais o tratamento dado as melodias pelos Troubadours e
Trouvères era silábica, ou seja, uma nota por silaba, com um pequeno melisma normalmente na penúltima silaba
dos versos. Esta regra não impedia que os cantores incluíssem ornamentações
durante o canto para que houvesse variedade e contraste entre as melodias,
muitas vezes havia uma rápida improvisação entre cada estrofe da cantiga.
Existe uma incerteza em relação à métrica e o ritmo das melodias, alguns
especialistas acreditam que as notas longas e curtas eram definidas em
correspondências as sílabas acentuadas e não acentuadas das palavras. As melodias não passavam do âmbito de uma
sexta e raramente de uma oitava. As cantigas do Trouvères eram relativamente
curtas (entre três e cinco compassos numa transcrição moderna em compasso
ternário). Suas melodias eram simples e fáceis de decorar, seu ritmo livre, é
curioso observar estas cantigas muita afinidade com as canções do folclore
francês. Recursos como repetição, variação e contraste são largamente usados
para da forma conferindo interesse variedade às melodias das cantigas. Muitas
das cantigas do Trouvères apresentam um refrão, que são versos ou pares de
versos que são repetidos após cada estrofe cantada, o refrão quando repetido
implica da repetição de sua melodia ao longo da cantiga. O refrão como
estrutura é importante para o desenvolvimento da forma nas músicas com caráter
de dança, pois, acredita-se que este processo possa ter dando origem as
cantigas de dança, onde o coro de dançarinos cantava o refrão.
Os Minnesinger e os Meistersinger
Os Troubadours franceses foram o modelo para nobres poetas-compositores
alemães, os Minnisinger. Suas canções as minnelieder (minne = amor; lieder = canção)
tinham representações mais abstratas do amor que aquelas dos Troubodours, por
outro lado outras muitas tinham caráter religioso. Por este motivo as cantigas
tinham um estilo mais sóbrio, outro aspecto que indica isso é uso dos modos e
modelos rítmicos da música litúrgica em suas melodias, os ritmos obedeciam ao
ritmo dos textos (a maior parte das cantigas era em ritmo ternário). Em termos
de forma as canções eram estróficas com uma estrutura rígida onde a repetição
das frases melódica era cuidadosamente observada.
Alguns gêneros foram amplamente cultivados dentro do repertorio dos
minnesinger como as
cantigas de alvorada ou de
vigília,
onde a personagem principal é o amigo que fica de sentinela, protegendo e
alertando os amantes da chegada da alvorada. Tanto na Alemanha como na França
foram também escritas muitas cantigas de devoção religiosa inspiradas nas
cruzadas.
Como as
de Walther von der Vogelweide que escreveu, entre outras, Palästinalied (Canção da Palestina) quando seu protetor, Frederico II,
partiu para a cruzada. Minnesänger : Walther von der Vogelweide - Under der linden
Palästinalied
A partir do século XIII na França a arte de criação dos Troubadours e
Trouvères passou a ser cultivada também pelos primeiros burgueses (neste
contexto o termo burguês se aplica para representar os profissionais liberais
que viviam nas cidades onde havia centros de comercio, ou burgos). Como reflexo
disso, surgiu na Alemanha a classe dos Meistersingers, os sucessores dos
Minnesingers a partir do século XIII. Eles se organizaram em corporações em
varias cidades alemãs, sendo a mais famosa delas a de Nuremberg (retratada na
ópera de Wagner Der Meistersinger Von
Nuremberg, 700 anos depois), esta corporação foi tão forte que se dissolveu
apenas no século XIX. A música dos Meistersingers tinha regras rígidas de
composição que apesar de produzir obras primas nos dar a impressão de serem
menos expressiva que dos minnesingers.
Em outros países da Europa também ocorreram movimentos paralelos aos da
França dos Troubadours e Trouvères, gerando obras importantes como as Cantigas
de Santa Maria de Alfonso X,
O sábio,
na Espanha. Também formas importantes como as
cantigas de amigo, que tem suas origens na Península Ibérica. Cantigas de Santa Maria - Porque trobar - Prologo
A Música Instrumental
As danças Medievais eram acompanhadas inicialmente pelas cantigas, com o
tempo começou a se utilizar dentro das cantigas trechos instrumentais (que
repetiam a idéias das clausula dos
duplum polifônicos que veremos na próxima apostila) ou versões instrumentais
das melodias. A partir do século XIII e XIV começa a se destacar uma forma de
música instrumental de dança na Inglaterra e no continente, a estampida (estampie na França e instampite
na Itália). As estampidas são os mais antigos exemplos de música instrumental
medieval que temos registro. A música instrumental servia apenas para dança,
não havia outra aplicação a para ela, a música instrumental só ira se
desvincular totalmente da dança no séc. XVII, já no período Barroco.
O estampie consiste de quatro a sete seções, chamadas punctum, onde cada uma que se repete,
veja a formula:
aa, bb, cc, etc.
Há também as chamadas terminações
que eram espécies de cadências que tinham duas categorias em duas diferentes: Ouvert [X] (aberto) e Clos [Y] (fechado) elas eram usadas após
a declamação da primeira e da segunda estrofe respectivamente. Aqui as estrofes
eram chamadas de punctum, deste modo a
estrutura pode ser:
a + x, a + y, b + x, B + y, etc.
Às vezes, as mesmas duas
terminações são usadas para todos os punctum
da estrutura:
A + X, a + y; b + x, b + y, c +
X, C + y, etc.
Uma estrutura semelhante foi usada
em formas de dança medieval como o saltarello.
O mais antigo exemplo conhecido desta
forma musical é a canção "Kalenda Maya", supostamente escrita pelo
trovador Raimbaut de Vaqueiras (1180-1207). Todos os outros exemplo conhecidos
são puramente instrumentais. Exemplos do século XIV incluem
estampies dentro de dramatizações de
lendas como Lamento di Tristano, Manfredina, Isabella, Tre Fontane. Embora o
estampie seja geralmente monofônica, há
exemplo de composições para duas vozes.
Kalenda Maya
Instrumentos Medievais
Os instrumentos encontrados na Europa medieval tinham varias origens,
alguns como a harpa era uma adaptação da lira romana. Outras tinham sua origem
fora da Europa como o alaúde que é árabe. Segue uma rápida lista de
instrumentos medievais:
Vielle ou Fiedel instrumento
de cordas friccionada, muito comum entre os jograis e menestréis, foi o
protótipo da viola renascentista e do violino, e talvez de nossa rabeca, era
usado para acompanhar a recitação ou canto.
 |
Iconografias de alguns instrumentos musicais medievais |
Saltério era uma espécie de citara
que tinhas as cordas percutidas com bicos-de-pena.
Alaúde instrumento de cordas trazido pelos árabes a península ibérica
pelos árabes.
Flautas de vários tipos retas ou transversais.
Charamela instrumento de sopro da família do oboé.
Trombetas de uso exclusivos dos nobres.
Gaita de fole instrumento popular universa na Europa.
Vários tipos de tambores usados a partir do século XII nas músicas para
dança.
Carrilhão:
conjunto de sinos graduados, para ser tocado com martelos de metal.
Cítola
ou cistre: instrumento de 4 cordas de arame
Harpa:
menor em tamanho que a harpa moderna.
Rebec:
instrumento em forma de pêra, com 3 cordas para serem friccionadas por um arco.
Viela
de roda: instrumento no qual uma roda movida a manivela fazia as cordas
vibrarem, e um teclado em conexão com as cordas melódicas respondia pela
diferenciação dos sons.
Lista de alguns importantes Troubadours; Trobairitz e Trouvères:
Bernart de Ventadorn (1130-1180)
Folquet de Marselha (1180-1231)
Gautier De Coincy (1167-1236)
Thibaut De Champagne (1201-1253)
Beatriz condessa de Diá (1190 – 1210)
Adam De La Halle
(1240-1287)
Lista de alguns importantes Minnesinger e Meistersinger:
Neidhart Von Reuental (1180-1237)
Tannhaüser (1205-1270)
Walther Von Der Vogelweide (1170-1230)
Península Ibérica:
Alfonso X, O Sábio (1221-1284)
Algumas Fontes Importantes:
Ele escreveu também dezenas de poemas e composições musicais monódica
e numa polifonia primitiva. Entre suas
peças para teatro mais conhecidas estão A História de Griseldis, considerada precursora das peças sérias sem a temática
religiosa da época, e o Jeu de Robin
e Marion, comédia pastoral musicada que é tida como uma das primeiras obras
dramáticas francesas, representada por volta de 1285 para corte. Foi também o
primeiro músico francês a viajar para a Itália, algo extremante difícil na
época. Em sua obra ele cultivou estilos musicais e poéticos como: Rondeaux,
motetos e jeux-partis.
Adam estudou gramática, teologia e música na abadia cisterciense de
Vaucelles, perto de Cambrai. O pai de Adam o tinha destinado a igreja, mas ele
renunciou a essa intenção, e se casou com Maria (que figura em muitas de suas
canções). Depois ele se vinculou a família de Robert II, conde de Artois, e, em
seguida, foi passou viver sub a proteção de Carlos de Anjou, irmão de Charles
IX, cujas aventuras levaram o poeta a segui-lo ao Egito, Síria, Palestina e
Itália.
A história é uma dramatização de um gênero tradicional da canção
francesa medieval, o pastourelle.
Este gênero normalmente fala de um encontro entre um cavaleiro e uma pastora,
freqüentemente chamado Marion. Versão Adam de la Halle da história coloca uma
maior ênfase nas atividades de Marion, seu amante Robin e seus amigos depois
que ela resiste ao avanço do cavaleiro.