Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior
A Europa – e por extensão, o Ocidente – moderna nasce no século XI, este
período entre os anos 1000 e 1100 d.C. assistiu o renascimento da economia
européia; o aumento populacional; a fundação de muitas das cidades modernas; a
conquista da Inglaterra pelos povos Normados; o inicio da reconquista da
Espanha; a fundação das primeiras universidades e traduções do grego e árabe,
além do nascimento da literatura em língua vernácula. O Principal marco deste “renascimento”
da Europa foi a divisão definitiva das igrejas do Ocidente e Oriente em 1054.
A música não ficou isenta desta fase de distinção, em alguns aspectos
ela começa a se distanciar de suas raízes orientais e se formatar da maneira
que a conhecemos hoje, vamos a um resumo dos principais aspectos:
·
Composição: aos poucos a improvisação foi sendo substituída
pela composição definitiva. Antes, a cada interpretação a melodia de uma canção
sofria alterações, pois as melodias eram passadas oralmente. Contudo, graças ao
desenvolvimento de uma notação musical que permitia registrá-las as melodias
com mais precisão, estas melodias passaram a ser reproduzidas como compostas. Elas
se tornaram composições, ou seja, passaram a existir na forma que foram
concebidas, independente de serem executadas ou não.
·
Princípios Estruturadores ou ordenadores: a música começa a ser criada a partir de princípios
“conscientes”, em outras palavras, regras de utilização de modos, ritmos; forma
e tratamentos das consonâncias.
·
A polifonia: este que é um fenômeno que se tornou marca
registrada da música ocidental, apesar da polifonia não ser de forma alguma um
aspectos exclusivo da música ocidental, foi no ocidente onde ela encontrou seu
maior grau de desenvolvimento, por conseqüência da notação musical das alturas
e ritmos. Temos que convir que o preço desta especialização, foi uma diminuição
das sutilezas melódicas encontradas na música de outras civilizações. Entretanto,
apenas na música ocidental encontraremos o grau tão alto de complexidade
polifônica consciente e planejada.
Todas estas reformas ocorreram ao logo dos séculos de modo gradual. O
século XI assiste o inicio do caminho que levou a afirmação da polifonia [Séc.
XII] como uma nova maneira de criar música. É importante sabermos que a monodia
e a improvisação não foram completamente abandonadas, continuaram a ser
utilizadas e a foram revitalizadas mais tarde em diversos períodos da música.
Ars Antiquæ: O Organum
Primitivo e a escola de Notre Dame
Não se sabe ao certo em que momento os compositores passaram a usar a
polifonia, acreditasse que ela já era usada na música sacra não litúrgica e na
música secular como elemento ornamental. A polifonia primitiva consistia na
duplicação da melodia principal em intervalos de terças; quartas ou quintas
isso ocorria ao mesmo tempo do uso de heterofonia sobre a melodia principal. Os
registros mais antigos desta prática são do século IX, contudo, não há nenhuma
referência de que ela consistisse numa proposta de um novo processo de
composição, era sim, apenas uma indicação de algo que já vinha sendo exercitado
já há algum tempo.
A palavra Organum foi inicialmente
utilizada para identificar um tipo de obra, onde uma voz era improvisada abaixo
de um cantochão. Depois passou a designar vários estilos de Polifonia primitiva entre os Séculos IX e
XIII, na Europa ocidental. Consistia basicamente na adição de uma ou mais vozes
a um cantochão já existente.
Organum Paralelo

Ilustração 1 Organum Paralelo
Ilustração 2
Voz organal duplicada uma oitava acima
Organum Livre
Desenvolvido no período subseqüente ao organum paralelo, o organum livre iniciasse quando os compositores
passam a experimentar vários tipos de movimentos na voz organal: paralelo ou
direto, oblíquo, contrário na voz organal. Passar a usar intervalos de uníssono,
oitava, quinta e quarta. Nesta técnica a vox
organalis passa a ser escrita acima da vox
principalis. Contudo, o organum
livre mantém o sistema de escrita de nota-contra-nota do Organum Paralelo.
Ilustração 3
tipos de movimento
Ilustração 4
Organum Livre
Organum melismático
No Século XII, o sistema de escrita de nota-contra-nota foi gradativamente
sendo abandonado em favor de um estilo de escrita. Nele as notas da voz
principal passaram a ser escritas em valores rítmicos mais longos e ela passou
a ser chamada de Tenor (do latim tenere, que significa manter). O tenor
mantinha as notas longas enquanto a vox organalis se desenvolvia um linha
melódica baseada em agrupamentos de notas com valores rítmicos mais curtos,
criando uma melodia sinuosa cantadas numa única sílaba do texto. Esta técnica
passou a se chamar melisma.
Ilustração 5
Organum Merismático – verso:
Senescento mudano filio
Escola de Notre Dame
A construção da Catedral de Notre-Dame
de Paris foi decidida pelo Bispo Maurice de
Sully, logo após sua eleição, no final 1160 ou início de
A música, neste ambiente experimentou um desenvolvimento sem
precedentes. Pois diferente dos primeiros anos da Idade Média, os músicos que
desenvolviam sua arte quase que isoladamente nos mosteiros espalhados pela
Europa, passaram a ser reunidos num único lugar, assim a criação e o
desenvolvimento técnico passaram a conhecer um nível nunca visto antes na
Europa medieval.
Dois aspectos colaboraram com este desenvolvimento: a igreja passa a aumentar
a complexidade e pompa das cerimônias. Desta forma, as congregações passaram a
competir entre si cada uma dispondo de um corpo de músicos. Além disso, nobreza
passa a incorporar música na sua vida doméstica, a própria família real
mantinha uma trupe de cantores e músicos disponíveis.
Neste contexto, os músicos da chamada Escola de Notre Dame entram
para a história da música ocidental como personagem decisivoa, pois sistematizando
o uso da polifonia e de uma notação rítmica coerente, a musica mensurabilis.
Mudaram os rumos da criação musical do ocidente.
O primeiro período da música polifônica é chamado de Ars Antiquæ (também chamado de Ars Ars
Vetus Veterum) refere-se à música produzida no período entre 1170 e 1310,
abrangendo o período inicial de escola de Notre
Dame. A Ars Antiquæ é uma
conseqüência do desenvolvimento musical ocorrido nos séculos IX e XII, quando surgiram
e se desenvolveram as primeiras formas polifônicas: Moteto, conductos,
discantus. Na História da Arte este período é conhecido como Gótico. E teve
como principal centro Paris.
O principal centro de atividade musical da Paris Gótica era a catedral
de Notre Dame, dela faziam parte de
um grupo de músicos consagrados em sua época, entre eles estão dois que
passaram para a história como os primeiros compositores polifônicos conhecidos:
Leonin e Perotin
Leonin ou Leoninus (Paris, c. 1135 – 1201), era
francês, a única referência feita a ele, foi registrada um século após sua
morte por um monge britânico anônimo, que o descreveu como: "o maior
compositor de organum para
amplificação do serviço divino". Mestre de capela da igreja de
Bienheureuse-Vierge-Marie (viria a ser a catedral de Notre Dame). Leonin foi o
primeiro grande representante da Escola de Notre
Dame, era considerado o melhor compositor de organa do seu tempo. Não foi encontrado qualquer documento que
pudesse estabelecer a sua biografia, nem qualquer manuscrito que lhe pudesse
ser atribuído com certeza. É atribuída a Leonin a autoria do Magnus liber organi (que do século XIII).
Magnus liber organi de gradali et
antiphonarii pro servitio divino multiplicando (c.1160-1180).
Ilustração 6
Organum Duplum – Aleluia Pascha Nostrum
Sua escrita consistia em primeiro escolher uma melodia apropriada do
repertorio do cantochão, em seguida era escrito sobre ela a vox organlis, esta pratica era conhecida
como Organum Duplum. Tecnicamente
falando, fazia-se a seguinte operação: sobre a melodia do cantochão era
colocada em valores muito longos e a voz organal era sobreposta ora por
melismas, ora na forma de nota contra nota.
Pérotin, chamada de Perotin le Grand ("o
Grande") ou Perotinus Magnus Magister (Mestre Maior) também era francês,
nascido em Paris entre 1155 e 1160 e morreu cerca de 1230. Considerado o mais
importante compositor da Escola de Notre
Dame. Revisou o Magnus Liber (atribuído a Leonin) entre 1180 e 1190, adaptando
seu repertorio ao estilo mais moderno praticado em sua época, ou seja, ampliou
as obras de duas vozes para três e quatro vozes (Organum Triplum e Quadruplum respectivamente).
Perotin também foi importante para o desenvolvimento da escrita dos modos
rítmicos e o desenvolvimento de estilos como o discante.
Pouco se sabe sobre sua vida, entre as fontes confiáveis estão os
tratados teóricos de Johannes de Garlandia datados da segunda metade do século XIII.
Sua obra mais importante é Viderunt Omnes,
o que foi encomendado pelas autoridades da Igreja para celebrar o dia de Natal
do ano 1198.
Modos rítmicos
Era um esquema rítmico baseado na métrica da poesia. Foi usado na Idade
Média e desenvolvido pelos compositores da Escola de Notre Dame.
No tratado De mensurabili musica,
atribuído a Johannes de Garlândia, escrito por volta de 1240. Este modelo é
pela primeira vez exposta como estudo. Existiam de seis modos rítmicos
principais, embora na prática somente os três primeiros fossem mais usados.
Eram eles:
1. Troqueu - semilonga/curta
Semínima-colcheia - compasso 3/8
2. Jâmbico - curta/semilonga
Colcheia-semínima - compasso 3/8
3. Dáctilo - longa/curta/semilonga
Semínima
pontuada-colcheia-semínima - compasso 6/8
4. Anapesto - curta/semilonga/longa
Colcheia-semínima-semínima pontuada - compasso 6/8
5. Espondeu - longa/longa
Semínima pontuada-semínima
pontuada - compasso 3/8 ou 6/8
6. Pírrico - curta/curta/curta
Colcheia-colcheia-colcheia - compasso 3/8 ou 6/8
Ilustração 7
Modos rítmicos
Ilustração 8
Aplicação dos Modos
Podiam-se construir agrupamentos rítmicos maiores tendo como base cada
modo. Esse modelo foi utilizado até no século XIV. Os modos também eram usados
com sutis variações, como veremos a seguir.
Discante e Clausula
Apesar do Organum ser baseado
numa melodia original escrita sobre um tenor
extraído do repertorio do Cantochão, com o tempo, os músicos começaram a
adicionar um novo trecho as composições, onde tanto o tenor quanto o organum teriam
melodias originais. Este novo estilo passou a se chamar Discante o trecho com melodias originais Clausula. A clausula não
tinha texto ela era basicamente um vocalize sobre uma silaba. A voz principal
passava a ter uma divisão rítmica mais rápida, baseada em variações dos modos
rítmicos. No exemplo abaixo temos o uso de variações sobre o modo Espondeu:
Ilustração 9
Exemplo de Discante, com a Clausula destacada.
Moteto
O desenvolvimento do moteto é vinculado a Escola de Notre Dame, no século XIII. O termo moteto é derivado de mot,
que significa: palavra em francês. Ele é um
gênero musical polifônico surgido no século XII. Ele tem sua origem ligada a clausula do discante, inicialmente, os
compositores passaram destacar a clausule e adicionar textos a suas melodias,
usavam-se um texto distinto para cada voz. O moteto se tornou uma das grandes formas da música polifônica, sendo
o apogeu de seu uso no contraponto modal do século XVI, ele desfrutou de grande
importância até o período barroco e também foi retomado por alguns compositores
românticos em suas obras sacras.
O a voz aguda do duplum passa
a ser designada como Moteto,
posteriormente com Perotin ocorre o acréscimo de outra voz sobre o duplum, o triplum, com uma divisão rítmica igual ou ligeiramente mais rápida.
Os textos usados muitas vezes não tinham qualquer conexão contextual,
misturava-se um texto religioso e um texto secular que abordavam diferentes
temas sem qualquer problema. Pois a preocupação dos compositores é muito mais
ajustar as palavras ao ritmo das melodias do que a o contexto temático. Este tipo
de composição mais tarde passou a ser identificada como moteto politextual.
Os principais nomes da escola de Notre Dame: Leonin e Perotin foram seus
primeiros grandes autores. Um exemplo do estilo inicial de moteto é Salve salus hominum-O
radians Stella preceteris-Nostrum, este moteto
de Leonin é baseado na Clausula derivada do organum
Alleluia Pascha nostrum. Os textos
não têm qualquer relação com o versículo da Aleluia, contudo, os dois se
completam em sentido de serem textos de exaltação a Virgem.
Observe que os modos rítmicos são bem obedecidos:
- No Triplum
e no Duplum temos o terceiro
modo. Contudo em alguns trechos temos rápidas variações sobre as estrutura
dos modos (estas variações estão assinaladas com hastes sobre elas).
- No tenor
(chamado de Cantus na partitura)
temos variações do quinto modo.
Notem também que por terem de metros diferentes os textos do Triplum e Duplum sobrepõem inícios e finais de frases, sem nunca se
encontrar, o compositor teve de planejar e ajustar bem os metros dos textos para
se encontrem no compasso final. Já o tenor faz o papel de nota pedal (nota pedal é nota sustentada por tempo
indeterminando) num longo melista sobre as silabas da palavra Nostrum.
Vamos escutar com atenção o moteto
Salve salus hominum - O radians Stella
preceteris - Nostrum, ele foi montado sobre a clausula do duplum
Alleluia Pascha Nostrum, o triplum
nada mais é que um arranjo sobre a melodia do duplum. Mas tarde este motete foi adaptado para a música secular no
motete Qui d’amour veut bien - Qui
longuement poroit- Notrum. Observe
como as métricas das frases se defasam:
Ilustração 10
Salve salus hominum-O radians Stella preceteris-Nostrum
O moteto tornou-se umas das
formas musicais mais populares no final da Idade Média e no Renascimento.
Surgiram estilos como o Franconiano
onde a escrita das melodias se liberta em certa escala da rigidez dos nos modos
rítmicos. Abaixo temos um belo
exemplo o conhecido moteto Pulecete-Je
Langius-Domino
Ilustração 11 Moteto: Pulecete-Je Langius-Domino de meados do Séc. XIII
Podemos observa que quanto mais aguda a melodia, mais rápida é sua
divisão rítmica, cada voz com um modo rítmico diferente; O tenor com o quinto;
o Moteto evolui com base do segundo e
o Triplum usa versões do sexto.
Quanto ao texto é curioso observar que quanto mais copioso o texto ele é
colocado numa melodia rápida.
Já no final do século XIII o moteto
passou por varias modificações. Passaram e existir basicamente dois tipos:
1.
Com o triplum muito rápido, numa divisão
próxima a da fala, o Duplum ou moteto mais lento e o tenor passou a ter
uma estrutura mais rígida e a ser executado por instrumentos.
2.
Que
tinha no tenor o texto secular em
língua vernácula, e todas as demais vozes evoluíssem num ritmo próximo,
contudo, muitas vezes o Triplum tinha
a melodia principal e era escrito mais rápido.
Ainda podemos destacar os motetos
de Petrus de Cruce (Pierre de la
Croix ) que escreveu Triplum
numa velocidade inédita em relação as outras vozes. É importante entender que
não havia a idéia de uma melodia principal com outras melodias servido apenas
como acompanhamento. A idéia do moteto
Petroniano de destacar fortemente o Triplum acabou se tornando um estilo de
escrita que nos períodos seguintes será a base para o desenvolvimento de outras
formas de música secular, onde uma melodia passa a se destacar sobre as demais.
Ilustração 12
Moteto Petroniano
Conductus
Outro gênero que se popularizou com os compositores de Notre Dame foi o conductus, ele era o cântico usado nas procissões. O conductus pode ser considerado a
primeira forma de composição totalmente original, ele foi um importante modelo
para vários gêneros de canção secular polifônica que se seguiram ele. O conductus foi caído em desuso a partir
de 1250.
A melodia do conductus não
tinha como base uma melodia do cantochão o compositor criava tanto as melodias quanto
o texto de cada composição. O texto era sempre tratado na melodia de forma
silábica, ou seja, uma nota para cada silaba, tendo sempre como base o estilo
de nota contra nota com algumas poucas variáveis. Diferentemente do moteto, o conductus usava o mesmo texto para todas
as vozes, assim tínhamos duas, três e até mais vozes cantando o mesmo texto.
Contundo em alguns casos fragmentos de melodia ou frases inteiras eram trocadas
entre as vozes, Por exemplo: enquanto uma voz cantava a melodia A e outra voz
cantava a melodia B, em outro momento da execução podia ocorrer uma inversão
entre as melodias.
Alguns conductus apresentavam
trechos longos sem letra, estes trechos eram chamados Caudae, nestes trechos havia uma variedade rítmica maior entres as
vozes, próximo do que acontecia nas clausula.
História da música ocidental - Donald Jay Grout, Claude V. Palisca
Uma Breve História da Música - Roy Bennett
Masterpeices of music before 1750 - Carl Parrish
Music: The Definitive Visual History - Ian Blenkinsop
A Concise History of Western Music - Paul Griffiths
Harvard Dictionary of Music - Willi Apel
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PS: Foda-se abnt