Organizado por Marcello Ferreira Soares Junior
O século XIII foi um período de
estabilidade, por outro lado, os séculos XIV e XV foram sua contraparte. Muitos
fatores contribuíram para caracteriza este período como uma época de mudança de
vários aspectos da vida e do pensamento, abrindo caminho para o Renascimento. O
poder e a unidade da igreja centrada na figura do papa de Roma foram paulatinamente
perdendo sua força. As causas disso foram as de lutas internas da própria
igreja (a “grande cisma”).
Tragédias como a Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra
geraram um enfraquecimento do poder político e econômico no sistema feudal.
Seguindo o caminho inverso o crescimento das cidades alavancou politicamente a
burguesia citadina frente à aristocracia. No campo do pensamente, o século XIV
começava a se fundamentar a divisão entre estado e igreja. Com a secularização
e racionalização do estado, os costumes também passam a ter também um caráter
mais secular.
No campo da cultura, temos acentuado o florescimento da
literatura em língua vernácula: Divina
Comedia de Dante; Decameron de
Bocácio e os Contos da Cantuaria de
Chaucer são alguns exemplos desta tendência. A Europa desfruta de um maior
numero de eruditos e estudiosos não mais ligados ao clero. Nas artes plásticas
Giotto rompe com o formalismo bizantino praticado na Idade Média, inaugurando
uma arte puramente européia.
A Ars Novæ e Philippe de Vitry
Termo Ars Novæ (arte nova) foi cunhado pelo poeta e
compositor Philippe de Vitry, usado inicialmente como título de seu tratado
sobre composição escrito entre 1322 e 1323 (temos a direita uma das paginas do
famoso tratado), passou a ser utilizado pelos músicos da época para designar o
novo estilo de escrita musical (harmônica e rítmica) praticada naquele período.
Vitry também é conhecido pelos primeiros exemplos da polifonia no estilo da Ars Novæ, que são os motetos do Roman de Fauvel, notadamente Garrit
gallus – In nova fert – Neuma. https://www.youtube.com/watch?v=Pkb_nLL8GVk
A Ars Novæ teve
suas maiores expressões na França e na Itália. As principais diferenças em
relação à Ars Antiqæ foram: nos
aspectos formais, no ritmo, da harmonia e dos gêneros. A Ars Novæ passa a privilegiar os gêneros de música secular, como o moteto e o madrigal, também abrindo
espaço para o surgimento e popularizaram novos gêneros musicais. Em termos de
notação musical neste período aperfeiçoou-se o sistema de pauta, modificaram se
desenhos e valores das notas, e passou-se a utilizar diversos símbolos novos
muito mais flexíveis e exatos para descrever a música prática. Também temos o
uso mais extenso das fórmulas imperfeitas
de compasso, ou seja, compassos de divisão binária.
Notação
Ao longo da Ars Novæ
as medidas de duração das notas se tornaram cada vez mais definidas, assim como
as indicações de métrica no início da pauta possibilitando várias combinações
entre os valores das notas e os padrões métricos. O pulso básico girava em
torno de 80 bpm no metrônomo moderno, mas eram reconhecidas velocidades
alternativas como rápido, moderado e lento.
Havia três relações métricas principais nesse período: Modus, Tempus e Prolatio, eram
relacionadas às formas perfeitas, imperfeitas e alteradas, resultando em doze
esquemas básicos.
Modus relacionava a longa com a breve, estava à longa perfeita (27
unidades), longa imperfeita (18 unidades) e a breve (9 unidades); no terceiro
grau.
Tempus, relacionando a breve com a semibreve, estavam a breve perfeita
(9 unidades), a breve imperfeita (6 unidades) e a semibreve menor (3 unidades).
Prolatio, relacionando a semibreve com a mínima, estavam a semibreve
perfeita (3 unidades), a semibreve imperfeita (2 unidades) e a mínima (1
unidade).
Figura 1
Havia também o Maximodus, que relacionava as
proporções entre os três tipos de nota longa, a longa tripla ou longuíssima (81
unidades), a longa dupla (54 unidades), e a longa simples (27 unidades). Porém
era bem menos utilizado. Também vemos o surgimento do punctus additionis, que
adicionava a uma nota metade do valor e esta até hoje em uso. Também havia o
punctus divisionis, retirando da nota metade do seu valor. Surgi em
conseqüência disso a síncope, que desloca do pulso rítmico padrão.
Na Idade Média tínhamos duas denominações básicas para as
formulas de compasso: "perfeito"
e "imperfeito", elas se
referiam às divisões ternárias e binárias respectivamente. Com o passar do
tempo se desenvolveu um sistema de sinais que usava círculos e semi-circulos
para determinar o numero de Modus; Tempus e Prolatio nas formulas de compasso
"perfeito" e "imperfeito"
Figura 2
Musica Ficta
Musica Ficta vem do latim e significa:
música falsa ou simulada. Refere-se às alterações cromáticas, que deviam ser
realizadas pelo executante. A musica
ficta era utilizada para evitar intervalos harmônicos ou melódicos
indesejáveis, por exemplo, o trítono "diabolus in musica", se
empregavam notas fora da escala modal usada na obra. O trítono era inicialmente
evitado, pois dificultava a afinação dos cantores, mais tarde, passou a
integrar o grupo de intervalos utilizados como uma forma de reforçar o sentido
de conclusão de uma melodia. A musica
ficta era utilizada da seguinte forma: quando em uma voz tínhamos um Fá em
outra voz um Si-natural esta nota era alterada para Si-bemol evitando a
formação do tritono; ou se alterava uma nota para que ela tomasse a função de
sensível na resolução, por exemplo, elevar o Fá-natural para Fá-sustenido para
resolver na nota Sol. Estes termos foram adotados pelos teóricos a partir do
século XII até o século XVI.
Figura 3
Este sistema de escrita dos
ritmos e uso de da musica ficta se apresenta inteiramente desenvolvido nas
obras de Guillaume de Machaut.
Guillaume de Machaut
Natural
da cidade de Reims (1300 – 1377) foi o principal compositor, poeta e militar
francês do século XIV, expoente máximo da Ars Novæ. Machaut estudou
em Paris alguns anos, aprendendo o que havia de mais novo em termos de
composição na época. Registros papais datados de 1335 mostram que Machaut
passou a serviço do Rei João de Luxemburgo, da Boêmia, que serviria o rei entre
de 1323 a
1346, como secretário; clericus elimosinarius e amigo. Neste período
viajou pela Europa nas campanhas militares do Rei João. Em 1330, ele é nomeado
cônego de Verdun, e de Arras em 1332. Em 1333 é nomeado cônego de Reims. Com a
morte do rei em 1346 na batalha de Crécy, passou a servir então a sua filha,
Bonne de Luxemburgo, assim como a Carlos, o Mau, rei de Navarra e ao duque de
Berry. Desfrutou da reputação de ser um dos maiores compositores e poetas do
seu tempo. Em 1359 luta na defesa de Reims sub o ataque de Eduardo III, e em
torno a 1362 apaixona-se pela jovem de 19 anos Péronne d'Armentiers, para quem
escreve o famoso poema Dit du Vergier.
Machaut morre em Reims, em 1377.
Machaut inicialmente compôs no estilo da Ars Antiquæ.
Contudo passou a adotar as inovações da Ars Novæ, após conhecer as teorias de
Philippe de Vitry. Como a utilização do compasso binário e o isorritmo. Seu
estilo é marcado por uma grande riqueza rítmica. Outro aspecto importante da
sua obra é o uso cada vez mais consciente das cadências das frases melódicas.
Machuat compôs músicas sacras e música secular para seus
poemas, inicialmente em estilo monofônico, seguindo a tradição de Adam de La Halle, e posteriormente em
estilo polifônico. Uma das suas obras mais famosas é Ma fin est mon commencement, que é uma das peças mais
representativas de seu gênio, onde o título esclarece sua construção, nessa
peça a três vozes a melodia da primeira voz é repetida na segunda voz só que em
sentido de espelho, ou seja, de trás para frente, a segunda voz inicia com a
última nota da primeira voz e segue em sentido invertido para nota inicial. Já
a terceira voz tem uma melodia diferente, mas que sofre o mesmo tratamento, ou
seja, na metade da peça ela passar a ser cantada de trás para frente. (Ma fin est mon commencement: https://www.youtube.com/watch?v=WLEmVxqye4g)
Machaut também foi o primeiro compositor a compor música
para todo o ordinário da missa, a famosa Missa Notre Dame.
Músicas: Missa de Notre Dame, 24 motetos, Hoquetus David
(hoqueto duplo), cerca de 42 baladas, cerca de 22 rondós, cerca de 33 virelais,
19 lais, 1 complainte, 1 chanson royal.
Poemas, crônicas e compilações: La Prise d'Alexandrie, Dit du
Vergier, Confort d'Ami, Fontaine Amoureuse, Remède de Fortune.
Obras importantes de Machaut incluem: De Toutes Flours, Le
Lay de Bonne Esperance, Douce Dame Jolie e Messe de Nostra Dame.
Técnicas de composição de Machaut
Hoquetus a palavra tem sua origem no
francês antigo hoquet, que significa choque, interrupção brusca, soluço.
Designa uma técnica de alternância rápida de notas, alturas e acordes, gerando
um ritmo entrecortado característico. Foi extensamente utilizada em melodias a
duas ou mais vozes polifônicas. Esta técnica foi usada na missa Notre Dame e no
Duplum Hoquetus David.
Isorritmo é a repetição regular de uma
figura rítmica como elemento unificador na construção da forma. Este método
usado desde o século XIII, ele não só era usado sobre o ritmo também em
desenhos melódicos, pois junto com a figura rítmica era associada uma linha
melódica, esta estrutura era chamada talea. Contudo, a talea não
necessariamente precisava repetir um fraseado de forma exata, algumas vezes
ocorriam variantes nas combinações de alturas e comprimentos das figuras
rítmicas. Esta técnica foi utilizada principalmente como cantus firmus, ou
seja, estava muitas vezes nas vozes graves, mas às vezes ela era estendida a
todas as vozes da textura polifônica. Este processo sistemático deixou de ser
utilizado como padrão no século XV, mas o Isorritmo continuou a ser usado de
forma mais livre por toda história da música.
Figura 4 Isorritmo
Figura 5 aplicação da Talea
Música
Sacra
A Missa
de Notre Dame tem um destaque especial dentre as obras de Machaut, ela inaugura
de uma nova era. Foi a primeira missa composta para quatro vozes (tenor,
contra-tenor, motetus e triplum) em estilo polifônico. Ela também foi a
primeira missa (e obra de grande escala) composta sobre todo ordinário por um
único compositor que temos registro. Ela inaugura a tradição de se compor obras
com uma identidade de estilo e temática. Antes a música das missas era
verdadeiras coletâneas de obras diversas, sem qualquer relação musical ou de
estilo entre elas, um exemplo deste costume é a Missa de Tournai.
Na missa, Machaut utiliza a polifonia para as
partes do Ordinário, enquanto nas partes do Próprio é usado o estilo monódico
gregoriano. Nas melodias da parte polifônica, ele dispõe de duas técnicas: A
primeira é a técnica do cantus firmus, onde o tenor canta notas longas enquanto
as outras vozes trabalham os melismas nos novas estruturas rítmicas acima e
abaixo da tessitura do tenor. A segunda, em estilo silábico, isto é, uma nota
para cada sílaba, todas as vozes cantam juntas o texto. Outra característica da
missa é sua adaptabilidade, ela foi composta para um dia de festa mariana, seja
ela: a Natividade, a Purificação, a Anunciação ou a Assunção, onde bastava
conservar o ordinário e adaptar o próprio para cada ocasião. Machaut utiliza em
toda a peça os chamados ritmos modais, e, lhe era necessário ouvir a música
para conseguir entendê-la e reelaborá-la. A missa é considerada a primeira
grande obra racional cíclica composta contrapontisticamente, isto é, foi a
primeira missa completa composta com a reexposição temática.
1.Intróito: parte do próprio,
cantochão em uníssono.
2.Kyrie: parte do ordinário,
polifonia cantus firmus.
3.Gloria: parte do ordinário,
polifonia silábica.
4.Gradual: parte do próprio,
cantochão em uníssono.
5.Aleluia: parte do próprio,
cantochão em uníssono.
6.Credo: parte do ordinário,
polifonia silábica.
7.Ofertório: parte do próprio,
cantochão em uníssono.
8.Prefácio: parte do próprio,
cantochão em uníssono.
9.Sanctus: parte do ordinário,
polifonia cantus firmus.
10.Agnus Dei: parte do ordinário,
polifonia cantus firmus.
11.Comunhão: parte do próprio,
cantochão em uníssono.
12.Ite, missa est: parte do
ordinário, cantochão em uníssono.
Música Secular
A música secular de Machaut se baseia em parte na
continuação da tradição dos trouvères.
Machaut fez uso das chamadas formas fixas. Entre elas, a mais largamente usadas
por ele foi a balada ou o viralai. Sua característica é a forma Abba, onde A é o refrão; b a
primeira estrofe que é repetida e finalmente a que é segunda estrofe. Em termos de música polifônica Machaut
compôs baladas para: duas; três ou quatro vozes. As baladas a duas vozes passam
a ser chamadas de baladas duplas. Tendo cada voz seu próprio texto, como por
exemplo: Quant theseus – Ne quier veoir (https://www.youtube.com/watch?v=T0vxVPyr-do). Outra forma utilizada por Machaut com grande destaque foi o Rondeau, assim como o viralai, os rondós
utilizavam apenas duas frases melódicas para musicar o texto, eram utilizadas
no seguinte esquema ABaAabAB (letras maiúsculas são os refrões) com na
misteriosa Ma fin est mon commencement.
Trecento Italiano e Landini
A
música do Trecento italiano (séc. XIV) guarda suas diferenças com aquela
produzida na França, Pois na Itália a música privilegiou os gêneros seculares.
Também o contexto social e político que a cercava divergiam do existente da
França. Enquanto a monarquia que unificava a França, na Itália as
cidades-estados conviviam animosamente e mantinham disputas turbulentas, e a
igreja não tinha tanta força como instituição, pois os principais Bispos,
Arcebispos e até os Papas eram eleitos ou faziam parte das famílias que
governavam as cidades-estado italianas, como por exemplo, os Bórgias.
Em
muitos aspectos os trovatori
italianos seguiram os passos dos seus iguais na França e produziram um grande
volume de canções a partir de materiais folclóricos, muitas delas eram
acompanhadas por dança e instrumentos. Contudo muito pouco desta música chegou
até nós, isso se deu pelo fato de esta música ser em grande parte improvisada.
Uma exceção foram as laudes monódicas
que eram músicas executadas nas procissões religiosas. Os principais centros de
produção musical eram Bolonha, Pádua, Modena, Perugia e principalmente
Florença, principal centro de cultura da Itália. Neste ambiente a música
polifônica era um requintado entretenimento da classe aristocrática.
Os
principais exemplos da música polifônica da Itália surgem a partir de 1330,
sendo uma de suas mais famosas fontes o códice Squarcialupi. Antes deste período pouco desta música foi
registrada.
A maior
parte da música se divide em três gêneros principais:
O
madrigal: escrito normalmente para duas vozes, eram baseados em textos com duas
ou três estrofes cada uma com três versos, todas as estrofes tinham a mesma
melodia, contudo no final surgia o ritornello
que era um par de versos adicionais com uma música diferente. Os temas eram
sempre idílicos, amorosos e satíricos. Este gênero se tornará o mais importante
da música secular no século seguinte.
A Caccia:
era uma música de expressão animada, sua forma poética era irregular, muitas
caccias tinham um ritornello. Suas
melodias tinham um estilo canônico, ou seja, a primeira voz iniciava a canção
com um trecho melódico que quando terminado era repetida na segunda voz
enquanto a primeira iniciava outro trecho melódico, assim os trechos eram
sobrepostos.
A
Ballata: era outra composição polifônica que surgiu após o madrigal e a caccia.
As ballatas que eram canções
monódicas do séc. XIII para dança.
Esta última se tornou famosa graças ao grande compositor e poeta italiano Francesco
Landini, ele foi conhecido em sua época como um poeta do nível de Machaut, e
teórico de renome. Compôs cerca de 90 ballatas para duas vozes e 42 para três,
ainda subsistem uma caccia de dez madrigais de sua autoria. Uma de suas
composições mais características é a ballata Non avrà ma’ pietà (https://www.youtube.com/watch?v=vzloIi9UtVU). Sua estrutura seguia o seguinte esquema, um
refrão de três versos chamado de Ripresa (A),
seguido de uma estrofe de dois versos que era repetida, esta estrofe tinha uma
melodia diferente do refrão e era chamada de Piedi (b), logo depois aparecia a volta (a) que era uma estrofe de três versos com a mesma melodia do
refrão,e finalmente a segunda ripresa:
Figura 6 estrutura da ballata de Landini
Inglaterra: Dunstable
No séc.
XIV a música produzida nas ilhas inglesas era muito admirada na França e nos
Países Baixos, isso graças às sutilezas que a diferenciavam da música do
continente. A tradição da música inglesa remonta o cantochão da liturgia sarum da catedral de Salisbury. Um dos
aspectos marcantes era a estreita relação entre música sacra e popular, isso
era um forte elemento de contraste com a música do continente.
A música
polifônica nas ilhas teve uma influencia inicial dos compositores de Notre
Dame, contudo logo foi desenvolvido um estilo próprio. A principal prova disso
é o uso comum de três vozes nas composições como conductus e motetes e a forma
musical chamada de moteto rondellus. A principal característica
desta ultima era a troca das melodias entre as vozes e dos textos entre as
vozes extremas. O moteto iniciava com uma introdução em estilo cânone e logo em
seguida se iniciava o rondellus, ou
seja, a troca entre as melodias.
Vejamos
o esquema feito a partir do moteto Fulget
coelestis cúria – O petre flos – Roma gaudet:
Figura 7
Outra
característica da música inglesa era Fauxbourdon
(em francês para baixo falso), esta técnica de harmonização era usada para
encadear as vozes por sucessões ter intervalos de terças e sextas. Numa forma
simples o fauxbourdon consiste de um tenor (baseado num cantus firmus) e duas
outras vozes (duplum e triplum respectivamente), onde muitas vezes uma ou as
duas vozes superiores se encontravam em intervalos de terça (duplum) e sexta
(triplum) em relação ao tenor. Esta técnica servia para evitar o tritono e a
monotonia nas melodias ou gerar uma cadência. Normalmente, apenas uma pequena
parte de uma composição emprega a técnica fauxbourdon. No trecho acima temos uma típica condução de Fauxbourdon.
Figura 8
John
Dunstable foi o principal compositor inglês do séc. XIV acreditasse que ele
esteve a serviço do Duque Bedford entre 1422 e 1435, e com ele combateu nos
exércitos ingleses que enfrentaram Joana d’Arc. São conhecidas cerca setenta
composições dele em vários gêneros polifônicos de sua época: missas, motetes
isorritmicos, canções seculares e obras a três vozes sobre textos sacros. Entre
seus motetes mais conhecidos são Quam
pulcra es e Veni Creatos Spiritus
composição a quatro vozes que combina o hino e a sequentia feitas sobre mesmo
texto. Dês suas composições seculares a
mais conhecida é O Rosa Bella esta
canção se tornou tão popular que foi usada como base para diversas outras obras,
incluindo obras de outros compositores como Ockeghem.
Figura 9 Quam pulcra es
Ducado
da Borgonha: Dufay
O
Ducado da Borgonha foi um dos estados mais importantes da Europa medieval,
independente entre 880 e 1482. Localizado norte e do leste da França, Bélgica a Holanda. Graças à sua riqueza e território
vasto, este ducado foi política e economicamente muito importante. Tecnicamente
vassalos do rei de França, os duques da Borgonha souberam conservar a
autonomia, manter uma política própria e ser suseranos de diversos condados e
senhorios, incluindo o condado da Borgonha.
No
final do séc. XV existiam por toda Europa as chamadas capelas, que eram grupos de músicos contratados por reis, papas,
príncipes, que por sua vez disputavam os serviços de músicos e compositores
eminentes. Os duques da Borgonha mantinham uma capela com um corpo de músicos e
compositores de grande notoriedade que forneciam qualidade ao serviço religioso
e também entretenimento a corte. O Duque Felipe, o bom, que governou entre 1419
e 1467, mantinha não só uma capela, mas também um grupo de menestréis de
diferentes nas nacionalidades, isso concedia a música do ducado a possibilidade
de esta sempre em contatos com diferentes estilos e gêneros.
A Escola da Borgonha é um termo usado
para indicar um grupo de compositores ativos na corte dos duques de Borgonha. Os principais nomes associados a
esta escola são: Guillaume Dufay , Gilles Binchois. A Escola da
Borgonha foi primeira fase do que viria se designar como a Escola Franco-Flamenga, a prática musical do Renascimento na Europa.
Compositores
da Escola da Borgonha deram uma atenção especial a música secular e suas
formas. As mais utilizadas foram: Rondeau, ballada, virelai e bergerette, todas
genericamente conhecidas como chansons.
Uma característica das Chansons era sua divisão binária com tercinas que às
vezes passavam de um compasso 3/4 para 6/8. Contudo os compositores borgonheses
continuaram a escrever suas Ballades
na forma comum aabC.
Delas o
Rondeau foi a mais popular, a maioria dos rondós eram escritas para três vozes,
os textos eras normalmente em francês, embora existam alguns em outras línguas.
Na maioria dos rondós, a voz mais alta (o superius
ou discantus) cantava o texto e as
demais vozes eram mais provavelmente tocadas por instrumentos.
A
maioria dos compositores também escreveu música sacra em latim. Eles
escreveram: missas e motetos e Magnificats.
Durante o período, a missa foi transformada através de diferentes formas de
escrita pelos compositores. Havia uma preocupação em unificar estilística e
tematicamente as partes do ordinário da missa, para isso foi largamente
utilizada técnica de motivo-principal, repetidos em ciclos sobre cantus firmus. Outras técnicas mais
conhecidas também eram utilizadas como: do isorrítmica e taleas nas missas; e
nos motetos a técnica empregada foi fauxbourdon para padronizar as cadências.
A
música instrumental para dançar largamente foi cultivada na corte de Borgonha.
Uma peculiaridade do estilo instrumental duques de Borgonha é que preferia por
instrumentos de muito volume sonoro como: trompetes, tambourins, charamelas,
gaitas de foles. As formas Instrumentais incluíam a danse basse ou bassadanza, que era uma dança cerimonial
em ritmo relativamente lento. Normalmente ela estava em compasso binário
subdividida em três tercinas (em notação moderna, 6 / 8), havia também as
danças rápidas como o tordion ou pas de brabant, executadas imediatamente a seguir da dança lenta.
Guillaume
Dufay
Guillaume
Dufay (5 de agosto de 1397, Beersel, atual Bélgica — 27 de novembro de 1474,
Cambrai, Bélgica), foi um compositor franco-flamengo, considerado o maior
músico da primeira metade do século XV e um dos nomes mais importantes do
período de transição da música medieval para a renascentista. Guillaume Dufay
representou a primeira geração da Escola franco-flamenga. Seu modelo de missa
polifônica, baseada no Cantus firmus, teve grande aceitação entre os músicos
até o final do século XVI.
Algumas das características de sua música foram
herdadas pelos músicos posteriores a ele, como a divisão das vozes em grupos em
suas composições: Discantus (soprano); Contratenor; Tenor, e mais adiante nas
chamadas missas cantus firmus, surge
o tenor-bassus uma voz mais grave abaixo do tenor. Outro aspecto era a
aplicação do fauxbourdon em cadências de finalização de forma sistemática,
tanto que se tornou uma marca registrada do compositor. Assimilou as técnicas
francesa, inglesa e italiana, gerando uma síntese surpreendente.
Criou o modelo
perfeito da missa polifônica construída sobre um Cantus firmus (tema litúrgico
ou profano que serve de base e fio condutor a toda composição), seu modelo que
foi praticado até o final do século XVI. Escreveu nove missas (entre as quais
Se la face ay pale, L'Homme armé caput, Ecce ancilla domini, Ave Regina
coelorum), 35 fragmentos de missas, 5 Magnificat, cerca de 80 motetos e hinos
(sagrados ou profanos), 75 canções polifônicas francesas.
Missa cantus firmus
É
importante saber que para os compositores do Ducado de Borgonha a forma da
missa era o principal canal de exposição de suas inovações musicais.
Os
compositores borgonheses desenvolveram um estilo de composição especifico para
música sacra, pois, sabemos que os estilos de composição de até então eram
utilizados tanto na música secular quanto sacra. O estilo criado pelos
borgonheses foi conhecido como missa cantus
firmus ou missa tenor. Nela uma
mesma melodia era usada em todas as partes da missa na voz do tenor. Concedendo
a obra uma unidade musical e estilística as obras. Outro aspecto é que muitas
vezes a melodia escolhida para o tenor não era reproduzida a risca, num
primeiro momento, a técnica consistia em apenas iniciar cada parte da missa com
o mesmo trecho melódico no tenor.
Num
período mais tardio em muitos casos a melodia servia apenas como fonte para
material temático para ser usada no tenor.
Até
1420 as partes da música do ordinário da missa eram composições independentes,
que muitas vezes não tinham qualquer relação musical ou estilística, elas eram
simplesmente compiladas por encarregado do serviço musical, até então a única
exceção foi a missa de Machaut.
Junto
ao uso de uma melodia como elemento unificador nas composições, os compositores
de Borgonha passaram utilizar uma nova voz greve abaixo do tenor, o Contra-tenor bassus. O tenor passou
então ser uma voz intermediaria. Já as duas vozes sobre ela (os antigos duplum
e triplum) passaram a se chamar de contra tenor altus e superius. Isso se deveu
a fato das experimentações feitas pelos compositores sobre as cadências
utilizando o fauxbourdon.
Ainda
sobre as melodias utilizadas no tenor elas poderiam ter sua origem no
repertorio do cantochão, quanto em melodias de músicas seculares. Um famoso
exemplo desta pratica é a Missa L’homme
Armé de Dufay, onde o tenor foi extraído da canção de mesmo nome.
Figura 10 Chanson L'homme arme
As chansons escolhidas para servirem de
tenor nas missas, normalmente eram bem conhecidas isso facilitava para o
compositor no momento do arranjo. A canção L’homme Armé foi fonte de varias
composições, quase todos os compositores escreveram numerosas missas escritas
sobre esta melodia, entre o fim do séc. XV e o inicio do séc. XVI, de Dufay a
Ockeghem e Palestrina.
A
melodia de L’homme Armé chegou até nós em varias versões, mas acreditasse que
era uma melodia monódica para ser cantada por um tenor. Sua melodia pouco
angulosa e métrica regular deviam ser aspectos atraentes para seu uso em tão
larga escala pelos compositores por mais de meio século.
Para
observamos um caso de uso, dividimos a melodia da canção em seis partes: A; B;
C; D e E. Assim podemos observa tanto cada trecho melódico que forma separada.
Na pagina a seguir temos os primeiros 29 compassos do Agnus Dei da missa L’homme
Armé de Dufay. Aqui o compositor reproduz de a melodia em sua integra.
Figura
11 Agnus Dei da Missa L'homme arme
História da música ocidental - Donald Jay Grout, Claude V. Palisca
Uma Breve História da Música - Roy Bennett
Masterpeices of music before 1750 - Carl Parrish
Music: The Definitive Visual History - Ian Blenkinsop
A Concise History of Western Music - Paul Griffiths
Harvard Dictionary of Music - Willi Apel
Se você quiser e puder colabore com o Parlatório Musical (LINK)
PS: Foda-se abnt