Neumas: a notação do cantochão


Imagem gerada com auxílio do modelo Banana .15 e Illuminare Score Editor.


Estudando a música de Arvo Pärt (ver postagem neste LINK) entrei numa “piração” medieval. Daí comecei a montar fichamentos sobre assuntos relacionados ao Cantochão. Aqui temos um fichamento sobre a teoria da escrita em neumas. As fontes que utilizei estão no final do texto.


👉Só um disclaimer: Inicialmente vou tratar de elementos históricos da construção da notação com neumas. Contudo, quando começar a tratar da escrita prática estarei utilizando a notação com os "neumas modernos" como aqueles usados no Solesmes Gradule ou Graduale Romanum (1974).


O Cantochão é um gênero musical exclusivamente vocal e inteiramente monofônico, esse é um dos vários fatores que determinam a identidade. O canto se resume a uma única linha melódica destinada a ser cantada sem acompanhamento e sem qualquer tipo de suporte harmônico. Essa melodia não apresenta grandes saltos melódicos ou ornamentações elaboradas, seu ritmo da melodia é subordinado às sílabas do texto litúrgico que por sua vez é recitado de forma paciente e clara. Esses aspectos se encaixam  perfeitamente à sua função litúrgica de música.



Visão Geral


Os manuscritos mais antigos - que chegaram a nós - para uso do coro continham exclusivamente os textos, as melodias faziam parte de uma tradição oral e precisavam ser decoradas e cantadas de memória. Com o tempo ocorreu uma aumento do repertório, a prática de transmissão tradicional tornou-se inviável para manutenção dos cantos. Para facilitar a memória dos cantores, foram introduzidos sinais sobre os textos. Esses sinais batizados como neumas, do grego neuma, que significa "gesto". Os neumas aparentemente se desenvolveram a partir de acentos gramaticais que indicavam a elevação e a queda da voz.



Introit para Dia da Ascenção - Fonte Gradual de  Bolonhês 


A origem da notação musical ocidental é complexa e os seus exemplos mais remotos datam do século IX. Inicialmente, a escrita não servia para indicar a altura exata das notas, ela era um post it para auxiliar a memória dos cantores que já conheciam as melodias de cor, a notação servia apenas para indicar detalhes sobre o fraseado, o ritmo e a dinâmica da execução.

Para entender a notação por neumas quatro conceitos são importantes:

Neuma: O termo deriva do grego neuma (gesto). Originalmente, referia-se a uma frase melódica ou a um melisma sem texto. Apenas mais tarde passou a designar o sinal escrito que representa um som ou grupo de sons.

Notação Adiastemática (ou não-diastemática): É a forma mais primitiva de notação, também chamada de "in campo aperto". Os sinais eram colocados sem linhas de referência, indicando a direção da melodia (se subia ou descia), mas não o tamanho exato dos intervalos.

Notação Diastemática: É a notação que indica a altura relativa ou exata dos sons através do posicionamento vertical dos sinais (altura posicionada), permitindo a leitura de intervalos.

Quironomia: Teoria que sugere que os primeiros neumas eram uma representação gráfica dos gestos manuais feitos pelo mestre do coro (cantor) para dirigir a execução musical.

Porém demorou muito para existir um padronização da notação. O que causava problemas no intercâmbio de obras ou até entre cantores de uma mesma localidade. Com as expansão do repertório foi necessário adotar padrões de escrita. Por exemplo, em alguns casos neumas diferentes eram usados sobre repetições de notas com a mesma altura, para evitar confusão do cantor ao ler, se passou a usar uma ou duas linhas para representar alturas específicas. Estas linhas geralmente não tinham significado fixo, normalmente uma letra no início da pauta indicava a nota que elas representavam. 

Gradualmente, as linhas passaram a indicar o dó central (c') ou a nota fá uma quinta abaixo. Essas indicações tornaram-se as mais comumente usadas. Uma curiosidade é que no início, as linhas eram desenhadas no pergaminho e com o desgaste do tempo, essas linhas passavam a ficar invisíveis para o cantor. Mais tarde, linhas passaram a ser desenhadas com tintas de cores diferentes: o vermelho para o fá e amarelo ou verde para o dó central (c'). 


O desenvolvimento da notação foi influenciado por diversos sistemas paralelos que guiavam a performance vocal como:

Acentos Prosódicos: Baseados na gramática grega clássica, utilizavam sinais como o acento agudo (oxeia), o grave (bareia) e o circunflexo (perispomene) para indicar a elevação ou queda da voz.

Pontuação: Sinais utilizados para marcar divisões sintáticas no texto (pausas curtas ou longas), esses serviram como catalisadores para os sinais de articulação musical.

Notação Ekphonética: Era um sistema especial de pontuação usado para guiar a entonação de textos litúrgicos, como lições e evangelhos, definindo fórmulas de recitação.

Principais Vertentes e Estilos Regionais

Em seu texto David Hiller aponta que diferentes centros europeus desenvolveram estilos próprios de escrita neumática antes da padronização:

Vertente Estilística Francesa e Germânica: Embora semelhantes, a notação francesa caracteriza-se por traços mais verticais, enquanto a germânica utiliza sinais mais inclinados. No sul da Alemanha e Suíça (ex: São Galo), a notação atingiu um elevado grau de sofisticação rítmica.

  • Notação de Laon (ou Messine): Desenvolvida no nordeste da França, é conhecida pela sua complexidade e pelo uso do uncinus (um pequeno gancho) para representar a nota simples.

  • Notação Aquitânia: Característica do sul da França, utiliza predominantemente pontos isolados para cada nota, sendo precursora na clareza do posicionamento da altura.

  • Notação Beneventana: Estilo italiano (região de Montecassino e Benevento) que utiliza traços grossos e angulares feitos com uma pena de ponta larga.

Evolução para a Pauta e a Notação Quadrada

A notação moderna como conhecemos tem seu ponto de partida no século XI através do trabalho de Guido d'Arezzo, que aperfeiçoou o uso de linhas (estaves) e claves. Ele sugeriu riscar o pergaminho e colorir as linhas de Fá (vermelho) e Dó (amarelo) para fixar as alturas de forma inequívoca.

É geralmente atribuída a Guido d'Arezzo (c. 1000-50) o uso da pauta de quatro linhas (tetragrama). Guido um dos teóricos musicais mais importantes da Idade Média e também inventou o sistema de sílabas de solmização — ut, re, mi, fa, sol, la — que permanece como um recurso de ensino até os dias atuais. A solmização possibilita a leitura do sistema de quatro pautas. O uso desses sistemas de aprendizagem e leitura foi que os cantores podiam ler e executar uma melodia que nunca haviam ouvido antes. 

Claro, não houve uma ruptura total com os sistemas anteriores ao de Guido, vários tipos mais antigos de notação continuaram em uso por vários séculos. 


Gradualmente, no entanto, a pauta de quatro linhas se tornou cada vez mais comum, e a forma dos neumas evoluiu para permitir sua colocação precisa nas linhas e nos espaços. Outro detalhe técnico que se tornou comum, foi a adoção dos neumas de formas quadradas, que eram uma notação regional do norte da França passaram a ser mais difundidos e utilizados, dessa forma, passaram a ser a base da notação moderna do canto-chão.


Tipos de Notação Primitiva: receberam nomes como oratória, sem pauta (staffless), não pontuada/sem altura definida (unheighted), in campo aperto (em campo aberto) e quironômica (dos gestos de mão do regente). Esses sistemas informam apenas o número de notas e se a linha melódica era ascende ou descende, mas não indicava a duração dos intervalos nem a nota inicial.


Os neumas diastemáticos ao contrário indicavam a altura e a direção dos intervalos pelo seu posicionamento vertical.


A partir do século XIII, a influência cultural de Paris levou à disseminação da notação quadrada (ou quadrática). Este sistema transformou os neumas em formas geométricas mais espessas (quadrados e losangos), facilitando a leitura por coros que passavam a cantar a partir de livros grandes em vez de dependerem exclusivamente da memória. Na Alemanha, este processo resultou na Hufnagelschrift (escrita em "prego de ferradura"), uma forma gótica de notação que persistiu por vários séculos.


Detalhes sobre os Neumas Diastématicos

A escrita de neumas diastemáticos (também chamados de neumas "em altura" ou heighted neumes) surgiu e desenvolveu-se entre os séculos IX e XI. Os neumas passaram a incorporar sinais utilizados na notação do cantochão para indicar a direção melódica, o número de notas e, em alguns casos, detalhes de execução e ritmo. Eles derivam originalmente dos acentos gramaticais (agudo e grave) que indicavam a direção tomada pela voz para o agudo ou o grave.

Escrita com neumas

Neumas Fundamentais (Notas Simples)


👀Os neumas fundamentais são os sinais básicos que representam uma única nota e servem como blocos de construção para todas as outras combinações melódicas. È sempre bom ter em mente que a palavra "neuma" deriva do grego neuma, que significa "gesto". Esses sinais primários eram originalmente lembretes visuais dos gestos das mãos do mestre do coro (quironomia) para indicar a direção da melodia.

Os tipos principais são:

Virga (/): Indica uma nota mais aguda em relação à nota anterior ou o ponto mais alto de um grupo melódico. Originou-se do acento agudo da gramática latina.

Punctum (• ou -): Indica uma nota mais grave. Sua origem remete ao acento grave, tendo sido reduzido a um ponto ou a uma pequena linha horizontal ao longo da evolução da escrita musical.

Forma de Losango (Diamante): Na notação quadrada, o punctum pode aparecer em formato de losango em padrões descendentes para economizar espaço, mantendo o mesmo valor das notas quadradas.

A partir da combinação destes dois neumas primários, formam-se neumas mais complexos, como o Podatus (grave-agudo) ou a Clivis (agudo-grave).

Notação dos Neuma


Vamos listar alguns elementos básicos para nos situarmos em relação a notação neumática

 e sua escrita.


Tetragrama (Pauta de 4 linhas): Utilizada para a notação musical do canto.

Punctum: Uma nota única e indivisível que possui o valor de tempo de uma batida.

Clave de Dó: Apresenta-se em 3 posições.

Clave de Fá: Apresenta-se em 2 posições.


Tons e Semitons: Exibe a escala do, re, mi, fa, sol, la, ti, do e la, te, do com intervalos indicados por tom (W) e semitom (H). 


O único bemol no canto gregoriano é o te.


Dó Móvel versus Dó Fixo: No canto gregoriano, as alturas nunca são fixas como na música moderna. A atribuição de uma altura ao dó é determinada exclusivamente pela extensão da melodia e das vozes. Esse sistema é comumente conhecido como "dó móvel".


O termo nota ictica determina uma nota acentuada na melodia ou uma sílaba forte no texto.


Barras de compasso: Compreendem a barra menor (quarter bar), a meia barra (half bar), a barra inteira (full bar) e a barra dupla (double bar).


Respiração: Assim como em toda música coral, a respiração deve ser cuidadosamente considerada e planejada. Uma "respiração coral" ocorre quando todos os cantores respiram ao mesmo tempo. No cantochão não há respiração coral perceptível em nenhum lugar, exceto na meia barra, na barra inteira e na barra dupla. Nenhuma respiração é feita na barra menor (¼ barra).


Custos: Uma nota curta no final da pauta que indica qual será a primeira nota na linha seguinte.


👀Observações: 

1. irei utilizar a colcheia como unidade de tempo ou batida nas transcrições dos exemplos.

2. Irei usar a clave de Dó na terceira linha para as transcrições.


Punctum Pontuado: Uma nota longa de duas batidas onde a primeira nota é sempre ictica, e a segunda batida é cantada suavemente.

Silabas e neumas

Cada neuma está ligado a uma sibala de uma palavra. Contudo, temos que ter em mente que um neuma não é apenas a indicação uma nota (ou altura), ele também indica um movimento melódico que pode se compostos por duas ou mais notas.

Podemos usar um neuma para cada silaba do texto, no caso o neuma irá indicar uma altura.

Podemos usar uma neuma para representar uma movimento melódico onde temos duas ou mais alturas para cada silaba do texto.



Neumas de Duas Notas

Podatus ou Pes: Neuma ascendente em que a nota inferior é cantada primeiro. A primeira nota é ictica, e a segunda nota superior é suavizada.

Clivis ou Flexa: Neuma descendente onde a primeira nota é ictica.

Neumas de Três Notas

Torculus: Três notas em que a do meio é a mais aguda (grave-aguda-grave). O neuma funciona com um movimento ascendente entre a primeira e a segunda nota e depois um movimento descendente até a terceira nota, sendo a primeira nota ictica.

Porrectus: Três notas em que a do meio é a mais grave (aguda-grave-aguda). O neuma de três notas onde a linha curva representa duas notas, a primeira nota desce até a segunda nota e depois sobe para a última nota, sendo a primeira nota ictica.

Scandicus: Grupo de três ou mais notas em ordem ascendente, onde a primeira nota ascendente de três notas onde a primeira nota é ictica.

Climacus: Grupo de três ou mais notas em ordem descendente. No neuma a primeira nota é chamada virga é ictica, já a segunda notas em forma de diamante é chamada rombo (rhombus), possui o mesmo valor de tempo que um punctum.

Salicus: Neuma ascendente de três notas em que a segunda nota (um oriscus) recebe o acento ou ictus. Semelhante ao scandicus, exceto pelo ictus na segunda nota, que é sempre impresso neste neuma. A nota ictica é cantada expressivamente.

Neumas Especiais e Ornamentais

Estes sinais indicavam sutilezas na produção vocal que nem sempre são traduzíveis para a notação moderna:

Liquescentes: Neumas que terminam com uma nota descedente, usados em ditongos ou consoantes duplas para facilitar a enunciação clara do texto. Exemplos incluem o Epiphonus (podatus liquescente), o Cephalicus (clivis liquescente) e o Ancus (climacus liquescente).

Estróficos: Notas repetidas na mesma altura sobre uma única sílaba, indicando originalmente uma "repercussão" da voz. Incluem a Bistropha (duas notas) e a Tristropha (três notas).

Bistropha: Uma nota longa composta por duas batidas onde a primeira nota é sempre ictica, e a bistropha é cantada com um leve crescendo.


Tristropha: Uma nota longa composta por três batidas onde a primeira nota é sempre ictica, e a tristropha é cantada com um amplo crescendo.

Quilisma: Uma nota ondulada ou serrilhada, geralmente colocada entre duas notas separadas por um intervalo de terça ascendente. Indica um ornamento vocal leve, como um trêmulo ou trinado. A nota serrilhada possui o valor de um punctum. A nota anterior à nota serrilhada é ictica e é cantada expressivamente.

Oriscus: É uma nota que geralmente se junta ao final de um neuma na mesma altura da nota anterior; seu significado exato é debatido, podendo indicar uma nota sustentada ou um efeito vocal específico.

Pressus: Encontro em uníssono de duas notas (pertencentes a neumas diferentes ou sinais isolados) sobre a mesma sílaba, resultando em uma nota de duração dupla. Nesse neuma nota longa de duas batidas formada quando a última nota de um neuma se repete na primeira nota do neuma seguinte. A primeira nota do pressus sempre recebe o ictus. O pressus é cantado de forma firme por duas batidas, sem diminuendo.

Episema: Uma linha horizontal acima ou abaixo de um neuma, sendo um sinal que indica ao cantor para executar o neuma com expressão.


Solmização

A Solmização é um sistema de sílabas mnemónicas introduzido por Guido d'Arezzo no século XI para facilitar o ensino do canto gregoriano e permitir que os cantores aprendessem novas melodias de forma autónoma através da leitura da notação, em vez de dependerem apenas da transmissão via tradição oral e da memorização por ouvido.

Guido defendeu que o método e o uso da pauta musical, era possível formar um cantor em um ou dois anos, uma tarefa que anteriormente exigia cerca de dez anos de estudo.

Como Funciona a Solmização

O sistema funciona através da associação de sílabas específicas a padrões fixos de intervalos musicais:

As Sílabas e a sua Origem: Guido utilizou as sílabas iniciais das primeiras seis frases do hino Ut queant laxis: ut, re, mi, fa, sol, la.

O Papel do Semitom: A principal função destas sílabas era ajudar o cantor a localizar os semitons. No sistema de Guido, a distância entre as sílabas é sempre de um tom inteiro, exceto entre mi e fa, que representa sempre um semitom (meio tom).

O Sistema de Hexacordes: As sílabas são organizadas em grupos de seis notas chamados hexacordes. O conjunto total de notas disponíveis na época (o gamut) era concebido como uma série de sete hexacordes interligados que podiam ser de três tipos:

Natural: Começa em Dó (C) e não contém a nota Si.

Duro (Durum): Começa em Sol (G) e utiliza o Si natural (simbolizado por um "b quadrado").

Mole (Molle): Começa em Fá (F) e utiliza o Si bemol (simbolizado por um "b redondo") para garantir que o semitom ocorra entre mi e fa.

Mutação (Mutatio): Quando uma melodia excede a extensão de seis notas de um único hexacorde, o cantor deve realizar uma mutação. Este processo consiste em utilizar uma nota que seja comum a dois hexacordes como um "pivô", mudando a sílaba associada a essa nota para transitar de um hexacorde para o outro.

Guido d'Arezzo adota o hino a São João Batista (conhecido como Ut queant laxis) para facilitar o ensino do canto das sílabas de solmização. O texto do hino é atribuído a Paulo, o Diácono. Guido notou que as primeiras seis frases da melodia deste hino começavam, cada uma, em uma nota sucessivamente mais alta da escala (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá). Ele utilizou as sílabas iniciais de cada uma dessas frases para dar nome aos degraus da escala:

  1. Ut (Ut queant laxis)

  2. Re (Resonare fibris)

  3. Mi (Mira gestorum)

  4. Fa (Famuli tuorum)

  5. Sol (Solve polluti)

  6. La (Labii reatum)

O objetivo era fornecer aos cantores um ponto de referência tonal fixo. Ao memorizar a melodia do hino, o estudante fixava na mente os intervalos entre as sílabas. Isso permitia que, ao ver uma nova melodia escrita, ele pudesse identificar os tons e, crucialmente, a localização do semitom (que no sistema de hexacordes ocorre sempre entre as sílabas mi e fá).

👂Ouça Ut queant laxis

Essas seis notas formavam a estrutura básica do sistema de hexacordes. Como o hino a São João permanece dentro de um único hexacorde, ele servia como o modelo perfeito para os iniciantes aprenderem a ler música sem depender da memorização puramente auditiva.
Imagem gerada com auxílio do modelo Banana .15.

Auxílio Mnemônico: A Mão Guidoniana

Para auxiliar os estudantes a memorizar a estrutura dos hexacordes e as notas do sistema (gamut), os seguidores de Guido desenvolveram a Mão Guidoniana. Nesta técnica, cada junta e ponta dos dedos da mão esquerda representa uma nota específica; o professor apontava para uma posição na mão e o aluno devia cantar a sílaba e o intervalo correspondentes.

A Mão Guidoniana era um recurso pedagógico e mnemônico fundamental utilizado para ajudar os estudantes a memorizar e localizar as notas do sistema de hexacordes (o gamut).

Eis como ela funcionava e ajudava na memorização:

  • Mapeamento Físico das Notas: Cada articulação (junta) e a ponta dos dedos da mão esquerda aberta representavam uma das vinte notas do sistema musical da época.

  • Organização em Espiral: As notas eram dispostas numa espiral no sentido anti-horário, começando na ponta do polegar com a nota mais grave (gamma ut), descendo pelo polegar, atravessando a base dos dedos, subindo pelo dedo mindinho, passando pelas pontas dos dedos e terminando na articulação média do dedo médio.

  • Prática de Canto à Vista: O professor apontava com o dedo indicador da mão direita para diferentes juntas da mão esquerda, e os alunos deviam cantar os intervalos ou sílabas de solmização correspondentes. Isso transformava a teoria abstrata num guia visual e tátil imediato.

  • Localização de Semitons: A mão era especialmente útil para localizar os semitons (mi-fa), que são os intervalos mais críticos no canto. No mapa da mão, estes intervalos ficavam posicionados nos "cantos" (como entre a base do polegar e o indicador), facilitando a sua identificação visual e mental.

  • Auxílio na Mutação: Para melodias que excedem a extensão de seis notas, a mão ajudava os cantores a realizar a mutação, identificando juntas que representavam notas comuns a dois hexacordes diferentes, servindo como "pivôs" para mudar de um hexacorde para outro.

Brilha, brilha estrelinha

A notação com neumas é fascinante por sua elegância e capacidade de capturar o espírito de um gênero musical tão rico como o cantochão e seus desdobramentos como o canto gregoriano. Porém, essa relação umbilical também traz suas “limitações”. Os neumas apesar de terem sido usados pelos trovadores do século XII, não se mostram muito funcionais para o registro de outros gêneros musicais modernos. Contudo, seu entendimento é necessário para quem estuda a música do alto medievo ou é simplesmente um apreciador da cultura e manifestações artísticas do período. E posso adicionar que é divertido tentar usar os neumas para transcrição de melodias simples como temos a de “Brilha, brilha estrelinha” logo acima.

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Fontes:

Western Plainchant a Handbook - David Hiller. Clarendon Press (1993).

A History of Musical Style - Richard Crocker. Mcgraw-Hills (1966)

Canto Gregoriano: Segundo Princípios de Solesmes. Centro de Estudos Gregorianos Lisboa (1960)

New Oxford History of Music: Early Medieval Music up to 1300 Vol.2 (1990)

A History of Western Music. Peter Burkhold, Donald Grout, Claude Palisca (2014)

Graduale Romanum LINK

Manual do editor GABC Notation LINK

Exemplos gerados com o Illuminare Score Editor LINK


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