Quem são esses 4 acordes?
Uma sequência de quatro acordes (4-chords) é onipresente música popular. Com certeza em algum momento tocando um instrumento ou ouvindo música você deu de cara um sequência formada por C (dó), G (sol), Am (lá menor) e F (fá) na escala de dó maior (ou variações em outras tonalidades).
Essa progressão harmônica é utilizada na música popular ocidental praticamente nos últimos cem anos. Assim, a "progressão de quatro acordes“ é um “arroz de festa” encontrada em centenas canções populares de diversos gêneros e épocas compartilhem a mesma estrutura de acordes sem que o público perceba a repetição de imediato. Os quatro graus que compõem a sequência podem ser usados em diversas ordem. Sendo a progressão I-V-vi-IV a mais comum.
Na teoria musical essa sequência harmônica é composta pelos acordes formados pelo I, V, vi e IV graus de qualquer escala maior.
Alguns aspectos a tornaram tão popular entre os músicos:
1. É uma progressão simples e os são acordes básicos;
2. É versátil e pode ser aplicada em diversos gêneros;
3. Suas variações de qualquer ordem também são funcionais;
4. É possível com os mesmos acordes compor tanto numa tonalidade Maior quanto em na sua relativa menor.
Outras razões acústicas e psicológica que mantém a atenção do ouvinte:
1. Equilíbrio e tensão: a transição do acorde I para o V gera um movimento natural, o vi traz uma nuance menor e o IV cria o gancho necessário para retornar ao ponto de partida.
2. Facilidade para melodias: a consonância desses quatro acordes facilita o encaixe de melodias vocais marcantes e memoráveis.
3. Familiaridade do ouvinte: o cérebro reconhece o padrão com facilidade, tornando a música intuitiva desde a primeira escuta.
O uso dessa sequência é difundido. Com a sequência de 4 acordes é possível produzir trechos e até canções inteiras tão diversas entre si que às vezes é difícil imaginar seu esgotamento.
Um pouco de teoria
Bom, vou utilizar exemplos em Dó Maior e Lá menor para facilitar a observação. Na teoria funcional (para uma introdução a Harmonia Funcional acesse a postagem LINK) podemos classificar os acordes da 4-chords com seguintes graus:
Tonalidade Maior:
1. I (Tônica): C acorde maior (C E G)
2. V (Dominante): G acorde maior (G B D)
3. vi (Submediante): A acorde menor (A C E)
4. IV (Subdominante): F acorde maior (F A C)
Tonalidade Menor:
1. i Am (Tônica): A acorde menor (A C E)
2. V E (Dominante): E acorde maior (E G# B)
3. VI F (Submediante): F acorde maior (F A C)
4. iv Dm (Subdominante): D acorde menor (D F A)
Relativa modal (Eólio) de Tonalidade Maior:
1. i Am (Tônica): A acorde menor (A C E)
2. III C (Mediante): D acorde menor (C E G)
3. VI F (Subdominante): F acorde maior (F A C)
4. VII G (Subtônica): E acorde maior (G B D)
Um exemplo da versatilidade da SA4 é que podemos utilizar os acordes da tonalidade menor para compor utilizando o modo eólio que equivale a relativa menor natural de uma tonalidade maior.
Relações internas
O que torna a 4-chords tão funcional são os vários tipos de relações harmônicas, melódicas e funcionais que ligam os acordes que a compõem.
Analisando pela perspectiva da harmonia funcional podemos observar que dentro da AS4 temos as três funções que são a base sobre a qual está a tonalidade: Tônica, Dominante e a Subdominante. E também o acorde que acumula as funções de Tônica da relativa (Tr) menor natural da Tônica da tonalidade maior, também anti-relativa da Subdominante (Sa) e Subdominante relativa da Dominante (Sr).
Todos os caminhos levam a todos os caminhos! As funções dos acordes estão intimamente ligadas e a transição entre eles soa natural.
Outro aspecto das relações está ligado à clareza do “jogo” de tensão e relaxamento, distanciamento e proximidade entre os acordes. Isso ocorre por causa da existência de notas comuns ou não na estrutura dos acordes. Notem o grau de proximidade entre as “duplas” [F – Am] e [C – Am] e a distância entre F e Am de G. Mas todos conectados a C. Esse aspecto ajuda na construção melódica e toda a execução desses acordes muito simples e natural (experimente tocar em uma teclado!).
Variações da 4-chords
Uma variação famosa variação do A4S é a doo-wop progression ou 50’s Progression
( I – vi – IV – V )
Transposições da 4-chords acordes nas doze tonalidades maiores
Curiosidade histórica
Lembrando peças de Música antiga (renascimento tardio e/ou barroco inicial) que estudei a anos atrás observei uma coisa curiosa. Duas progressões comuns em canções e peças para cordas dedilhadas do período: a Romanesca e Passamezzo Antico, guardam semelhanças com a 4-chords menor modal e Menor, mas numa espécie de mistura de elementos das duas.
Analisando as duas progressões da música antiga observamos o uso basicamente dos graus que compõem a 4-chords modal (i. III, VI, VII) com a adição da dominante da 4-chords Menor (V).
Claro que há um (alto) grau de conjectura nessa análise. Mas gosto de fazer esse paralelo baseado no seguinte fato: da mesma forma que nos último (quase) cem anos podemos encontrar a 4-chords e suas variações, reproduzida e diluídas dentro de uma imensa gama de música popular, o mesmo ocorreu com a Romanesca e Passamezzo em seus períodos históricos e estéticos.
Então por que não fazer essa relação? E quem quiser fazer tese que faça... Eu fico só na observação.
Dicas:
Você não precisa necessariamente usar sempre os quatro acordes do 4-chords de uma única vez. Você pode usar dois ou três em uma estrofe numa determinada ordem e no refrão usar os quatro numa outra ordem
O 4-chords é uma excelente ferramenta que pode ser usada em diferentes situações:
1. Para iniciar uma composição;
2. Resolver uma passagem (ponte ou intermezzo);
3. Pode servir para ”curar uma trava criativa”;
4. Quando se necessita de uma composição rápida.
Para finalizar só algumas palavras
Usar uma fórmula consagrada para compor não significa que a música terá menor “valor”. Por alguns motivos:
1. O “valor” estético na música popular é relativo. O depende muito do contexto onde a obra está sendo produzida. Ou seja, não adianta pirar querendo agradar demais, afinal, temos aspectos que em um determinado gênero são valorizados, já em outros gêneros esses mesmo aspectos podem ser ignorados e, às vezes, até evitados.
2. Fórmulas composicionais são algo que sempre existiu nos mais diversos gêneros e épocas de J. S. Bach a Coltrane ou de Robert Johnson a Mozart todos usaram fórmulas de forma consciente ou intuitiva.
3. O mais importante a composição é sua!
Adendo
Exemplos de Canções Famosas com a sequência 4-chords:
Let It Be (The Beatles)
Don't Stop Believin' (Journey)
With or Without You (U2)
She Will Be Loved (Maroon 5)
Someone Like You (Adele)
I'm Yours (Jason Mraz)
Perfect (Ed Sheeran)
Despacito (Luis Fonsi)
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