Olá pessoal, esse material foi uma capitulo que escrevi, mas não incluir na minha dissertação (2006). O que trouxe aqui é o rascunho do texto.
Influências de Debussy: O Impressionismo e Simbolismo.
O termo impressionista foi
empregado – em um sentido um tanto pejorativo – na música de Debussy pela
primeira vez em 1887, em um relatório da Academia de Belas Artes. O texto
tratava do trabalho referente a seu “décimo envio romano”, ou seja, a suíte Printemps para vozes femininas e
orquestra. Apesar da contrariedade do compositor em relação ao emprego deste
termo para designar sua música, ele passou com o tempo a ser praticamente um
sinônimo da obra do mestre francês. A relação de Debussy e os pintores
impressionistas e os poetas/escritores era estreita, e este convívio sem dúvida
influenciou em muito sua obra, sobre isso escreve Emile Vuillermoz:
[Debussy] estava milagrosamente de acordo
com o diapasão dos pintores excitados pelas conquistas progressivas da luz,
considera como o elemento dominante de sua linguagem. Essa conquista levara-os
ao emprego da ‘microestrutura’. Debussy, instintivamente praticaria como eles
todas as formas da fragmentação, do retalhamento, da decomposição dos sons e
dos timbres, pois seu gosto pelo ‘quarteto dividido’ e pelas surdinas responde
a mesma necessidade pictórica de irisação[1].
E
reforça o critico francês Camille Mauclair:
As paisagens de Claude Monet são de fato
sinfonias de ondas luminosas, e a música de monsier Debussy, baseada não na
sucessão de temas, mas nos relativos valores do som por si próprios, portam
notável semelhança com aquelas pinturas[2].
Assim o entendimento de muitos aspectos da música de Debussy passa pelo
conhecimento do que foi o movimento impressionista na arte plástica francesa.
O termo Impressionismo surge na
Arte de forma controversa. Numa exposição jovem pintores na Paris de 1874, o
crítico Louis Leroy (1812-1885) do "Charivari", publicação
política, literária e satírica popular, que fora “cobrir” a exposição dos
chamados “recusados”, escreveu: “Selvagens obstinados, não querem por preguiça
ou incapacidade terminar seus quadros. Contentam-se com uns borrões que
representam suas impressões. Que farsantes! Impressionistas!”. O termo é uma
clara referência à tela "Impressão: Nascer do Sol", de Claude Monet,
assim batizada por Edmond Renoir, irmão do pintor Auguste Renoir. Surge
assim o nome do movimento Impressionismo, inicialmente pejorativo, contudo, o
termo não é de todo equivocado. O Impressionismo se propõe a manifestar na
pintura o sentimento imediato e mutável, ao invés de representar uma paisagem perene.
O Impressionismo surgiu na França no
século XIX trazendo consigo uma nova representação da natureza, baseada na
impressão subjetiva, nos aspectos fugazes e efêmeros do cotidiano. O
Impressionismo não é um estilo “intelectual”, de acordo com Serullaz ele se
relaciona com os “efeitos mais ou menos pronunciados que a ação dos objetos
exteriores produz sobre os órgãos dos
sentidos”, em outras palavras, ele não diz, apenas insinua. Nele temos a
prioridade pela representação do fugaz, através da tentativa de reprodução da
variação da luz, da apreensão da natureza cambiante, da gravação da impressão
fugitiva, dos gestos espontâneos da natureza, como a vibração da luz, o reflexo
e os elementos fluidos, como a água e os gases. Por esta leveza e pela natureza
frugal representada nas obras, o Impressionismo tornou-se tão popular e de
apreensão tão natural por parte do público moderno.
Os pintores
Impressionistas utilizam pinceladas sutis, valorizando a luz, o movimento, como
também os contrastes da natureza que reflete a luminosidade, em suas
transparências luminosas e claridades das cores. Para isso os artistas
recorriam à pintura ao ar livre, assim possibilitando a capturar as nuances da
luz e da natureza. Apesar de não se aterem a nenhum preceito estético ou modelo
formal, podemos verificar algumas caracteríscas
gerais na pintura impressionista[3]:
- As tonalidades que
os objetos adquirem ao refletir a luz do sol num determinado momento, pois
as cores da natureza mudam constantemente, dependendo da incidência da luz
do sol.
- As figuras não
devem ter contornos nítidos.
- As sombras devem
ser luminosas e coloridas, tal como é a impressão visual que nos causam.
- Os contrastes de
luz e sombra devem ser obtidos de acordo com a lei das cores complementares.
Assim um amarelo próximo a um violeta produz um efeito mais real do que um
claro-escuro muito utilizado pelos academicistas no passado.
- As cores e
tonalidades não devem ser misturadas e, sim, puras.
Os impressionistas tentaram provar
que não existe cor imutável. Para alcançar os efeitos do brilho da luz,
utilizaram fortes traços de pura cor[4], a mixagem de várias
tonalidades de uma mesma cor, a sobreposição de diversas cores puras, deixando
de lado os contrastes violentos e as cores escuras como o preto e o marrom, refletindo
nas telas as variações e os efeitos que a luz do sol produz nas cores da
natureza, somando a isso, mudanças nos ângulos da luminosidade sugerindo a
alteração de cores e tonalidades.
Outra novidade da pintura
Impressionista é o enfraquecimento do sentido temático. Ela agora não reflete
uma única idéia que é desenvolvida, sua composição passa a ter vários elementos
interligados a um motivo, que não necessita de um desenvolvimento, ele tem seu
sentido em si, um exemplo disso são as representações de momentos da vida
cotidiana, como passeios, parques, paisagem naturais.
A arte Impressionista,
apesar da brevidade, foi de imensa influência sobre o pensamento artístico
moderno. Suas “continuações”, Neo-Impressionismo e Pós-Impressionismo,
revelaram artistas do porte de Paul Signac e Georges Seurat entre os
Neo-Impressionistas, e Paul
Cézanne, Paul Galguin e Van Gogh entre os Pós-Impressionistas. Como também encontrou ecos na literatura, com
o simbolismo, e na música, com Debussy.
Mesmo
sendo um elemento externo ao movimento impressionista, Katsushika Hokusai (1760-1849)
foi outro artista plástico que causou uma forte impressão sobre aqueles
artistas e também sobre Debussy. Hokusai
foi pintor, gravador e ilustrador de livros, um dos grandes mestres da gravura japonesa
(particularmente da escola ukiyo-e), e também considerado um gênio criador e inovador. Interessado em todos os aspectos da vida, da
natureza, seu traço preciso e leve, contudo carregado de uma expressividade
silenciosa e sutil, como também livre do rigor realista ocidental, exerceu
grande influência sobre artistas como Van Gogh, Degas
e Toulouse-Lautrec.
Tão forte foi a impressão destes aspectos de sua obra sobre Debussy, que temos
sua célebre gravura a “A Grande Onda Kanogawa” como capa da edição de La Mer.
Outro artista plástico que
causou forte impressão a Debussy foi Joseph Turner. Sua pintura de paisagens
carregadas de paixão, energia, força, transmitiam uma emoção extrema e foi
considerado o ponto culminante da paisagem romântica. Mas provavelmente o laço
de ligação entre Debussy e Turner, foi a preocupação do pintor com os efeitos
da cor como elemento expressivo, Debussy se referia a ele como “O elegante
criador de uma arte misteriosa”.
Simbolismo.
A poesia Simbolista foi uma das grandes
influências extra-musicais de Debussy. Inspirado por suas caracteristicas
expontâneas, como também exotismo, misticismo, Debussy refinou seu senso
expressivo. Movimento poético e literário ligado principalmente à personalidade
do poeta francês Charles Baudelaire, autor de "As Flores
do Mal", de 1857,
teve entre seus expoentes nomes como Paul Verlaine,
Arthur
Rimbaud e Stéphane Mallarmé na poesia, Maeterlinck no
teatro e Edgar Allan Poe na prosa, a influência destes autores foi tão forte
sobre a poética criadora de Debussy, que a cada um destes autores citados (a
exceção de Rimbaud) ou tiveram suas poesias musicadas (Baudelaire e Verlaine),
ou foram de inspiração para sua música (Mallarmé), entre eles talvez seja
Maeterlinck o mais importante, pois ele foi o autor do texto de Pelleas et Melisande, que foi o ponto de
partida para a obra capital da música de Debussy.
O movimento Simbolista surge na França no final do século XIX, sendo inicialmente rotulado com o nome
decadentismo, substituído por simbolismo em um manifesto publicado em 1886, como
uma reação ao Positivismo advindo da sociedade industrial européia,
impulsionando as correntes de pensamento cientificistas e materialistas. Os
Simbolistas desejavam valorizar o intuitivo sobre o lógico científico, ou seja,
sobrepor o subjetivismo em relação à objetividade científica, o misticismo
sobre o materialismo. O símbolo, como elemento literário, sempre esteve
presente na cultura ocidental, contudo, como elemento complementar da linguagem
literária, como o Simbolismo, a idéia do símbolo passa a ser a linguagem em si. O Simbolismo
também é visto como uma contraposição às estéticas
Realista/Naturalista/Parnasiana. A
estética Simbolista traz o retorno do subjetivismo romântico, personificado no
predomínio do "eu", da imaginação e da emoção, espiritualismo e
religiosidade.
As temáticas simbolistas estão em grande parte
realcionadas aos elementos místicos e espirituais. O carater alegórico da
poesia Simbolista exigia para si uma linguagem diferenciada da poesia corrente,
assim sinestesia, aliterações e assonâncias se tornaram recussos poéticos importantes, trazendo
para os textos poéticos simbolistas uma imensa musicalidade, algo que pode ter
interessado imensamente a Debussy.
Algumas características
gerais do simbolista são: a linguagem subjetiva e vaga, fluida, que favorece a
sugestão em detrimento à afirmação; uso de substantivos abstratos, efêmeros,
vagos e imprecisos; uso de elementos da linguagem como metáforas, comparações,
aliterações, assonâncias, paronomásias, sinestesias; gosto
pelo noturno, mistério e morte, impulsionado pelo apreço do mistério, misticismo,
oculto e fantasmagórico e seus efeitos sobre o subconsciente humano; pessimismo,
dor de existir; anseio de transcendência da matéria, libertando-a o espírito.
Rapidamente podemos citar alguns aspectos da arte pictórica do
impressionismo comutados em música por Debussy. Ver a tabela abaixo:
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Pintura Impressionista.
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Música de Debussy.
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Abandono do “tema central” a
ser desenvolvido nas obras, em seu lugar as obras representam eventos fortuitos
do cotidiano.
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Debussy também abandona a
construção temática sinfônica, ao invés disto, temos o uso de motivos curtos
sem desenvolvimento nos moldes tradicionais.
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Abandono dos contrastes
acentuados entre cores e texturas.
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Debussy também segue o mesmo princípio
com os timbres instrumentais e texturas.
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Sobreposições de cores sobre
tonalidades claras e leves.
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A mixagem entre os naipes
dentro de texturas claras.
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Abandono da patela de cores
escuras, sombras devem ser claras.
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Debussy evita o uso de sonoridades
unicamente escuras em sua orquestração. Os planos de fundo são sempre
compostos com texturas leves e uma contínua variação no colorido orquestral.
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O abandono do desenho
geométrico e delineação clara das formas. Preferência pelo traço subliminal.
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Aspecto importante para o
entendimento de várias transformações efetuadas por Debussy em muitos
aspectos da música, como a utilização de acordes sem função tonal e a
flexibilidade de sua construção rítmica e formal.
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Tabela. 1.
Plano de Distribuição dos Timbres
Com o objetivo
de obter mais uma maneira de observação da distribuição instrumental adaptamos
o esquema de cores de Delacroix, que temos abaixo, elaboramos um plano
semelhante substituindo as cores pelo os grupos instrumentais. Sendo as cores
primárias representadas pelos grupos instrumentais standart da orquestra (Madeiras; Cordas; Metais) e as cores
derivadas pelos grupos instrumentais mistos (ex. Cordas e Corne Inglês). Neste
plano novamente podemos observar que Debussy elabora uma distribuição bem
definida de timbres dentro de sua instrumentação.
Figura. Esquema de distribuição das cores elaborado
por Delacroix.
Figura. Nossa adaptação do esquema de distribuição das
cores.


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