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Seguindo com os textos de fichamentos para um artigo que nunca será escrito. Hoje temos os fichamentos dos livros Audio-Vision: Sound on Screen e Film a Sound Art de Michel Chion, que são obras fundamentais sobre a relação entre o som e a imagem no cinema. Para Chion o áudio não é um mero acompanhante do visual, mas um elemento que transforma radicalmente a nossa percepção através do conceito de valor acrescentado.
Na sua análise, Chion discute como o som influencia a temporalidade e o movimento, dando ritmo e linearidade a imagens que sem o som poderiam parecer estáticas ou ambíguas. O autor define três modos de escuta: causal, semântica e reduzida para explicar como interpretamos os estímulos sonoros em diferentes contextos.
Além disso, o texto traz conceitos técnicos como sincrese e efeito anempatia, ilustrando como o som pode intensificar emoções ou sublinhar a natureza mecânica do filme. Por fim, Chion argumenta que não existe uma "banda sonora" autônoma, mas sim uma interação entre o que é visto e ouvido.
👀Conceitos da Relação Áudio-Visão
👉Valor Adicionado (Added Value): cria a ilusão espontânea de que essa informação ou expressão provém "naturalmente" daquilo que se está a ver. Esta ilusão faz com que o espectador sinta que o som é redundante e desnecessário, quando na realidade é o próprio som que projeta e gera esse significado na imagem.
O valor adicionado se apresenta:
👉Pelo Texto (Linguagem): O cinema é um meio profundamente vococêntrico e verbocêntrico, o que significa que a voz humana e as palavras têm primazia absoluta sobre os outros sons. O texto falado atua como um estruturador da visão, a atenção do espectador para que este veja "naturalmente" na imagem aquilo que a palavra evoca.
👉Pela Música: A música adiciona valor emocional através de dois efeitos principais. O efeito empático ocorre quando a música participa diretamente no sentimento da cena, adotando o seu ritmo e tom. O efeito anempática acontece quando a música exibe uma indiferença mecânica perante a situação dramática (como uma caixinha de música a tocar calmamente durante uma cena de violência), o que, paradoxalmente, intensifica a força da tragédia.
👉Reciprocidade: Embora a tela seja o suporte principal da percepção no cinema, a imagem também adiciona valor ao som. Sons inócuos ou abstratos em si mesmos (como o esmagar de uma melancia ou um gargarejo) transformam-se em ruídos intoleráveis e horríveis de violência quando combinados com o contexto visual sugerido na tela.
👂Sincrése (Sincrese): um termo cunhado por Michel Chion através da combinação de "sincronismo" e "síntese". A fusão mental espontânea entre fenômenos sonoros e visuais que ocorrem exatamente ao mesmo tempo. Esta associação mental opera de forma inteiramente livre de qualquer lógica racional.
👂Fundamento do Cinema Sonoro: A sincrése é o pilar que torna viáveis as técnicas de dobragem, pós-sincronização e mistura de efeitos de som. É ela que permite ao espectador aceitar que o ruído de passos de uma personagem possa ser simulado pelo foley com cascas de coco, ou que as pancadas vistas numa tela sejam realmente produzidas pelo som de um martelo que se ouve em simultâneo.
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👉Contextos: Embora pareça um reflexo automático, a sincrése é moldada pelo significado, pelas leis da psicologia da Gestalt e pelo contexto da cena. Nem todos os sons e imagens aleatórios se colocam de forma igual; seu entendimento com um objeto único depende de fatores de "boa forma" rítmica e de relevância dramática.
👉Contrato Audiovisual: O pacto simbólico em que o espectador aceita considerar os elementos de som e imagem como participando de uma única e mesma entidade. Ou uma suspensão da realidade. O espectador aceita implicitamente ao entrar na sala de cinema, concordando em considerar os elementos sonoros e visuais como participantes de uma única e mesma entidade ou mundo.
👉Contaminação Perceptiva: baseado na ideia do contrato audiovisual, a percepção visual e a auditiva influenciam-se e transformam-se mutuamente. "Nunca vemos a mesma coisa quando também ouvimos; e não ouvimos a mesma coisa quando também vemos". AS percepções se fundem na mente do espectador, resultando num modo de recepção unificado que Chion define como a própria áudio-visão.
👉Ponto de Sincronização (Synch Point): Um momento onde um evento sonoro e o visual se encontram em sincronia absoluta, funcionando como um pilar da estrutura áudio-visual. Funciona de forma análoga a um acorde acentuado na música, sendo o elemento que confere fraseamento e articulação a todo o fluxo temporal.
👉O Soco como Emblema: O exemplo físico mais imediato deste fenômeno é a representação de uma agressão ou impacto. Na tela, a imagem de alguém tomando um soco perde a força se não for "marcada" pela pontuação auditiva do impacto. O som funciona aqui como um carimbo que fixa a instantaneidade do golpe na memória do espectador.
👉Elasticidade Temporal: São pontos de sincronização que permitem manipular a percepção do tempo. Em cenas de luta ou animações, a existência de pontos de sincronia fortes (como golpes ou explosões) dá ao realizador a liberdade de esticar, congelar ou dilatar o tempo ao redor desses mesmos pontos sem que o espectador perca a referência de realidade.
👉Falsos Pontos de Sincronização: Ocorrem quando a narrativa prepara o espectador para um ponto de sincronia forte, mas a montagem visual desvia-se no último segundo (como mostrar um carro indo em direção a um impacto enquanto no último segundo a câmara foca em outro ponto e se ouve o som do impacto). Nestes casos, o ponto de sincronização é projetado na imaginação do espectador.
👂Os Três Modos de Escuta
👂Escuta Causal (Causal Listening)
A mais comum e quotidiana das três formas de escuta é a escuta causal. Consiste em ouvir um som com o objetivo de obter informações da sua causa ou fonte.
👉Função informativa e limitações: Quando a fonte e a causa do som é visível na tela, o som fornece dados complementares sobre ela. Porém, quando a causa ou fonte do som não é apresentada na tela, o som torna-se a nossa principal fonte de informação sobre a cena. No entanto, para Chion este modo de escuta é muitas vezes influenciável e enganador. Em condições normais, fora de contexto pré determinado, raramente identificamos uma fonte exclusivamente através do som, por outro lado, é destacado que a voz humana é uma das poucas fontes sonoras capazes de caracterizar perfeitamente um indivíduo específico de forma isolada.
👉Níveis de identificação: Essa escuta pode operar desde um nível muito preciso (reconhecer a voz de uma pessoa específica) até um nível genérico (reconhecer que o som provém de algo mecânico ou de um animal). Mesmo sem identificar a natureza exata do objeto, conseguimos acompanhar com precisão o som de um ruído de fricção, como as variações de velocidade, ritmo ou pressão.
👉Fontes múltiplas e manipulação: Um som raramente tem uma causa ou fonte única; geralmente resulta da interação de várias, por exemplo, numa mata temos: o vento e o som das folhas, ruídos de insetos e etc. No cinema, a escuta causal é constantemente manipulada pelo contrato audiovisual e pelo fenômeno da sincrése, fazendo com que o espectador atribua o som a causas fictícias que a imagem lhe apresenta como reais.
👂Escuta Semântica (Semantic Listening)
A escuta semântica é aquela que recorre a um código ou a uma linguagem para interpretar e compreender uma mensagem. O exemplo: linguagem falada ou o código Morse.
👉Caráter puramente diferencial: Ao contrário das outras formas de escuta, a escuta semântica funciona com base num sistema de oposições e diferenças linguísticas. O ouvido não se foca nas propriedades acústicas brutas do fonema: altura, timbre e etc. Mas sim no seu valor diferencial dentro do sistema da língua. Por esta razão, este modo de escuta ignora variações consideráveis na pronúncia de um som (como os diferentes sotaques) se estas não alterarem o significado da mensagem.
👉Coexistência de modos: É possível utilizar a escuta causal e a semântica de forma simultânea. Conseguimos perceber simultaneamente o que dito (escuta semântica) e como o diz (escuta causal, avaliando o timbre ou o estado emocional da pessoa).
👂Escuta Reduzida (Reduced Listening)
A escuta reduzida (conceito proposto por Pierre Schaeffer) é o modo de escuta que se foca inteiramente nas qualidades e traços do som (timbre, altura), de forma totalmente independente da sua causa, fonte ou significado. O som passa a ser considerado em si mesmo como um objeto de observação (objeto sonoro).
👉Uma atividade não natural: para Chion a escuta reduzida é uma atividade diversa e significativa, porém não espontânea ou "natural". Ela exige um esforço consciente para evitar o hábito mental de oscilar constantemente entre a fonte do som, o seu significado e as nossas reações emocionais.
👉A necessidade de fixar o som: Como as características sonoras mais complexas são impossíveis de apreender e descrever detalhadamente numa única audição, a escuta reduzida necessita que o som seja gravado e fixado. Com essa “fixação”, o som adquire o estatuto de um verdadeiro "objeto sonoro" que pode ser repetido e analisado.
👉A relação complexa com o acusmático: para Schaeffer o contexto acusmático (ouvir sem ver a fonte) favorecia a escuta reduzida. No entanto, Chion, inicialmente, colocava que o oposto costuma acontecer: pois a falta de apoio visual intensifica a nossa escuta causal, fazendo que o ouvinte se pergunte "O que é isto?" em vez de se focar em aspectos como o timbre do som.
👉Utilidade prática: Para Chion, a escuta reduzida refina a percepção dos criadores e analistas audiovisuais. Ajuda a compreender que o valor emocional e estético de um som está ligado às suas qualidades intrínsecas (como o timbre e a textura) e não apenas da sua causa real ou sugerida.
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👉Acusmático
O termo acusmático, é de origem grega (recuperado por Jérôme Peignot e teorizado por Pierre Schaeffer), descreve qualquer som que se ouve sem que a causa ou fonte original estejam visíveis. Meios como a rádio, o fonógrafo e o telefone são suportes acusmáticos. No cinema, um contexto acusmático pode se apresentar de duas formas:
1. Um som quando “visualizado”: Quando o som é inicialmente associado a uma imagem clara da sua fonte (por exemplo, um personagem a falar). O som no processo acusmático: Quando esse som volta a ser ouvido em outro momento sem a imagem, nesse contexto a nossa mente projeta de imediato a representação visual que já conhece.
2. O som acusmático de início e em seguida visualizado depois: A fonte do som é mantida em segredo absoluto, o que gera mistério e suspense sobre a natureza e fonte. É um recurso clássico em filmes de mistério para introduzir ameaças ou personagens importantes antes de estes se revelarem fisicamente.
👉Acusmetro
O acusmetro é termo criado por Michel Chion a partir do termo acusmático e o verbo ser (être) refere-se a um "ser virtual” específico do cinema que se ouve, mas cujo corpo não aparece na tela. O acusmetro em um “limbo espacial” do filme, não está na imagem da tela e nem fora dela pois está presente na ação e pode surgir a qualquer momento.
Geralmente, o cinema atribui ao acusmetro três faculdades e um predicado fundamentais:
Visão absoluta: Por estar associado à própria câmara (identificação primária).
Omniscinência: Decorrente da sua capacidade de observação ilimitada.
Omnipotência: A capacidade “mágica” de agir sobre a situação narrativa através do poder da palavra.
Ubiquidade: A capacidade de se fazer ouvir a partir de qualquer ponto.
Existem também os chamados acusmetros paradoxais ou parciais, aos quais faltam alguns destes poderes como narradores que não conseguem ver ou compreender tudo o que a imagem mostra ou personagem.
👉O som Visualizado ou “Desacusmatizado”
O som visualizado ou “desacusmatizado” é o oposto do acusmático: trata-se do som que passa a ser acompanhado pela visualização clara da sua fonte ou causa. Este passo é sempre um momento dramático de grande relevo:
Domesticação da voz: Através da sincronia entre o que se vê e o que se ouve, a voz é capturada, humanizada e confinada aos limites físicos de um corpo.
Para Pascal Bonitzer, a revelação visual do acusmetro marca a humanização do “ser virtual” que passa a ser comum e vulnerável. Ao aparecer na tela, o “ser virtual” perde os seus poderes misteriosos e divinos. Neste processo a “voz em off” passa a ter um corpo, a voz passa por uma incorporação.
👉Magnetização Espacial (Spatial Magnetization)
Chion chama atenção para o processo psicológico pelo qual o espectador localiza na imagem a fonte de um som, independentemente do local físico de onde o som emana na sala de cinema, ele chamou esse processo de magnetização espacial (ou espacialização mental).
Nele temos uma ilusão física. Numa cena, se um personagem caminha de um lado para o outro da tela, o espectador sente que o som dos passos acompanha o movimento visual. Se o personagem sai de cena, os seus passos continuam a ser percebidos como "fora de campo", temos aqui uma projeção que é puramente mental.
Este fenômeno prova que a nossa percepção espacial no cinema depende muito mais da sugestão visual e dramática do que da realidade acústica, temos uma prevalência da visão. A tela funciona como um guia para a percepção dos sons, organizando-os na mente do "áudio-espectador".
👉Índices Sonoros de Materialização (I.S.M. / Materializing Sound Indices)
Os Índices Sonoros de Materialização (ISM) são as micro-irregularidades e detalhes acústicos que nos fazem sentir as condições materiais e físicas de produção e da fonte de um som.
Concreto: Um som pode ter ISM de zero a infinito. Uma abundância de ISM puxa a cena para o domínio do físico e do tangível (por exemplo, passos onde se ouve o ranger do cabedal dos sapatos ou o atrito da roupa).
Abstrato: A ausência de ISM (procurada na música ou em efeitos sonoros artificiais do audiovisual) confere uma sensação de perfeição, eterização e evoca o surreal.
Estes índices traduzem a resistência de um material ou as imperfeições de um movimento. Numa voz, os ISM manifestam-se através de ruídos de respiração, sons de garganta e boca, ou quebras de timbre. Num instrumento (como o piano), manifestam-se no ruído físico do bater dos dedos nas teclas ou no ataque mecânico das cordas.
👀Funções Musicais e Narrativas
Antes de continuar, é interessante apresentar para aqueles que não são iniciados no estudos sobre som e música no cinema dois conceitos importantes para entendermos de forma clara o texto do Chion.
Música diegética: é aquela que faz parte do mundo ficcional retratado em uma narrativa (como um filme, série, peça teatral ou videogame) é executada ou ouvida conscientemente pelos personagens.
Música não diegética (extra diegética): é a música incidental ou trilha sonora ouvida pelo espectador, mas não pelos personagens (como um filme, série, peça teatral ou videogame). Porém em casos de filmes musicais, essa música não é diegética se apresenta em situações em que os personagens cantam de uma maneira que não fariam em um contexto realista.
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👉Música Empática (Empathetic Music)
A Música Empática é aquela que expressa uma participação direta e ativa e potencializa os sentimentos, a atmosfera e a carga dramática da cena apresentada na tela, utilizando de elementos musicais como a harmonia, o ritmo, o timbre para pontuar as ações das personagens. Para ser eficaz, a música empática apoia-se fortemente em códigos culturais preestabelecidos que associam certas estruturas musicais a sentimentos específicos, como a tristeza (à acordes menores de uma quinteto de cordas) ou a iminência de perigo ou a sensação de movimento (a estruturas rítmicas acentuadas sobre uma mesma nota).
👉Música Anempática (Anempathetic Music)
Já a Música Anempática caracteriza-se por exibir uma indiferença sistemática e deliberada em relação à situação dramática ou trágica que se desenrola na tela. Esta música funciona como um pano de fundo indiferente ao contexto dramático exibido. Longe de congelar ou anestesiar a emoção do áudio-espectador, este efeito de neutralidade tem o impacto paradoxal de intensificar e amplificar a força da tragédia.
Michel Chion argumenta que a música anempática está intimamente ligada à própria essência mecânica do cinema, pois revela o "rosto robótico" da projeção, afinal temos uma projeção de rolo de filme, ou mídia digital reproduzido automaticamente.
👉Música de Fossa (Pit Music)
A Música de Fossa ou música não-diegética, isto é, aquela que acompanha a imagem a partir de uma posição exterior ao espaço e ao tempo da ação narrativa. O termo deriva, por analogia, do fosso de orquestra do teatro e da ópera clássica, situando-se fora do mundo habitado pelas personagens. Na teoria e análise de cinema, este conceito é também frequentemente designado como música de comentário ou música objetiva.
👉Música de Tela (Screen Music)
A Música de Tela é aquela que emana de uma fonte localizada, direta ou indiretamente, dentro do próprio espaço e tempo da narrativa (música diegética). Esta música pertence ao mundo físico das personagens, quer provenha de um rádio, de um gira-discos, de um instrumento tocado por um músico visível na tela ou mesmo de uma fonte situada fora de campo, mas que ainda assim pertence à geografia da cena.
👉Voz-I (I-Voice)
Ela representa um estatuto vocal excepcional no cinema, ocorrendo quando uma voz é ouvida em grande plano sonoro (sound closeup), caracterizada pela ausência total de reverberação. Esta secura acústica e proximidade física extrema produzem um duplo efeito psicológico no espectador:
Por um lado, o espectador tende a internalizar esta voz de forma íntima, identificando-a como se fosse a sua própria voz mental.
Por outro lado, a voz assume o controle absoluto e invade a totalidade do espaço diegético.
A Voz-I situa-se, assim, num ponto de tensão fascinante: é simultaneamente ultra-interna e uma força que coloniza e satura o universo inteiro. Chion explica que esta potência decorre de uma condição antropológica fundamental: a voz humana é o som original e definitivo que tanto nos preenche por dentro como emana de nós para o exterior.
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